BLOG DO WALDRYANO

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Minha experiência com a Amazon KDP: entre a empolgação, as frustrações e a perseverança


Quando publiquei meu primeiro eBook na Amazon KDP, imaginei que o mais difícil seria escrever. Descobri rapidamente que a escrita é apenas o início de uma longa jornada.

Como muitos escritores amadores, eu alimentava aquela expectativa silenciosa de que, uma vez publicado o livro, ele encontraria seus leitores quase naturalmente. Afinal, a Amazon é uma das maiores livrarias do mundo. Parecia lógico imaginar que bastaria colocar o livro à venda e esperar pelas primeiras avaliações, pelas primeiras vendas e, quem sabe, por uma renda recorrente.

A realidade, entretanto, mostrou-se muito mais complexa.

A plataforma da KDP é excelente para democratizar a publicação. Nunca foi tão fácil transformar um manuscrito em um livro disponível para milhões de pessoas. Em poucos dias qualquer autor pode publicar sua obra sem depender de editoras tradicionais, contratos ou tiragens impressas. Essa liberdade editorial talvez seja a maior revolução da nossa época.

Mas liberdade também significa responsabilidade.

Logo percebi que publicar é apenas uma pequena parte do processo. O verdadeiro desafio começa depois que o botão "Publicar" é pressionado.

Passei a estudar capas, palavras-chave, categorias, descrições, preços, campanhas promocionais, algoritmos, o funcionamento do Kindle Unlimited e até o comportamento dos rankings da Amazon. Descobri que um livro não vende apenas porque é bom; ele precisa ser encontrado.

Comecei então a produzir em ritmo constante. Em poucas semanas meu catálogo deixou de ter apenas um livro para reunir diversos títulos. Escrevi sobre psicologia, estudos bíblicos, vida cristã e temas introdutórios destinados ao grande público. Meu objetivo nunca foi competir com obras acadêmicas, mas produzir textos acessíveis que despertassem o interesse pela leitura e pelo conhecimento.

Foi aí que vivi minha primeira grande surpresa.

As vendas começaram a aparecer.

Não eram números capazes de mudar minha vida financeira, mas eram suficientes para mostrar que havia leitores chegando até meus livros. Cada notificação de venda parecia uma pequena conquista. Era impossível não abrir o painel da KDP várias vezes ao dia para acompanhar o desempenho.

Quem publica pela primeira vez provavelmente conhece essa sensação.

O problema é que a alegria inicial costuma ser seguida por outra experiência igualmente marcante: a instabilidade.

Houve dias em que vendi vários exemplares.

Depois vieram dias sem venda alguma.

Em seguida uma nova sequência positiva.

Depois outra queda.

No início isso gera ansiedade. O autor tenta encontrar explicações para tudo. Será que a capa ficou ruim? Será que o preço está alto? Será que a Amazon deixou de recomendar meu livro? Será que publiquei livros demais? Será que publiquei de menos?

A verdade é que o mercado digital possui oscilações naturais que nem sempre conseguimos compreender.

Também experimentei estratégias diferentes.

Cadastrei alguns livros no KDP Select para participar do Kindle Unlimited e das promoções gratuitas. Fiz alterações de preços. Reescrevi descrições. Atualizei capas. Corrigi erros encontrados após a publicação. Aprendi que um livro publicado não precisa ser considerado uma obra definitiva. Ele pode amadurecer junto com o autor.

Outro aprendizado importante foi compreender que quantidade e qualidade não precisam ser inimigas.

Muitas pessoas criticam quem publica vários livros em sequência. Existe, de fato, o risco de produzir material superficial apenas para aumentar o catálogo. Por outro lado, também existe o extremo oposto: escritores que passam anos esperando o momento perfeito para publicar uma única obra.

Percebi que o equilíbrio talvez seja o melhor caminho.

Cada novo livro amplia a possibilidade de um leitor conhecer os demais títulos. Aos poucos, um catálogo começa a trabalhar em favor do próprio autor.

Nem tudo, porém, são flores.

Também enfrentei problemas de formatação, dificuldades na criação de capas, dúvidas sobre dimensões para livros impressos, ajustes em arquivos PDF, escolha de categorias, tradução para outros idiomas e decisões sobre preços. São obstáculos que raramente aparecem quando imaginamos a vida de um escritor.

Curiosamente, boa parte do meu tempo passou a ser dedicada não à escrita, mas ao aprendizado dessas questões técnicas.

Hoje também observo um fenômeno interessante.

As vendas não dependem apenas do livro. Dependem da constância do autor.

Sempre que publico novos títulos ou realizo alguma movimentação no catálogo, percebo que meus livros tendem a ganhar mais visibilidade. Quando fico um período sem atualizar nada, parece que o desempenho diminui. Não sei afirmar até que ponto isso faz parte do algoritmo da plataforma ou simplesmente do comportamento do mercado, mas essa tem sido minha experiência pessoal.

Talvez o maior ensinamento da KDP seja justamente este: escrever um livro não é concluir um projeto; é iniciar outro.

O escritor independente torna-se também diagramador, editor, capista, revisor, divulgador, analista de mercado e, muitas vezes, seu próprio departamento de marketing.

Apesar das dificuldades, continuo acreditando que vale a pena.

Receber a notificação de que alguém, em algum lugar do Brasil ou até mesmo em outro país, decidiu investir alguns reais para ler algo que escrevemos continua sendo uma experiência difícil de descrever.

Não importa se foi uma venda ou cem.

Alguém escolheu dedicar horas da própria vida às nossas palavras.

Para um escritor, isso já representa uma enorme recompensa.

Ainda estou longe de considerar minha trajetória um grande sucesso editorial. Continuo aprendendo, experimentando e cometendo erros. Mas talvez essa seja justamente a beleza da publicação independente: ela permite que o autor cresça livro após livro.

Se eu pudesse dar um único conselho a quem está pensando em publicar na Amazon KDP, seria este: não espere resultados imediatos.

Escreva com dedicação.

Publique com cuidado.

Aprenda continuamente.

E, acima de tudo, não desista depois das primeiras dificuldades.

Na literatura, assim como na própria vida, a perseverança costuma escrever os capítulos mais interessantes.

https://www.amazon.com.br/stores/author/B08R71NK4P


Uma Casa na Pradaria, Laura Ingalls Wilder e a magia de restaurar o passado com Inteligência Artificial

 


Uma Casa na Pradaria, Laura Ingalls Wilder e a magia de restaurar o passado com Inteligência Artificial

Há séries que assistimos apenas para passar o tempo. Outras nos divertem durante alguns dias e logo são esquecidas. Mas existem aquelas que conseguem despertar algo mais profundo: a curiosidade pela história real por trás da ficção. Foi exatamente isso que aconteceu comigo ao assistir Uma Casa na Pradaria, disponível na Netflix.

Embora muita gente conheça a antiga série de televisão exibida nas décadas de 1970 e 1980, a produção atual não é simplesmente um remake daquela versão. Ela procura retornar às origens da obra, adaptando novamente os livros escritos por Laura Ingalls Wilder, uma das mais importantes autoras da literatura infantojuvenil norte-americana. A proposta da Netflix é recuperar o espírito dos livros, preservando a atmosfera da vida na fronteira americana, mas também dialogando com o público contemporâneo.

O interessante é que os livros de Laura não nasceram da imaginação de uma romancista inventando personagens fictícios. Eles são, em grande medida, um relato literário de sua própria infância. Laura transformou suas lembranças em narrativas capazes de atravessar gerações, apresentando aos leitores uma família que enfrentava mudanças constantes, viagens de carroça, invernos rigorosos, dificuldades econômicas e o desafio permanente de construir uma vida em um território ainda em formação.

Naturalmente, como acontece em praticamente toda adaptação cinematográfica ou televisiva, algumas mudanças foram realizadas. Isso não significa desrespeitar a obra original, mas adaptar uma narrativa literária para uma linguagem audiovisual.

Entre as principais alterações percebidas estão a reorganização cronológica de determinados acontecimentos, a ampliação da participação de personagens secundários, a criação de novos conflitos dramáticos para dar ritmo aos episódios e uma representação mais cuidadosa das relações entre os colonos e os povos indígenas. Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes. A produção trabalhou com consultores da nação Osage para construir personagens indígenas mais completos e evitar simplificações comuns em adaptações antigas.

Essas escolhas podem agradar alguns espectadores e desagradar outros. Afinal, quem conhece profundamente os livros sempre percebe diferenças. Entretanto, faz parte do próprio processo de adaptação encontrar um equilíbrio entre fidelidade histórica, narrativa televisiva e sensibilidade contemporânea.

Depois de terminar a série, fiz aquilo que costumo fazer sempre que alguma história desperta minha curiosidade: fui pesquisar.

Abri a Wikipédia para conhecer melhor quem foi Laura Ingalls Wilder.

Confesso que fiquei impressionado ao descobrir quantos elementos da série realmente possuem fundamento histórico.

Laura Elizabeth Ingalls Wilder nasceu em 7 de fevereiro de 1867, em Pepin, no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos. Sua infância foi marcada por inúmeras mudanças. A família viveu em diferentes regiões do Meio-Oeste americano, passando por Wisconsin, Kansas, Minnesota, Iowa e, posteriormente, pelo então Território de Dakota. Essas constantes migrações acabaram se tornando o pano de fundo de praticamente toda a sua obra literária.

Seus pais, Charles e Caroline Ingalls, aparecem como personagens centrais dos livros, assim como suas irmãs Mary, Carrie e Grace. Ao longo dos anos, Laura testemunhou as dificuldades da vida dos pioneiros, enfrentando colheitas frustradas, tempestades de neve, mudanças políticas, crises econômicas e as incertezas de quem tentava construir uma nova vida em regiões praticamente desabitadas.

Mais tarde, Laura casou-se com Almanzo Wilder, agricultor cuja infância também inspirou um dos livros da coleção. O casal teve uma filha, Rose Wilder Lane, que mais tarde se tornaria escritora e desempenharia importante papel editorial na publicação das obras da mãe. Muitos estudiosos acreditam que Rose ajudou significativamente na organização e revisão dos manuscritos que deram origem à famosa coleção de livros.

Laura publicou sua série de livros já na maturidade. Talvez justamente por isso seus relatos transmitam tanta autenticidade. Não são apenas aventuras infantis. São memórias cuidadosamente reconstruídas por alguém que desejava preservar um modo de vida que rapidamente desaparecia diante da modernização dos Estados Unidos.

Enquanto lia sua biografia, tive uma sensação curiosa.

Era como se aquelas pessoas, que viveram há mais de cento e cinquenta anos, deixassem de ser apenas nomes em uma enciclopédia e voltassem a ganhar rosto.

Foi então que resolvi fazer uma experiência.

Utilizando ferramentas de Inteligência Artificial, comecei a restaurar algumas fotografias antigas de Laura Ingalls Wilder e também de seu marido, Almanzo Wilder.

As fotografias originais, naturalmente, apresentam as limitações técnicas de sua época: tons escuros, baixa definição, pequenos danos causados pelo tempo e aquele aspecto típico das imagens do século XIX.

A Inteligência Artificial, entretanto, permite reconstruir detalhes impressionantes.

Texturas são recriadas.

Marcas do tempo desaparecem.

As roupas ganham definição.

Os cabelos parecem reais.

Os olhos recuperam brilho.

Em alguns casos, é até possível colorizar as imagens, produzindo um resultado extremamente próximo de uma fotografia contemporânea.

É claro que não se trata de uma restauração histórica perfeita. Sempre existe uma parcela de interpretação realizada pelos algoritmos. As cores, por exemplo, são estimativas baseadas em padrões aprendidos pela IA. Ainda assim, o resultado consegue produzir algo fascinante: aproxima personagens históricos do nosso olhar moderno.

Quando observamos uma fotografia restaurada, deixamos de enxergar apenas figuras antigas e passamos a perceber pessoas.

Pessoas que sorriram.

Que tiveram medo.

Que enfrentaram perdas.

Que construíram sonhos.

Que viveram exatamente como nós, embora em circunstâncias completamente diferentes.

Essa talvez seja uma das maiores contribuições da tecnologia.

Não apenas criar imagens bonitas.

Mas diminuir a distância entre o presente e o passado.

Enquanto editava essas fotografias, fiquei imaginando se Laura algum dia poderia imaginar que, quase setenta anos após sua morte, computadores seriam capazes de reconstruir retratos feitos em uma época na qual a fotografia ainda engatinhava.

Provavelmente não.

Mas acredito que ela ficaria feliz em saber que sua história continua despertando curiosidade em leitores espalhados pelo mundo.

Seus livros permanecem vivos.

Suas memórias continuam emocionando novas gerações.

E agora, graças à tecnologia, até mesmo seu rosto pode ser visto com uma nitidez que seus contemporâneos talvez jamais tenham experimentado.

Ao final desta postagem, deixo duas imagens.

Na primeira, a fotografia original de Laura e Almanzo.

Na segunda, a versão restaurada e recriada com Inteligência Artificial.

Não é apenas um exercício tecnológico.

É também uma pequena homenagem a uma escritora que transformou lembranças familiares em um dos maiores clássicos da literatura americana.

Talvez esse seja o verdadeiro poder das boas histórias: elas atravessam o tempo, sobrevivem às mudanças tecnológicas e continuam encontrando novos leitores. E quando literatura, história e Inteligência Artificial se encontram, percebemos que preservar a memória também pode ser uma forma de manter viva a humanidade daqueles que vieram antes de nós.









O dia que a Argentina perdeu o título pra Espanha

Diário – 19 de julho de 2026

Hoje foi um daqueles dias que vale a pena registrar para a posteridade.

Às 23 horas, deitado, vestindo minha antiga camiseta da Espanha, pensei que talvez seja hora de atualizá-la. Antes ela representava uma seleção campeã do passado; agora, quem sabe, mereça receber mais uma estrela para celebrar o novo título. Calma, já explico.

Hoje aconteceu a final da Copa do Mundo de 2026 entre Espanha e Argentina. A Argentina chegou à decisão carregando a fama de um time que conseguia se superar nos momentos decisivos, muitas vezes resolvendo partidas no fim. Era natural esperar que isso acontecesse novamente. A Espanha, por sua vez, também vinha de grandes atuações. Não sou especialista em futebol, mas tive a impressão de que seu conjunto estava mais equilibrado e uniforme. No segundo tempo, essa superioridade acabou prevalecendo, e a Espanha conquistou o título.

Logo pela manhã fui visitar meu pai. Aproveitei a ocasião para tirar uma foto usando minha camiseta da Espanha, como quem já se preparava para a grande decisão da tarde.

Também dediquei parte do dia ao meu mosaico. Tentei concluí-lo e cheguei muito perto: acredito que esteja cerca de 80% finalizado. Mais do que avançar na obra, aprendi bastante durante o processo. Percebi que preciso ser ainda mais caprichoso nos detalhes para alcançar um acabamento realmente bonito.

Outro momento especial foi participar da Escola Dominical ao lado da minha esposa. Foi uma manhã muito proveitosa, daquelas que renovam a fé e fortalecem a caminhada cristã.

Às 16 horas, assistimos à final da Copa do Mundo em família. Estavam comigo minha esposa e também meu sobrinho Adam, que acompanhou o jogo conosco. Foi um momento marcante e um excelente encerramento para uma tarde repleta de acontecimentos.

Assim termina este dia: marcado pela comunhão com a família, pela fé, pelo aprendizado em um trabalho manual e pela lembrança de uma final de Copa do Mundo que ficará registrada na memória.

Dia registrado com sucesso.

O Suor da Argentina Contra o Marketing do Brasil

 # O Suor Contra o Marketing


**8 de julho de 2026**


Ainda estou tentando entender a eliminação do Brasil. Confesso que imaginei que, depois da nossa queda, perderia completamente o interesse por esta Copa do Mundo. É quase sempre assim. Quando a seleção brasileira vai embora, parece que uma parte da competição perde a cor, como se o torneio deixasse de nos pertencer. Mas ontem à noite, dia 7 de julho, permaneci diante da televisão quase por inércia e acabei assistindo àquela que talvez tenha sido a maior partida de futebol que vi em toda a minha vida. E há uma ironia nisso que ainda me incomoda: a lição não veio do Brasil. Veio justamente da Argentina.


Durante boa parte do jogo, tudo parecia decidido. A Argentina perdia por dois a zero. O adversário administrava a vantagem com inteligência, o relógio caminhava sem misericórdia e, a cada minuto que passava, aumentava a sensação de que nem Messi conseguiria evitar o inevitável. O futebol costuma ser cruel quando resolve transformar o tempo em inimigo. Os comentaristas já falavam em fim de ciclo, as câmeras insistiam nos rostos abatidos dos argentinos, e eu mesmo, sentado no sofá, pensei que estava assistindo aos últimos minutos da carreira internacional de um dos maiores jogadores da história.


Mas existe uma característica fascinante no futebol, talvez a mesma que faz a vida valer a pena: ele não reconhece como definitivo aquilo que os homens chamam de impossível.


De repente, alguma coisa mudou. Não sei se foi uma orientação do treinador, uma palavra dita dentro de campo ou simplesmente aquele instante em que um grupo inteiro decide que perder não é mais uma opção. O fato é que a Argentina voltou a jogar como quem compreendeu que cada dividida valia uma existência, que cada metro conquistado era um pedaço de esperança e que, enquanto o árbitro não encerrasse a partida, ainda havia história para ser escrita. O primeiro gol devolveu a confiança. O segundo transformou o estádio em uma panela de pressão. E quando veio a virada, já nos acréscimos, não era apenas uma equipe comemorando uma classificação; era uma demonstração de que a vontade humana ainda consegue, de vez em quando, desafiar a lógica.


Enquanto todos corriam para celebrar, meus olhos procuravam apenas um homem.


Lionel Messi.


Vi um jogador de trinta e nove anos. Não vi o garoto que encantava o Barcelona nem o atleta que durante anos parecia desafiar as leis da física. Vi alguém cansado. Vi um corpo que já não responde com a mesma explosão de antes, mas que ainda encontra forças porque a alma se recusa a aceitar o limite imposto pela idade. Pela primeira vez tive a impressão de que Messi entendia perfeitamente que aquele poderia ser o jogo da sua vida. Não porque fosse uma final. Não porque valesse uma taça. Mas porque existem partidas que resumem uma carreira inteira. Há dias em que um atleta deixa de jogar por noventa minutos e passa a disputar o próprio legado.


Talvez tenha sido isso que mais me emocionou.


Não foi a técnica.


Não foi o placar.


Foi a entrega.


Foi perceber que um homem que conquistou praticamente tudo o que o futebol pode oferecer ainda corria atrás de uma bola perdida como se fosse um garoto tentando conquistar o primeiro contrato da vida. Quem já ganhou tudo não deveria correr assim. Mas talvez seja exatamente por correr assim que alguns conseguem ganhar tudo.


Foi impossível não pensar no Brasil.


Enquanto observava aquela seleção argentina se recusando a aceitar a derrota, lembrei-me do que vi na nossa equipe poucos dias antes. Vi um elenco repleto de estrelas, cercado por contratos milionários, campanhas publicitárias, redes sociais impecavelmente administradas e uma indústria do entretenimento que parece ter descoberto como transformar jogadores em produtos antes mesmo de transformá-los em campeões. Não estou condenando o sucesso financeiro. Seria injusto fazê-lo. O futebol mudou, e é natural que grandes atletas também sejam grandes marcas. O problema começa quando a marca passa a ocupar mais espaço do que o atleta.


Vivemos a era do marketing.


Uma época em que a imagem parece valer mais do que a preparação. Em que seguidores parecem importar mais do que quilômetros percorridos em campo. Em que um comercial bem produzido recebe mais atenção do que uma temporada inteira de disciplina silenciosa. E talvez seja justamente aí que resida o maior problema da nossa geração esportiva: aprendemos primeiro a vender nossa imagem e só depois pensamos em construir uma história capaz de sustentá-la.


O Brasil, infelizmente, parece ter se especializado nisso.


Vivemos surfando sobre um passado que não nos pertence mais.


Repetimos os nomes de Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros como se suas conquistas ainda fossem patrimônio esportivo suficiente para intimidar qualquer adversário. Mas o futebol não concede herança. A camisa pesa apenas alguns segundos. Depois que a bola rola, ela volta a ser apenas tecido. O que decide uma partida continua sendo aquilo que sempre decidiu: preparo, organização, disciplina, coragem e capacidade de suportar a dor quando ela aparece.


Talvez por isso a Copa do Mundo seja muito mais do que um campeonato.


Sempre ouvi dizer que uma seleção representa um país. Hoje acredito que isso seja mais verdadeiro do que nunca. Durante algumas semanas, uma nação inteira apresenta ao mundo aquilo que conseguiu produzir de melhor. Não apenas seus jogadores, mas seu método de formação, sua cultura esportiva, sua organização, sua seriedade e sua capacidade de transformar talento em resultado.


Por isso, quando olho para o Brasil dentro de campo, às vezes tenho a impressão de estar olhando para o Brasil fora dele.


Somos um país extraordinariamente talentoso.


Talento nunca nos faltou.


O que frequentemente nos falta é continuidade.


Planejamento.


Disciplina.


Constância.


Gostamos da ideia do improviso. Alimentamos a fantasia de que o brasileiro resolve tudo na genialidade. Crescemos ouvindo que somos o país do jeitinho, da criatividade, da improvisação. Talvez isso tenha funcionado quando o futebol dependia apenas do talento individual. Mas o esporte mudou.


Hoje o futebol é ciência.


Existem departamentos inteiros dedicados à análise de desempenho. Há monitoramento físico em tempo real, inteligência artificial, estatísticas capazes de medir cada corrida, cada passe, cada recuperação de bola. A arbitragem utiliza tecnologia para revisar lances decisivos. A preparação física é planejada quase ao milímetro. Os adversários estudam semanas para neutralizar um único jogador.


Nesse cenário, talento continua sendo indispensável.


Mas talento sem organização tornou-se insuficiente.


Talvez seja justamente por isso que a Argentina tenha me impressionado tanto. Não porque seja perfeita. Não porque tenha os jogadores mais rápidos ou o elenco mais valioso. Impressionou-me porque, quando tudo parecia perdido, desapareceu o estrelismo e surgiu apenas um time disposto a competir.


É curioso como essa lição ultrapassa as quatro linhas.


Vivemos em uma sociedade que aprendeu a parecer antes de aprender a ser. Fotografamos o sucesso antes de conquistá-lo. Publicamos projetos antes de realizá-los. Construímos personagens para as redes sociais enquanto negligenciamos a pessoa real que deveria existir por trás deles. Queremos os aplausos da chegada, mas frequentemente evitamos o desgaste da caminhada.


Talvez seja por isso que a velha pergunta da Legião Urbana continue ecoando com tanta força: **"Que país é este?"**


Não porque nos falte inteligência.


Não porque nos falte riqueza.


Muito menos porque nos faltem oportunidades.


Talvez porque ainda insistamos em acreditar que grandes vitórias acontecem por acaso.


Esperamos ganhar na Mega-Sena.


Esperamos que o próximo governo resolva tudo.


Esperamos o Hexa.


Esperamos que alguém faça por nós aquilo que deveria começar dentro de cada um de nós.


Enquanto esperamos, outros países trabalham.


Planejam.


Erram.


Corrigem.


Voltam.


Persistem.


E vencem.


No fundo, talvez a Copa do Mundo funcione apenas como um espelho. Ela não cria nossas virtudes nem nossos defeitos. Apenas os amplia diante de bilhões de pessoas.


Aquela virada da Argentina não foi apenas uma virada de futebol.


Foi uma demonstração de que a história nunca pertence a quem acredita que já venceu.


Pertence àquele que continua correndo quando todos já desistiram.


Ao desligar a televisão, pensei que talvez a maior derrota do Brasil não tenha sido a eliminação desta Copa.


Nossa maior derrota será continuar acreditando que marketing substitui suor, que tradição substitui trabalho e que passado substitui futuro.


Porque nenhuma propaganda ganha uma dividida.


Nenhum contrato publicitário marca um gol.


Nenhuma rede social conquista uma Copa do Mundo.


No fim das contas, continuam vencendo as mesmas coisas de sempre: preparo, coragem, disciplina e trabalho.


Talvez o Hexa não comece no próximo Mundial.


Talvez ele comece quando o Brasil compreender que o caminho entre o sonho e a vitória continua sendo exatamente o mesmo de cem anos atrás.


Suor.


E isso vale muito mais para uma nação do que para um time de futebol.


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## Como esta crônica foi escrita


Muitas pessoas imaginam que um texto produzido com o auxílio da inteligência artificial nasce pronto. Não foi o caso desta crônica.


O processo começou exatamente como acontece com qualquer cronista: diante de uma ideia. Depois de assistir ao jogo entre Argentina e seu adversário nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, senti que não queria escrever apenas sobre futebol. O que realmente me chamou a atenção foi a forma como a partida se transformou em uma metáfora sobre disciplina, preparo, organização e o momento que o Brasil atravessa.


Minha primeira tarefa foi reunir, de maneira desordenada, tudo o que estava na minha cabeça. Escrevi frases soltas, opiniões, lembranças do jogo, críticas ao excesso de marketing no futebol brasileiro, a figura de Messi aos 39 anos, a virada do placar, a relação entre a Copa do Mundo e a sociedade brasileira e até referências culturais, como a música "Que País É Este?", da Legião Urbana. Nada estava organizado. Era apenas um fluxo de pensamentos.


Em seguida, pedi à inteligência artificial que organizasse essas ideias em forma de crônica. O primeiro resultado, porém, não me agradou. Achei que o texto havia perdido justamente aquilo que considero essencial em uma boa crônica: períodos mais longos, um ritmo mais reflexivo e, principalmente, o impacto emocional da virada da Argentina, que era o verdadeiro ponto de partida da reflexão.


Então comecei a orientar a IA de forma mais específica. Em vez de aceitar a primeira versão, fui refinando os comandos. Pedi que o texto tivesse um tom opinativo, agradável e convidasse o leitor à reflexão; solicitei que a virada do placar fosse o eixo narrativo; critiquei o excesso de frases curtas e expliquei que gosto de uma escrita com períodos longos, em que uma ideia conduz naturalmente à outra. Também pedi que a reflexão sobre o Brasil surgisse a partir do jogo, e não o contrário.


A cada nova versão, o texto era reescrito, discutido e ajustado. Algumas passagens foram descartadas; outras nasceram de observações que fiz durante esse diálogo. A inteligência artificial não viveu a emoção da partida, não teve as impressões que tive diante da televisão e não formulou, por conta própria, a crítica social presente na crônica. Seu papel foi semelhante ao de um editor: organizar ideias, sugerir construções e oferecer alternativas de escrita, sempre sob minha orientação.


O resultado final é fruto dessa colaboração. A emoção, a interpretação e a opinião são minhas. A inteligência artificial foi utilizada como uma ferramenta de lapidação do texto, assim como um escritor pode recorrer a um revisor, a um editor ou a um colega de profissão para aperfeiçoar sua escrita.


Talvez essa seja a melhor maneira de compreender o papel da IA na produção literária contemporânea: ela não substitui a experiência humana, mas pode ajudar a dar forma às ideias de quem tem algo a dizer.



O Adeus

O Adeus

Hoje foi o dia de nos despedirmos do senhor Augusto.

Aos 75 anos, ele encerrou sua jornada nesta terra, deixando para trás uma história marcada pela simplicidade, pela bondade e pela generosidade. Era o avô da minha esposa, Thiphany, e também nosso vizinho de parede durante muitos anos.

Sempre vou me lembrar dele trazendo pão para nossa casa às terças-feiras. Era um gesto simples, mas que demonstrava o tamanho do seu coração. Seu Augusto era uma pessoa boa, caridosa e querida por todos que conviviam com ele.

Deixou três filhos: Caprice, mãe da minha esposa; Beto; e Aldo. Foi casado com dona Ieda durante muitos anos. Após o falecimento dela, há cerca de dez anos, ele encontrou novamente companhia e passou a viver com outra senhora, que o acompanhou até os seus últimos dias.

No velório, foi possível vê-lo pela última vez, já repousando no caixão, aguardando o momento da despedida definitiva: o sepultamento. Enquanto estava na funerária, conversei um pouco com o proprietário. Como realizo inspeções em funerárias da cidade, acabamos relembrando uma das inspeções que fiz naquele local e tivemos uma conversa bastante produtiva.

Também aproveitei para rever familiares e conhecidos. Estavam presentes o pastor Genésio, o irmão Edivaldo, o Maé e um pastor da Igreja Batista que eu não conhecia. Todos desempenharam um importante papel de capelania, oferecendo palavras de conforto e esperança aos presentes.

Às quatro horas da tarde seguimos para o cemitério. Porém, devido à fratura no meu pé, estou utilizando uma bota ortopédica. O local do sepultamento exigia uma descida por uma ladeira, seguida por alguns degraus. Vi todos seguindo em direção ao túmulo, mas percebi que não conseguiria acompanhar com segurança. Caminhava muito devagar e, ao notar que ainda teria mais escadas pela frente, decidi retornar.

Enquanto aguardava, resolvi procurar o túmulo do meu tio, José de Jesus Rodrigues, falecido em meados de 2009. Eu me lembrava apenas aproximadamente da região onde ele estava sepultado. Procurei por algum tempo, mas não conseguia encontrá-lo.

Então fiquei esperando meu sogro retornar. Pouco depois, minha esposa apareceu com nossa filha e comentou que havia encontrado um túmulo cuja fotografia parecia muito com a do meu pai. Fui verificar e, para minha surpresa, era realmente o túmulo do meu tio. Ela o encontrou no Cemitério Jardim das Saudades.

Foi um momento inesperado e emocionante.

Esse foi o meu dia: o adeus.

Quando visitamos um cemitério, inevitavelmente nos tornamos mais introspectivos. Ali repousam muitas pessoas. Jovens, idosos, homens e mulheres. Histórias interrompidas em diferentes momentos, mas que convergem para o mesmo destino.

A morte é uma realidade comum a todos nós. Um dia, cada um ocupará o seu lugar na memória daqueles que permanecerem.

Enquanto temos vida, porém, ainda podemos escrever. Podemos amar, trabalhar, aprender, ensinar, criar memórias, alimentar um blog e construir algo que sobreviva à nossa passagem.

A vida não nos pede perfeição. Pede movimento.

E enquanto estivermos aqui, é preciso continuar caminhando.

A anilha de 10kgs que nunca esquecerei

A Anilha, o Dedão e a Bota

Por Waldryano

Era para ser apenas mais um treino comum.

Nada de extraordinário. O peso estava ali, como sempre esteve. O ambiente era familiar. Os movimentos repetiam uma rotina já conhecida. A gente faz essas coisas tantas vezes que acaba acreditando que domina completamente cada detalhe.

Até que um detalhe resolve nos lembrar que não.

Uma anilha de dez quilos escapou.

Não foi uma cena cinematográfica. Não houve câmera lenta, trilha sonora dramática ou heróis correndo para ajudar. Foi apenas um segundo. Um único segundo entre segurar e não segurar mais.

E então ela caiu.

A gravidade, que trabalha sem folga e sem misericórdia, fez o resto.

A dor veio antes mesmo do raciocínio. Primeiro o susto. Depois aquela sensação estranha de que algo importante aconteceu, mas a mente ainda está tentando entender exatamente o quê.

Olhei para o pé.

O dedão, que até aquele momento passava despercebido como todo dedão costuma passar, tornou-se o centro absoluto do universo.

Quem nunca machucou um dedo do pé talvez não compreenda. O corpo inteiro continua funcionando, mas a atenção se concentra naquele pequeno ponto como se nada mais existisse.

Vieram o hospital, os exames, as radiografias e a palavra que ninguém gosta de ouvir:

Fratura.

Não era o fim do mundo. Mas, naquele instante, parecia o início de uma longa negociação com a própria ansiedade.

A bota ortopédica entrou em cena.

Curioso como um objeto tão simples pode transmitir sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que incomoda, aperta e limita os movimentos, também oferece uma espécie de segurança. Com ela, eu me sentia protegido. Sem ela, parecia que o pé estava vulnerável demais.

Nos primeiros dias, qualquer alteração gerava dúvidas.

O inchaço está normal?

Posso caminhar?

Posso ir à igreja?

Posso dormir sem a bota?

Será que piorou?

Será que melhorou?

A recuperação física acontece em silêncio. O osso trabalha escondido, longe dos olhos. Já a mente não. Ela fala o tempo inteiro.

Descobri que acidentes pequenos têm um jeito curioso de nos desacelerar. Somos obrigados a observar coisas que normalmente ignoramos. O simples ato de levantar da cama vira planejamento. Caminhar alguns metros ganha importância. Vestir um calçado deixa de ser automático.

E, de repente, aquilo que parecia banal passa a ser valorizado.

Hoje, olhando para trás, percebo que o acidente não foi apenas sobre uma anilha que caiu.

Foi sobre fragilidade.

Foi sobre entender que o corpo tem limites.

Foi sobre paciência.

E foi também sobre gratidão.

Porque, apesar do susto, da dor e das preocupações, tudo indica que o tempo fará o que sempre fez: consertar aos poucos aquilo que foi quebrado.

Enquanto isso, sigo caminhando devagar.

Literalmente.

E sempre que vejo uma anilha agora, confesso que a respeito um pouco mais do que antes. Afinal, dez quilos parecem pouca coisa... até resolverem cair exatamente sobre o seu dedão.

Futuro Deserto | Série da Netflix 2026

A série Futuro Deserto, disponível na Netflix, mergulha em uma proposta inquietante e bastante humana: como lidar com o luto em uma sociedade dominada pela tecnologia. A produção mexicana apresenta um futuro distópico em que um psicólogo desenvolve robôs humanoides capazes de ajudar pessoas a superarem perdas emocionais profundas. O que começa como uma tentativa de aliviar a dor humana rapidamente se transforma em um experimento perigoso, alterando a própria noção de realidade.

Visualmente, a série aposta em uma estética cyberpunk elegante, marcada por cenários áridos, iluminação fria e ambientes silenciosos que reforçam a sensação de vazio emocional. O clima constante de melancolia funciona muito bem, principalmente porque a narrativa não depende apenas de ação ou efeitos especiais, mas da tensão psicológica entre humanos e máquinas. A trama consegue provocar reflexões interessantes sobre dependência emocional, inteligência artificial e a tentativa humana de “corrigir” sentimentos naturais como a saudade e a dor.

O elenco, liderado por José María Yazpik e Astrid Bergès-Frisbey, entrega interpretações contidas, mas intensas. Os personagens carregam traumas profundos, e isso dá peso emocional aos conflitos apresentados. A série evita exageros melodramáticos e prefere construir lentamente suas revelações, o que pode agradar quem gosta de narrativas mais contemplativas e filosóficas.

Outro ponto forte é como “Futuro Deserto” utiliza a ficção científica não apenas como entretenimento, mas como metáfora. Os robôs humanoides representam o desejo humano de controlar emoções e escapar do sofrimento, enquanto o “deserto” do título simboliza um mundo emocionalmente esgotado. A série lembra produções como Black Mirror e Blade Runner 2049 pela atmosfera existencial e pelas discussões sobre identidade e humanidade.

Apesar das qualidades, o ritmo pode parecer lento para alguns espectadores. A narrativa exige atenção e paciência, especialmente nos episódios iniciais, que focam mais na construção do universo e no desenvolvimento emocional do que em grandes acontecimentos. Ainda assim, a recompensa vem na forma de reflexões profundas e um desfecho que deixa espaço para interpretações.

No geral, Futuro Deserto é uma ficção científica madura, sombria e emocionalmente carregada. Não é uma série feita para adrenalina constante, mas para quem aprecia histórias sobre humanidade, perda e os limites perigosos da tecnologia.