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7.7.18

Sobre a Escrita… – Conto de Clarice Lispector

Sobre a Escrita…

Clarice Lispector


Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.


Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.


Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.


Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.


Simplesmente não há palavras.


O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.


Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.


Simplesmente as palavras do homem.


Conto de Clarice Lispector

Felicidade Clandestina – Clarice Lispector

Felicidade Clandestina 
Clarice Lispector

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Crônicas de um Velho Jovem

Amor - Clarice Lispector

Amor
Clarice Lispector
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível… O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo… E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada… Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado… O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.
Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha… Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles… Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.
Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água – havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d’água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.
Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
— O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.
Texto extraído no livro “Laços de Família”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19, incluído entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi.
Contos Clarice Lispector

4.7.18

Uma amizade sincera - Clarice Lispector

Uma amizade sincera 
Clarice Lispector

Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de uma amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.


Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seu amores. Experimentávamos ficar calados – mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.


Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes.


Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.


Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto – eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.


Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.


Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.


Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco. Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou. ]


Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.


Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.


Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.


É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade – posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.


Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.


Encerrada a questão com a Prefeitura – seja dito de passagem, com vitória nossa – continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.


Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.


A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.

Conto Clarice Lispector

27.5.18

Nova vida

"Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração. E lhe darei as suas vinhas dali, e o vale de Acor, por porta de esperança; e ali cantará, como nos dias da sua mocidade, e como no dia em que subiu da terra do Egito". 

 INTRODUÇÃO 

 O Senhor convida o homem para ter uma nova vida ao seu lado, e viver a cada dia o milagre da Salvação. 

 DESENVOLVIMENTO 

 "Portanto, eis que eu a atrairei…" mesmo não sendo merecedores ele nos atraiu com seu amor (Ele nos amou primeiro). "E a levarei para o deserto…" Nos tirou da cidade, da confusão, da razão, da estrutura religiosa, para vivermos totalmente dependentes dele. No deserto não há recurso, mas Ele é: Água da vida, pão vivo, refrigério e tudo mais. "E lhe falarei ao coração…" Agora livres podemos ouvir a Sua voz. "E lhe darei as suas vinhas dali…" E desta comunhão vivendo na total dependência do Senhor, recebemos a sua herança, que é a bênção do Seu Espírito. "E o vale de Acor, por porta de esperança…" É a transformação que ele faz em nós. Acor (Tormenta) por Esperança de Vida Eterna. "E ali cantará, como nos dias da sua mocidade…" É o louvor de uma nova vida, um novo nascimento. "Como no dia em que subiu da Terra do Egito…" Foi o que o Sangue de Jesus nos proporcionou, deixamos de ser escravos para ser livres. CONCLUSÃO O Espírito Santo tem convidado o homem todos os dias para viver esta experiência, de ser dependente do Senhor. Não olhando para os lados, para a razão, para o que é deste mundo, deixando que o homem Espiritual governe sobre o racional. Trindade: Atrairei: Jesus nos atraiu Levarei: O Espírito Santo é quem conduz Falarei: A palavra do Pai.

Pregação sobre Apostasia

"Então Elias, o tisbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe: Vive o Senhor, Deus de Israel, perante cuja face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá, senão segundo a minha palavra.... 

INTRODUÇÃO: 

O momento que Israel vivia no texto era um momento de apostasia. O povo havia sido contaminado pela idolatria de Jesabel, desviando-se do Senhor; negando a fé verdadeira. 

DESENVOLVIMENTO: 

Estamos vivendo um momento que se assemelha a este, um cristianismo apóstata e materialista, mas há um pequeno povo que nesta hora está com a revelação como Elias, o profeta. Veio a ele a palavra do Senhor...: O momento da igreja nesta hora é de ouvir a voz do Senhor, numa experiência diária de comunhão e consagração a ele. Vai-te daqui: Quem vai, vai por um caminho; e Jesus é o caminho que se abriu para a igreja. Vira-te para o Oriente: O oriente é o lugar do nascer do sol, e Jesus é o sol da justiça que faz refletir sobre a igreja a luz da sua revelação. Esconde-te junto ao ribeiro de querite: o ribeiro de querite corre por uma passagem estreita e profunda e podia por esse motivo servir como um refugio. Jesus é o rio das águas vivas no qual nós podemos nos refugiar neste momento de inteira frieza espiritual, dessedentando o nosso coração pela ação da operação do seu Espírito. Beberás do ribeiro: O povo de Deus, o servo fiel no momento da provação do calor causticante, das lutas, tem o Senhor Jesus, o manancial das águas vivas, que nos traz refrigério, o consolo, o alento pelo poder da sua palavra em nós. Tenho ordenado os corvos...: Elias foi o servo que foi alvo das operações de maravilhas, dos milagres de Deus; assim como a igreja tem sido alvo do amor e do poder de Deus, movendo todas as coisas em favor daqueles que lhe obedecem, que o ouvem, usando até mesmo vidas que às vezes nem o servem para suprir as necessidades daqueles que o serve e o amam. Traziam pão e carne pela manhã e à noite: profético à maneira como o Senhor sustenta sua igreja no mundo. A igreja primitiva que iniciou o seu trabalho de evangelização no mundo, foi sustentada pelo pão que é o próprio Senhor Jesus; o pão vivo que desceu do céu, dando a ela a permanência da sua carne que é a comunhão no corpo através do clamor, das suas revelações e orientações. Assim a igreja da última hora, da saída do mundo para a eternidade é sustenta pela palavra revelada que revela Jesus, o pão da vida prevalecendo no corpo através da comunhão, transbordando do Espírito Santo. 

CONCLUSÃO: 

Neste momento do evangelho apóstata e terno mergulhado na idolatria, a obra do Espírito Santo prossegue na revelação, escondida no clamor pelo sangue de Jesus e firmada na doutrina da palavra. Assim como Elias foi arrebatado aos céus em um carro de fogo, a obra e a igreja fiel serão arrebatadas voltando ao seu lugar de origem.

26.5.18

Estamos tudo Parado!

Por Waldryano

Nos meus trinta e pouco anos, para falar a verdade nunca vi algo tão surreal quanto o meu hoje. Cito 26 de Maio de 2018. É que esta tudo parado!

Assustadoramente parado.

Escutei, pense? aqui perto da minha casa, cito uma cidadezinha do interior uma carreata de protesto.
Agora você leitor, pode dizer que estou exagerando. Teve aquele papo do Collor, onde ele literalmente congelou a nação e o papo Dilma, onde houve aquele panelaço.
Mas você leitor pode concordar comigo eu deixo. 5 dias com as modais mais importantes do Brasil paralisadas. Estradas. Com São Paulo SP fantasmagoricamente parada. Com os seasas da vida parados. É sim nos meus trinta e tantos anos os dias mais negros que poderia ter vivido.
O Caos em cadeia não é?

E isto é para todo o lado. A falta de transporte, e principalmente o combustível. Já fez uma reação em cadeia.





E para quem fica a conta?

Depois de acontecer a gente vai se informar. 

Em miúdos é o seguinte. Lembra aquele tempo que o Eike Batista foi pra cadeia? Pois é, para dar aquele help para Petrobras que não andava bem das pernas, digo lá na bolsa de valores. O governo fez esta medida de deixar o preço flutuante. Moral da história? A bolsa ficou muito feliz, as ações da Petrobras voltaram a ser confiáveis, e para o governo até ajudou na inflação.

Uma sangria no bolso do Brasileiro.

Mas o mais grave foi nestas  duas últimas semanas que mexeram no diesel. E também flutuou, mas de modo exagerado.

Caminhoneiros. Ganham pouco. Trabalham muito. São obrigados a enfrentar péssimas estradas, as boazinhas tem que pagar pedágios caros! E a sobrecarga de trabalho, para ganhar um pouco melhor. Traz perigos inimagináveis aos vis mortais.

Eu trabalhei um ano  e meio (2008) com carregamento de caminhões e observava como era. Vida de Peão. E esta vida, deve de ser trabalhada de graça? Pois o futuro tava indo pra este lado. Os coitados estavam indo para este lado. 

O protesto esta já surtindo efeito. E este governo corrupto e golpista. Pois eu sempre considerei assim. Aquele Michel Temer, pigarrento, cara de bruxo e fica nos seus discursos fazendo um gesto de lavar as mãos. Não merecia estar onde esta. Fez o jogo sujo com a mocinha que também aprontou com o Brasil, e esta lá, sem poder resolver o problema, pois caminhoneiros são autônomos.

E hoje dia 26 caiu uma ficha, sair multando as transportadoras, pra acabar com esta. Ao ver do governo. Maldita Greve.

Olha, leitor. Espero que dê tudo certo, estamos aqui tudo parado. Mas há males que são para o bem não é? Este espero que dê uma ajeitada nesta carga bagunçada que é o Brasil.

vídeo prevê a greve

Crônicas de um Velho Jovem

3.5.18

Felipe Camargo Campeão


Fiz um post contando sobre a primeira série de esporte exclusiva do Netflix, e quem é o vencedor???
O Brasileiro Felipe Camargo!!! Entre tantos sarados o nosso magrelo se deu bem!!!






Já virei fã do rapaz!!!


O alpinista brasileiro Felipe Camargo , nascido em 1991, ganhou entre 108 adversários do Brasil, EUA, México, Japão, Coréia e Alemanha, a Netflix final Beastmaster , corrida de obstáculos, com a participação dos melhores atletas americanos e cinco outras nações . Camargo foi premiado com um prêmio de 50 mil dólares.

No reality show do Netflix alguns dos melhores atletas do mundo são colocados à prova em uma pista de obstáculos idealizada para ser a mais difícil de todos os tempos, considerando outras atrações que já passaram.

"Eu ganhei o show e a final foi com um ex-campeão do mundo de escalada do gelo coreano !!"

Em 2007, aos 16 anos, o brasileiro estava na 27ª posição no Campeão do Mundo escalada.

Ops meu post sobre desta série abaixo!!! Abraços
>>>


Comecei a assistir um reality show original da netflix, que esta rolando atualmente. Produzido por Sylvester Stallone. O nome é Ultimate Beastmaster. Pela tradução literal ser bem estranha o nome Beast master fica mais adequado. O Reality é bem interessante, pois envolve países onde escolhem representantes para disputar um game que lembra bem jogos de ação do vídeo game. Lembra também os realitys tipo o extinto No limite que passava na Globo.
Mas o que é mais interessante é sem dúvida o envolver países e seus representantes. Inclua aí o Brasil \o/. Torna a 'bagaça' bem original. A apresentação Brasileira  ficou a cargo do antigo CQC Rafinha e o quarentão Anderson Silva.


O primeiro episódio que assisti, quem Ganhou foi um Coreano especialista em Escalada no Gelo.

Neste episódio teve dois Brasileiros, uma Cabeleireira, e um instrutor de Parkour. ou seja. bem diversificado. Vale a pena a Maratona, pois esta disponível a primeira temporada no Netflix. Abaixo minha pesquisa habitual. Atualizando o post conforme for assistindo.

Conforme prometido maratona rolando e no sétimo episódio o Brasileiro Alpinista chega e consegue ser o único a vencer a final da fase do ultimate beastmaster. Então se você de curioso chegou aqui e tem netflix. Assista o sétimo capítulo e veja o brasileiro ganhando da gringarada... veja no facebook o Cara!!! 
https://www.facebook.com/felipecamargopage/videos/980630038738314/


Minhas considerações: Já há tempos o Youtube vem tomando conta do entretenimento das pessoas. E o Netflix vem com esta mesma levada. Hoje o imediatismo e a falta de tempo, faz com que as pessoas queiram assistir tudo de uma vez no seu tempo o que lhe convêm. E vale até para Reality Show. A televisão cada dia perdendo espaço para esta nova interação. Que diga-se de passagem é a minha favorita. Sobre o Reality, Gostei, cenários ben Hi-tech e o Senhor Sylvester dá um chamarisco a mais para a atração. E ver outros apresentadores todos interagindo ao mesmo tempo, ficou bem legal... Confuso? Só assistindo mesmo pra entender...

A Netflix divulgou nesta segunda-feira o primeiro trailer de sua nova produção: com produção de Sylvester Stallone, Ultimate beastmaster é o primeiro reality show feito exclusivamente para o serviço de streaming.
O programa será uma competição esportiva – nos moldes das disputas de "homem mais forte do mundo" – gravada com 108 competidores em seis países: Brasil, Estados Unidos, Coreia do Sul, México, Alemanha e Japão, cada um com 18 participantes.
Ultimate beastmaster, que tem estreia marcada para 24 de fevereiro do ano que vem, terá 10 episódios de uma hora, em que dois competidores de cada país terão que enfrentar um percurso de provas de força apelidado de "A besta".
Cada país participante terá apresentadores locais. Os segmentos gravados no Brasil serão comandados pelo humorista Rafinha Bastos e pelo lutador de UFC Anderson Silva.
Netflix divulgou o primeiro teaser de Ultimate Beastmaster, reality show produzido por Sylvester Stallone
Ultimate Beastmaster colocará candidatos de diversos países, incluindo o Brasil, competindo em árduas provas físicas. Ao final da primeira fase, nove finalistas disputarão entre si o título de “Ultimate Beastmaster”. Cada episódio será situado em um país e contará com apresentadores próprios. No Brasil, quem fica a cargo do comando das provas é o lutador de MMA Anderson Silva e o comediante Rafinha Bastos.
Além dos EUA e Brasil, a primeira temporada mostrará provas em países como Coreia do Sul, Alemanha, México e Japão.
O programa estreia em 24 de fevereiro fonte 

Crônicas de um Velho Jovem
Netflix Séries

30.4.18

Manuscritos de um viajante do tempo

Meu pai sempre com uma obsessão por relógios antigos e viagem no tempo. Eu por Edgar Allan Poe. Ele um relojoeiro, de antiguidades, e eu prestes a me formar em Física.
A minha infância inteira observei meu pai dentro daquela oficina, antiga e empoeirada, montando preciosidades que não contrastam com o nosso tempo.
No projetor que era representado na mesa, assistia minhas séries. A tristeza de crescer sem um pai presente era suprida pela vida stream e também por livros, que lia no meu outro projetor holográfico, que outrora utilizava na mão.
- Filho, já vai substituir estes aparelhos obsoletos, pelos Nanobots que o governo irá disponibilizar. Ouviu Miro?
Não adiantava, meu pai estava obcecado. Ele queria provar uma teoria maluca, que teve em um sonho: Uma máquina do tempo.
Antes de ir à escola passava na frente da sua oficina, que era em um cômodo da nossa casa. Tentava um sorriso, um esboço de sentimento. Nada. Ele ficava em devaneio na frente daquelas minúsculas peças.
- Só mais um rubi encaixado nesta engrenagem, alinhada com o balanço, eu sei que é isto eu vi!
Fiquei a observar a decepção.
- Droga!
E mais uma vez desmontava para montar de novo aquele relógio de bolso.
- Eu sei que é um alinhamento - ele disse. Me olhou de soslaio e voltou a sua intensa rotina de buscar por aquela utopia.
- Deixe-o, vá estudar, até parece que esta perdendo o juízo - minha mãe interrompeu.
O estudo me tornou em um Físico. Alinhamento de prisma foi o meu trabalho de conclusão de curso. Quando retornei da capital já era homem feito e o conceito Nanobots foi implantado à população. Era uma nanotecnologia que inseriria ao cidadão a uma Neuronet. Para isto, era aplicada na corrente sanguínea uma microscópica tecnologia através de um transmissor temporal (nas têmporas). Deste modo, tu terias a possibilidade de utilizar um sensor na pupila, que lhe traria informações advindas de Neuronet.
Agora eu era um cara moderno, estava conectado; minhas leituras e experiências estavam turbinadas!
Meu pai? Bem, não aceitou a tecnologia, e o seu objetivo de vida, utópico, até mesmo neste tempo de progresso. Foi deslocado a um manicômio onde pessoas que não se adaptavam ao novo eram enviadas. Mas não era somente a adaptação que lhe fez ir para lá. Era a obsessão por raridade, e por um sonho que como disse era um sonho: Viajar no tempo.
Olho na mesa, permanecia naquele local o transmissor temporal que ele não aceitou, guardei no bolso, iria vender, e ganhar algum crédito adiante.
Fui a sua oficina. Olhei com nostalgia e busquei aquele relógio de bolso antigo que ele tanto trabalhara, pois iria levar comigo. Minha mãe já não estava entre nós. Precisava seguir meu rumo.
Encontrei e guardei as peças. Por tanto observar saberia montar e iria guardar para recordar.
Em casa, antes de dormir, minha obsessão por Poe continuava. Tentei dormir, mas o sono não vinha. E eu lia. Como lia! Tentava entender o porquê de alguém tão talentoso nunca ter escrito um romance?
Agora, no meu apartamento, utilizo o meu visor óptico escolhendo um arquivo de informações, iria lidar com o relógio. Não encontrei, era muito obsoleto. Nem na Neuronet encontrava algo para fazer tal proeza.
Sentei à mesa e desmontei-o completamente. Peças minúsculas e um pequeno rubi. Lembrei-me do meu artigo. Alinhamento de prismas. "Vou montar e colocar os meus conceitos em ação como um souvenir neste relógio.", pensei. Deste modo, no meu novo emprego iria olhar para o relógio e para o meu trabalho de conclusão. Lembrarei, assim, de fatos importantes para minha vida.
Saí e busquei duas gemas pequenas. Era o que faltava.
- Agora um rubi, um diamante e uma esmeralda.
Comecei montar as peças daquele minúsculo quebra cabeça, o visor óptico ajudou, pois acessei uma lente de aumento microscópica e com muito cuidado coloquei o balanço.
Feito isso, bastava colocar o meu conceito de alinhamento de prisma em Ação. Segundo meu estudo, formular um alinhamento entre três pedras e em um momento exato de feixe de luz tornaria uma fusão de espectros, trazendo, deste modo, uma passagem temporal. Os cálculos foram convincentes, a ponto de receber nota máxima no curso. Todavia era agora que iria colocar em prática.
Pronto! O alinhamento foi feito, um triângulo exato, montado naquele relógio. Precisava de mais cálculos para saber qual seria o momento exato do feixe de luz solar deveria reincidir naquele relógio com o meu conceito inserido nele.
Dormi. Fui ao meu novo emprego, havia muita coisa burocrática e comecei a pensar naquele relógio em casa. "Serei eu o próximo obcecado por relógios antigos e máquinas do tempo?", pensava.
- Máquinas do tempo?
Deixei o meu trabalho de lado, fui ao banheiro, acessei a Neuronet, e comecei a fazer cálculos. Revisei todo o meu artigo e fiquei entusiasmado, pareceu-me que as informações fluíram.
- Preciso visita-lo.
E fui.
Era um local horrendo, as pessoas ficavam expostas em jaulas cibernéticas. Meu pai estava lá, mas não me reconheceu.
- Eu tenho certeza, eu sonhei, é possível - balbuciava ele.
Já em casa, triste, voltei a ler Poe, tentando esquecer a cena. Coloquei a mão no bolso, ainda estava lá o aparelho temporal que meu pai não instalou e pequenas gemas que sobraram.
Acessei a sala e voltei ao meu projeto de alinhamento do prisma.
- Era um feixe de luz, em um momento exato, era este o enigma. E tinha absoluta certeza que descobrira a charada.
Acertei! Quando exatos ao meio dia coloquei aquele triângulo com um calculo perfeito, tanto das gemas como do tamanho em si, esperando que o que tanto estudara, fizesse efeito.
E fez. Na parede daquela sala. Uma espécie de arco-íris abriu-se. E nele um vulto escuro. Peguei aquele relógio vintage e coloquei duas horas atrás.
-É isto!
Entrei naquele prisma e voltei para exatamente duas horas antes dos acontecimentos! Só que eu precisava ser mais preciso. Voltei ao relógio, mas dessa vez coloquei um calendário milenar e informações de localização. Sofri dias com isto, pois eram peças pequenas e uma engrenagem analógica. Tive que criar com uma impressora 3D muitas peças, até faltei ao trabalho.
Do que importava? Era ousado e fantástico o conceito. A minha obsessão por Poe, era tão grande que a data foi no seu tempo. Ao colocar longitude e latitude, iria para o local onde queria.
Abri o prisma. Precisava me jogar, sem saber exatamente se estaria correto. Poderia morrer ao lançar-me naquela parede! Mas, se deu certo anteriormente... Precisava tentar.
E deste modo fui conhecer Edgar Allan Poe!
1
Quando me joguei naquela fenda nunca imaginei o que iria acontecer. Estava agora em meio a um temporal de imagens e sentia meu corpo reluzir, coisas de segundos, que me pareceram horas.
Notei que estava em queda livre. Quando caí, acordei um mendigo daquele local. Era uma rua, mais precisamente um beco.
- Não se pode nem dormir sossegado!
Era noite. Iluminava a cidade algumas candeias que não representava o todo da cidade. Era um breu.
- Tu caíste do céu? - disse o mendigo que parecia bêbado. - Ah, deixa pra lá, bebi demais preciso dormir.
Meu corpo estava dolorido. Levantei e observei que a minha roupa não era apropriada, uma espécie de elastano termica, que se adaptava ao ambiente. Precisava sair daquele local, mas com aquela roupa não.
O mendigo continuava a dormir.
Eu averiguei que meu relógio de bolso estava intacto, e no outro bolso estava com o projeto temporal do meu pai e algumas pequenas gemas extras que tinha trazido comigo. No meu tempo o diamante era manipulado, sendo corriqueiro e muito utilizado em equipamentos tecnológicos, bem como outras gemas também.
Olhei aquele mendigo fedido e entendi ser aquela, a roupa perfeita para perambular por aquele local em busca de Poe. Com muito custo acordei o tal.
- Preciso das tuas roupas. Trocaria por isto?
- Vale algum, este cristal?
- É um diamante, e dos bons - disse, aproximando-me do seu ouvido, que fedia a alguma bebida daquela época.
Tive que ficar pelado e ver aquele ser bizarro na sua intimidade. Quando ele vestiu as minhas roupas sentiu um estranhamento, pois ela aderira a pele de modo perfeito.
- Epa, coisa de bruxo isto! - disso o mendigo. Saiu com o cristal, que estaria com a vida ganha: beberia até morrer de cirrose e desfrutaria de belas mulheres.
Agora eu caminhava sem sentido certo, estava me habituando com a temperatura. Era bem estranho sentir frio e a roupa estava rasgada, suja e fedia a rato podre.
Pelos meus estudos, estava perto da casa do Poe. Meu plano era encontrar com ele, dar-lhe uma sugestão de livro, ou até mesmo oferecer-lhe a oportunidade de ir ao futuro para encontrar algo interessante para narrar, e voltar para o meu emprego chato de repartição.
Em uma taverna próxima, ouço socos, garrafas quebrando e muita confusão. Logo depois vejo uma correria com um homem usando um sobretudo preto e chapéu da moda. Senti medo! Peguei aquela coberta, deitei no chão, me cobri e fiquei a espionar o sucedido.
Eu, com os 22 anos de idade, e olhei para o relógio averiguando a data, adentrei na neuronet que misteriosamente funcionava, acessando meu sensor óptico e fiz alguns cálculos. Edgar Allan Poe estaria com vinte e cinco, era um jovem assim que eu encontraria.
A gritaria continuava. Parei de acessar, achei que poderia arrancar suspeitas. O tumulto estava vindo para o meu lado.
- Peguem este patife ladrão - alguém de sobretudo preto estava sendo jogado justamente onde eu estava.
Quando olhei, meu mundo que já estava bem abalado desmoronou. Eu o imaginava a partir de fotos, mas na minha frente, com um pequeno sangramento no supercílio, vi alguém muito parecido a mim.
- Poe, ladrão de cartas, vai ter que pagar - o outro dizia.
Olhos assustados agora viam duas pessoas muito parecidas.
- Bruxaria - gritou um, de longe. Ao escutarem um bater de asas de longe, todos saíram correndo.
Estávamos eu e ele frente a frente.
2
Quando os vândalos se dispersaram entendi, ao ver em um telhado próximo, um corvo com olhos vívidos que pousou e ficou a nos observar. Poe sentava na rua, colocando a mão no machucado. Tinha um olhar sombrio e assustador.
- Este animal me persegue - pegou um lenço no bolso e olhou para a ave. - Nunca mais serei o mesmo depois deste corte.
Ele me olhava, mas não sei se havia percebido a semelhança.
- O que foi? Parece que viu um fantasma! O que é isto? - Esqueci-me de disfarçar o projetil que me permitia acessar a neuronet. - É mudo ou o quê? Salvaste a minha vida, merece um rum.
Fomos a casa dele e tive outro encontro que arrepiou meus braços por completo. Um gato, com um instinto assustador, me olhou, passou as patas em mim e voltou ao seu dono.
- Parece que ela gostou de você. - Ele sentou na cadeira e acendeu um cachimbo. - Fale alguma coisa, és mudo?
Serviu-me uma bebida. Em um gole só tentei digeri-la. Cuspi, no futuro não era permitido álcool, ainda mais com aquele teor. A gata preta miou e Poe, já recuperado do ferimento, riu. Eu disse:
- Meu Deus! - eu disse.
- Pelo menos não é mudo - respondeu. - O que quer de mim?
- Sou do futuro, vim ajudar-te com o seu livro.
3
Pensei que o homem me chamaria de louco ou coisa assim.
- Como? - disse ele, tragando seu cachimbo. - Será que até no futuro aquele cretino do Rufus fala de mim? Sou contista, não preciso escrever textos longos para deixar cravado na mente dos leitores meu conceito de arte. A propósito, o que é isto? - Apontou para meu projétil transmissor que estava inserido na minha têmpora.
- É difícil explicar, mas trouxe um extra. Quer usar? - eu respondi.
- É uma a espécie de ópio, que causa alucinação? Pode parecer-te estranho, e a sua conversa me deixa confuso, no entanto, preciso criar, e escrevo de madrugada, não posso estar alucinado, nem sóbrio.
- Quer usar? - repeti. - Com este dispositivo poderás ter todo acesso de informação da Neuronet.
- Neuronet?
Pensei no tempo de Poe. Mesmo que brilhante seria muito complexo explicar conceitos de navegação digital.
- Use-o, parecerá uma sanguessuga fixada na sua testa num primeiro momento, depois sentirá algo estranho, e logo após a magia acontece. Com seus olhos poderá acessar informações de tempos futuros.
Poe levantou, parou de tragar o cachimbo, pegou o transmissor, e disse:
- Dê-me isto aqui, não tenho medo nem de cemitério, quiçá de uma sanguessuga, seu bruxo. - E colocou-o.
Sentou naquela cadeira novamente. Sua pupila dilatou e logo após o sensor óptico estava instalado. Poe ficou em transe, o gato miava desesperado. O felino me olhou com olhos vorazes. E se aproximou de mim de um modo ameaçador. Poe estava degustando de todo o conhecimento de um futuro distante, e aquele gato afiando as garras naquela madeira, vindo em minha direção.
4
Quando o Gato estava se achegando, senti que a morte estava próxima. Aquele gato seria um ser maligno que cravaria suas unhas no meu pescoço por ter feito mal ao seu dono?
Allan saiu do seu transe, de modo assustadoramente natural.
- Catarine, não faça mal ao moço - disse ele. - A propósito me dê o seu dispositivo de viagem no tempo, li os manuscritos que você esta escrevendo. Estava narrando a minha aventura, desde que comecei estas viagens. Realmente, seria bom conhecer o futuro com a tua bruxaria.
Dei-lhe o relógio. Ele olhou falando...
- Tão moderno este aparelho - falou enquanto olhava o objeto. Clicou no botão, girou a coroa e foi. O gato deu duas miadas, o suficiente para voltar. Com o cabelo despenteado e com um rosto esbranquiçado. O excêntrico entoou:
- Vai embora, preciso criar.
O gato parecia um felino e o dono já estava entendendo que lhe parecia um tormento qualquer ver-se duplicado e conversar coisas totalmente sem sentido com um estranho. Retirou o projétil. 
- E leve a sua sanguessuga com você.
Quando voltei, corri ler o romance que escreveu. Decepcionei-me! Com todo o conhecimento em mãos, a oportunidade de viajar para qualquer momento do futuro... O rapaz se viu motivado a narrar um fato real que aconteceu cinquenta anos depois da sua morte?
Ele era muito parecido comigo, isto me deixava intrigado.
Precisava visita-lo mais uma vez, somente mais uma vez, para seguir a minha vida.
Ele estava lá. Eu compreendi do quem se tratava e de um modo bastante ameaçador. Agora, com a consciência em si, meu pai falou:
- Me dê o relógio, eu preciso voltar!
Era ele, meu pai era Edgar Allan Poe. Dei-lhe o relógio e ele se despediu-se de mim com um olhar triste.
Eu? Fui preso naquele manicômio por infligir às leis da Neuronet. Descobriram que de algum modo fiquei offline do sistema. Restando somente o tempo de colocar meus manuscritos em um arquivo criptografar e lança-lo na Neuronet. Depois veio aquela injeção...
2523 Palavras
Crônicas de um Velho Jovem

Postagem em destaque

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