# O Suor Contra o Marketing
**8 de julho de 2026**
Ainda estou tentando entender a eliminação do Brasil. Confesso que imaginei que, depois da nossa queda, perderia completamente o interesse por esta Copa do Mundo. É quase sempre assim. Quando a seleção brasileira vai embora, parece que uma parte da competição perde a cor, como se o torneio deixasse de nos pertencer. Mas ontem à noite, dia 7 de julho, permaneci diante da televisão quase por inércia e acabei assistindo àquela que talvez tenha sido a maior partida de futebol que vi em toda a minha vida. E há uma ironia nisso que ainda me incomoda: a lição não veio do Brasil. Veio justamente da Argentina.
Durante boa parte do jogo, tudo parecia decidido. A Argentina perdia por dois a zero. O adversário administrava a vantagem com inteligência, o relógio caminhava sem misericórdia e, a cada minuto que passava, aumentava a sensação de que nem Messi conseguiria evitar o inevitável. O futebol costuma ser cruel quando resolve transformar o tempo em inimigo. Os comentaristas já falavam em fim de ciclo, as câmeras insistiam nos rostos abatidos dos argentinos, e eu mesmo, sentado no sofá, pensei que estava assistindo aos últimos minutos da carreira internacional de um dos maiores jogadores da história.
Mas existe uma característica fascinante no futebol, talvez a mesma que faz a vida valer a pena: ele não reconhece como definitivo aquilo que os homens chamam de impossível.
De repente, alguma coisa mudou. Não sei se foi uma orientação do treinador, uma palavra dita dentro de campo ou simplesmente aquele instante em que um grupo inteiro decide que perder não é mais uma opção. O fato é que a Argentina voltou a jogar como quem compreendeu que cada dividida valia uma existência, que cada metro conquistado era um pedaço de esperança e que, enquanto o árbitro não encerrasse a partida, ainda havia história para ser escrita. O primeiro gol devolveu a confiança. O segundo transformou o estádio em uma panela de pressão. E quando veio a virada, já nos acréscimos, não era apenas uma equipe comemorando uma classificação; era uma demonstração de que a vontade humana ainda consegue, de vez em quando, desafiar a lógica.
Enquanto todos corriam para celebrar, meus olhos procuravam apenas um homem.
Lionel Messi.
Vi um jogador de trinta e nove anos. Não vi o garoto que encantava o Barcelona nem o atleta que durante anos parecia desafiar as leis da física. Vi alguém cansado. Vi um corpo que já não responde com a mesma explosão de antes, mas que ainda encontra forças porque a alma se recusa a aceitar o limite imposto pela idade. Pela primeira vez tive a impressão de que Messi entendia perfeitamente que aquele poderia ser o jogo da sua vida. Não porque fosse uma final. Não porque valesse uma taça. Mas porque existem partidas que resumem uma carreira inteira. Há dias em que um atleta deixa de jogar por noventa minutos e passa a disputar o próprio legado.
Talvez tenha sido isso que mais me emocionou.
Não foi a técnica.
Não foi o placar.
Foi a entrega.
Foi perceber que um homem que conquistou praticamente tudo o que o futebol pode oferecer ainda corria atrás de uma bola perdida como se fosse um garoto tentando conquistar o primeiro contrato da vida. Quem já ganhou tudo não deveria correr assim. Mas talvez seja exatamente por correr assim que alguns conseguem ganhar tudo.
Foi impossível não pensar no Brasil.
Enquanto observava aquela seleção argentina se recusando a aceitar a derrota, lembrei-me do que vi na nossa equipe poucos dias antes. Vi um elenco repleto de estrelas, cercado por contratos milionários, campanhas publicitárias, redes sociais impecavelmente administradas e uma indústria do entretenimento que parece ter descoberto como transformar jogadores em produtos antes mesmo de transformá-los em campeões. Não estou condenando o sucesso financeiro. Seria injusto fazê-lo. O futebol mudou, e é natural que grandes atletas também sejam grandes marcas. O problema começa quando a marca passa a ocupar mais espaço do que o atleta.
Vivemos a era do marketing.
Uma época em que a imagem parece valer mais do que a preparação. Em que seguidores parecem importar mais do que quilômetros percorridos em campo. Em que um comercial bem produzido recebe mais atenção do que uma temporada inteira de disciplina silenciosa. E talvez seja justamente aí que resida o maior problema da nossa geração esportiva: aprendemos primeiro a vender nossa imagem e só depois pensamos em construir uma história capaz de sustentá-la.
O Brasil, infelizmente, parece ter se especializado nisso.
Vivemos surfando sobre um passado que não nos pertence mais.
Repetimos os nomes de Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros como se suas conquistas ainda fossem patrimônio esportivo suficiente para intimidar qualquer adversário. Mas o futebol não concede herança. A camisa pesa apenas alguns segundos. Depois que a bola rola, ela volta a ser apenas tecido. O que decide uma partida continua sendo aquilo que sempre decidiu: preparo, organização, disciplina, coragem e capacidade de suportar a dor quando ela aparece.
Talvez por isso a Copa do Mundo seja muito mais do que um campeonato.
Sempre ouvi dizer que uma seleção representa um país. Hoje acredito que isso seja mais verdadeiro do que nunca. Durante algumas semanas, uma nação inteira apresenta ao mundo aquilo que conseguiu produzir de melhor. Não apenas seus jogadores, mas seu método de formação, sua cultura esportiva, sua organização, sua seriedade e sua capacidade de transformar talento em resultado.
Por isso, quando olho para o Brasil dentro de campo, às vezes tenho a impressão de estar olhando para o Brasil fora dele.
Somos um país extraordinariamente talentoso.
Talento nunca nos faltou.
O que frequentemente nos falta é continuidade.
Planejamento.
Disciplina.
Constância.
Gostamos da ideia do improviso. Alimentamos a fantasia de que o brasileiro resolve tudo na genialidade. Crescemos ouvindo que somos o país do jeitinho, da criatividade, da improvisação. Talvez isso tenha funcionado quando o futebol dependia apenas do talento individual. Mas o esporte mudou.
Hoje o futebol é ciência.
Existem departamentos inteiros dedicados à análise de desempenho. Há monitoramento físico em tempo real, inteligência artificial, estatísticas capazes de medir cada corrida, cada passe, cada recuperação de bola. A arbitragem utiliza tecnologia para revisar lances decisivos. A preparação física é planejada quase ao milímetro. Os adversários estudam semanas para neutralizar um único jogador.
Nesse cenário, talento continua sendo indispensável.
Mas talento sem organização tornou-se insuficiente.
Talvez seja justamente por isso que a Argentina tenha me impressionado tanto. Não porque seja perfeita. Não porque tenha os jogadores mais rápidos ou o elenco mais valioso. Impressionou-me porque, quando tudo parecia perdido, desapareceu o estrelismo e surgiu apenas um time disposto a competir.
É curioso como essa lição ultrapassa as quatro linhas.
Vivemos em uma sociedade que aprendeu a parecer antes de aprender a ser. Fotografamos o sucesso antes de conquistá-lo. Publicamos projetos antes de realizá-los. Construímos personagens para as redes sociais enquanto negligenciamos a pessoa real que deveria existir por trás deles. Queremos os aplausos da chegada, mas frequentemente evitamos o desgaste da caminhada.
Talvez seja por isso que a velha pergunta da Legião Urbana continue ecoando com tanta força: **"Que país é este?"**
Não porque nos falte inteligência.
Não porque nos falte riqueza.
Muito menos porque nos faltem oportunidades.
Talvez porque ainda insistamos em acreditar que grandes vitórias acontecem por acaso.
Esperamos ganhar na Mega-Sena.
Esperamos que o próximo governo resolva tudo.
Esperamos o Hexa.
Esperamos que alguém faça por nós aquilo que deveria começar dentro de cada um de nós.
Enquanto esperamos, outros países trabalham.
Planejam.
Erram.
Corrigem.
Voltam.
Persistem.
E vencem.
No fundo, talvez a Copa do Mundo funcione apenas como um espelho. Ela não cria nossas virtudes nem nossos defeitos. Apenas os amplia diante de bilhões de pessoas.
Aquela virada da Argentina não foi apenas uma virada de futebol.
Foi uma demonstração de que a história nunca pertence a quem acredita que já venceu.
Pertence àquele que continua correndo quando todos já desistiram.
Ao desligar a televisão, pensei que talvez a maior derrota do Brasil não tenha sido a eliminação desta Copa.
Nossa maior derrota será continuar acreditando que marketing substitui suor, que tradição substitui trabalho e que passado substitui futuro.
Porque nenhuma propaganda ganha uma dividida.
Nenhum contrato publicitário marca um gol.
Nenhuma rede social conquista uma Copa do Mundo.
No fim das contas, continuam vencendo as mesmas coisas de sempre: preparo, coragem, disciplina e trabalho.
Talvez o Hexa não comece no próximo Mundial.
Talvez ele comece quando o Brasil compreender que o caminho entre o sonho e a vitória continua sendo exatamente o mesmo de cem anos atrás.
Suor.
E isso vale muito mais para uma nação do que para um time de futebol.
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## Como esta crônica foi escrita
Muitas pessoas imaginam que um texto produzido com o auxílio da inteligência artificial nasce pronto. Não foi o caso desta crônica.
O processo começou exatamente como acontece com qualquer cronista: diante de uma ideia. Depois de assistir ao jogo entre Argentina e seu adversário nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, senti que não queria escrever apenas sobre futebol. O que realmente me chamou a atenção foi a forma como a partida se transformou em uma metáfora sobre disciplina, preparo, organização e o momento que o Brasil atravessa.
Minha primeira tarefa foi reunir, de maneira desordenada, tudo o que estava na minha cabeça. Escrevi frases soltas, opiniões, lembranças do jogo, críticas ao excesso de marketing no futebol brasileiro, a figura de Messi aos 39 anos, a virada do placar, a relação entre a Copa do Mundo e a sociedade brasileira e até referências culturais, como a música "Que País É Este?", da Legião Urbana. Nada estava organizado. Era apenas um fluxo de pensamentos.
Em seguida, pedi à inteligência artificial que organizasse essas ideias em forma de crônica. O primeiro resultado, porém, não me agradou. Achei que o texto havia perdido justamente aquilo que considero essencial em uma boa crônica: períodos mais longos, um ritmo mais reflexivo e, principalmente, o impacto emocional da virada da Argentina, que era o verdadeiro ponto de partida da reflexão.
Então comecei a orientar a IA de forma mais específica. Em vez de aceitar a primeira versão, fui refinando os comandos. Pedi que o texto tivesse um tom opinativo, agradável e convidasse o leitor à reflexão; solicitei que a virada do placar fosse o eixo narrativo; critiquei o excesso de frases curtas e expliquei que gosto de uma escrita com períodos longos, em que uma ideia conduz naturalmente à outra. Também pedi que a reflexão sobre o Brasil surgisse a partir do jogo, e não o contrário.
A cada nova versão, o texto era reescrito, discutido e ajustado. Algumas passagens foram descartadas; outras nasceram de observações que fiz durante esse diálogo. A inteligência artificial não viveu a emoção da partida, não teve as impressões que tive diante da televisão e não formulou, por conta própria, a crítica social presente na crônica. Seu papel foi semelhante ao de um editor: organizar ideias, sugerir construções e oferecer alternativas de escrita, sempre sob minha orientação.
O resultado final é fruto dessa colaboração. A emoção, a interpretação e a opinião são minhas. A inteligência artificial foi utilizada como uma ferramenta de lapidação do texto, assim como um escritor pode recorrer a um revisor, a um editor ou a um colega de profissão para aperfeiçoar sua escrita.
Talvez essa seja a melhor maneira de compreender o papel da IA na produção literária contemporânea: ela não substitui a experiência humana, mas pode ajudar a dar forma às ideias de quem tem algo a dizer.




