Déjà Vu de Ferro: O Natal que Nunca Acaba
Por: Waldryano
Aqui estou eu de novo. Olho para essa torre de pesos e sinto um déjà vu esmagador. É véspera de Natal, mas se eu fechasse os olhos e sentisse apenas o frio do aço nas mãos, poderia ser qualquer dia de 2024, 2018 ou aquele distante 2010. O cenário não muda. O cheiro da borracha, a luz fluorescente que oscila e essa pilha de anilhas que parece me encarar de volta.
É uma falha na Matrix da minha própria vida. Mais um ano no "quase", uma sensação de que estou preso num looping desde os meus 34 anos. O relógio lá fora corre desesperado para o Natal de 2026, mas aqui dentro, o tempo é circular. Eu mudo, a idade pesa, as dores agora têm nome e sobrenome enquanto beiro os 50, mas o cenário... o cenário é o mesmo porto seguro e, ao mesmo tempo, a minha prisão voluntária.
Há um tédio latente em ver o mundo celebrar a "novidade" de um novo ano, enquanto eu sei que estarei aqui, enfrentando os mesmos 40kg, 50kg, 55kg. O pesar da existência se confunde com o pesar do exercício. É como se eu já tivesse vivido este exato momento mil vezes: o silêncio da academia vazia na véspera, o suor que é o mesmo de uma década atrás, e a promessa silenciosa de que, no ano que vem, o cenário será exatamente este.
Terei como cenário, sempre, um peso e uma força. Uma vontade teimosa de viver mais um capítulo desta existência única, mesmo que ela pareça um filme repetido. Talvez a verdadeira força não esteja em mudar de cenário, mas em ter a coragem de encarar o mesmo, ano após ano, sem recuar.
O mundo gira em luzes de Natal, mas o meu mundo gira em torno deste eixo de metal.
Filosofias à parte, o déjà vu não é um erro; é o foco. Pare de roubar e encara o peso. Ele é a única coisa que não mente.
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