Envelhecer, saudável, é possível? 03/10

 Envelhecer, saudável, é possível? 

Talvez esta seja uma das perguntas mais silenciosas do nosso tempo. Não daquelas perguntas filosóficas que aparecem em livros grossos e mesas de universidade, mas das que surgem no espelho do banheiro às seis da manhã, quando a luz branca resolve ser cruel. Há quem diga que a idade é apenas um número. Normalmente quem diz isso acabou de fazer um procedimento estético parcelado em doze vezes.


Recentemente, a atriz Demi Moore voltou ao centro das atenções por causa de um filme sobre envelhecimento, corpo, aparência e o terror moderno de deixar de ser desejável. Não deixa de haver certa ironia poética no fato de que, justamente no ano em que sua atuação foi celebrada como uma espécie de manifesto sobre a passagem do tempo, o prêmio principal acabou indo para uma atriz mais jovem. Hollywood, às vezes, parece um cassino elegante onde todos discursam sobre profundidade humana enquanto apostam secretamente na juventude.


O curioso é que a indústria cosmética sequer tenta mais disfarçar suas intenções. Antigamente vendiam cremes. Hoje vendem esperança em frascos de vidro fosco. Não prometem exatamente juventude eterna — isso seria propaganda enganosa —, mas oferecem algo talvez mais perigoso: a ilusão de que o tempo pode ser negociado. Como um fiscal da natureza, o relógio biológico bate à porta, e a ciência responde da janela: “ele não está”.


Vivemos num mundo estranho em que as pessoas envelhecem sem parecer envelhecer. Há homens de sessenta com rosto de quarenta e joelhos de oitenta. Mulheres com pele impecável e olhares cansados como estações rodoviárias em domingo chuvoso. A medicina aprendeu a repuxar a superfície, mas o corpo, esse funcionário antigo e ressentido da existência, continua arquivando tudo em silêncio: noites mal dormidas, ansiedades, excessos, culpas, cigarros escondidos, amores ruins e hambúrgueres às duas da manhã.


Eu mesmo vivo um paradoxo moderno. Por questões de saúde, preciso fazer reposição hormonal masculina. Veja só o nível da conversa contemporânea: o corpo já não produz naturalmente o que deveria produzir, e então a farmacologia entra em cena como um mecânico especializado em peças humanas. É quase bonito pensar nisso. O organismo falha, a ciência corrige. O tempo leva, a farmácia devolve um pouco. Há algo profundamente humano nesse esforço desesperado de manutenção.


Mas nem tudo são flores, como dizem as tias no grupo da família quando alguém posta foto de hospital.


Porque o corpo cobra. Sempre cobra.


Tenho dores nas costas. Dessas dores que não chegam gritando, mas ficam ali, como um credor educado lembrando diariamente que você passou anos sentado errado, dormindo torto, vivendo como se a coluna fosse uma peça opcional do esqueleto. Descobri, tarde demais, que postura não é elegância; é sobrevivência. A juventude nos faz acreditar que o corpo é infinito. Depois dos trinta, o simples ato de pegar uma meia caída no chão exige planejamento estratégico.


E, no entanto, seguimos correndo.


Olho para alguns países desenvolvidos, especialmente a Coreia do Sul, e vejo uma relação peculiar com envelhecimento e desempenho. Existe ali uma cultura de disciplina quase industrial do corpo. As pessoas parecem obedecer a um padrão invisível de eficiência estética e funcional. Envelhecem com saúde, é verdade, mas também envelhecem sob vigilância. Como se cada cidadão fosse um pequeno outdoor ambulante do sucesso nacional.


Há academias abertas de madrugada, rotinas alimentares milimetricamente organizadas, produtos para pele que parecem ter sido desenvolvidos pela NASA, e uma obsessão coletiva pela aparência que às vezes transforma o rosto humano em projeto arquitetônico. O país prospera. O padrão se mantém alto. Mas fico pensando quanto dessa saúde nasce do cuidado genuíno e quanto nasce do medo de deixar de servir.


Porque talvez essa seja a tragédia silenciosa da modernidade: confundimos viver bem com funcionar bem.


As pessoas falam muito de produtividade e pouco de existência. Trabalham para comprar coisas que aliviem o estresse causado pelo próprio trabalho que fizeram para comprar as coisas. Dormem pouco para conquistar conforto. Depois gastam o dinheiro conquistado tentando recuperar o sono perdido. O corpo virou uma empresa em crise administrada por aplicativos de hábitos.


E o legado?


Quase ninguém fala mais em legado. Fala-se em performance, engajamento, metas, resultados, aparência. Mas legado exige permanência emocional, e vivemos na era do descartável. Relações são trocadas como aparelhos telefônicos. Fotos desaparecem em vinte e quatro horas. Opiniões duram até o próximo assunto do momento. O mundo corre numa velocidade tão absurda que envelhecer passou a parecer uma falha de atualização.


Talvez por isso tantas pessoas existam sem realmente viver.


Acordam. Trabalham. Consomem. Dormem. Repetem.


E entre um compromisso e outro, evitam pensar no fato assustador de que estão morrendo aos poucos. Não de maneira dramática, cinematográfica, com trilha sonora e discursos emocionantes. Não. Morrem lentamente em filas, boletos, ansiedades e notificações.


Há anos, Demi Moore estrelou Ghost, aquele filme em que o amor continua existindo mesmo depois da morte. Para muita gente, foi apenas um romance sobrenatural. Mas talvez o sucesso daquele filme venha justamente da nossa dificuldade em aceitar o desaparecimento absoluto. O ser humano suporta quase tudo, menos a ideia de deixar de ser.


Existem milhares de teorias sobre o que acontece depois da morte. Céu, reencarnação, vazio, energia, consciência cósmica, planos espirituais. Cada cultura monta sua própria versão do mistério, como crianças tentando adivinhar o conteúdo de uma caixa fechada. E talvez seja inevitável que seja assim. A morte não pode ser exatificada. Não existe laboratório capaz de medi-la completamente. O máximo que temos são relatos, crenças, filosofias e aquele silêncio desconfortável que acompanha enterros.


Enquanto isso, seguimos aqui.


Habitando este corpo estranho, complexo, falível.


Nossa máquina da existência.


E como tratamos essa máquina? Essa talvez seja a pergunta central.


Há quem cuide do corpo apenas por estética. Outros, apenas por medo da morte. Alguns abandonam completamente qualquer cuidado, como se o organismo fosse um carro alugado. Mas talvez envelhecer de maneira saudável tenha menos relação com parecer jovem e mais relação com permanecer inteiro.


Inteiro fisicamente, quando possível.


Inteiro mentalmente, sobretudo.


Porque existe uma velhice da alma que chega antes da do corpo. Conheço jovens cansados da vida aos vinte e cinco e idosos curiosos aos oitenta. O envelhecimento não acontece apenas na pele. Ele acontece na capacidade de se encantar. Na disposição para aprender. Na coragem de continuar criando vínculos apesar das perdas.


Talvez o grande desafio não seja impedir o tempo de passar.


Isso ninguém conseguiu.


O desafio talvez seja não endurecer enquanto ele passa.


Continuar humano num mundo cada vez mais artificial. Continuar sensível numa época que valoriza velocidade mais do que profundidade. Continuar olhando para o próprio corpo não como inimigo, mas como companheiro de jornada.


As rugas talvez sejam menos ofensivas do que a ausência de memória afetiva. Um rosto marcado ainda conta histórias. Já a juventude eterna, às vezes, parece apenas silêncio esticado.


No fim, envelhecer saudável talvez seja isto: aceitar que o tempo modifica tudo, mas ainda assim cuidar do corpo, da mente e das pessoas ao redor como quem preserva algo sagrado. Não porque viveremos para sempre, mas justamente porque não viveremos.


E talvez exista certa beleza nisso.


Afinal, se o corpo é uma máquina da existência, como você disse, ele também é a única casa que carregaremos até o fim.


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Famosa abordada: Demi Moore

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Demi Moore, nascida como Demi Gene Guynes em 11 de novembro de 1962, é uma atriz e produtora norte-americana que, aos 63 anos, permanece como uma das figuras mais reconhecidas de Hollywood. Sua trajetória é marcada tanto pelo sucesso artístico quanto pela constante reinvenção diante das transformações da indústria cinematográfica e das discussões sobre envelhecimento e imagem pública.


Criada em um ambiente familiar instável e cercado por dificuldades financeiras, Demi Moore iniciou a carreira ainda jovem como modelo e atriz de televisão, alcançando projeção internacional nos anos 1980 e 1990. Tornou-se mundialmente conhecida após estrelar Ghost, obra que a transformou em símbolo romântico de uma geração. Depois disso, consolidou-se em produções de sucesso como A Few Good Men, Indecent Proposal e G.I. Jane.


Ao longo das décadas, sua imagem passou a representar não apenas o glamour hollywoodiano, mas também os debates contemporâneos sobre juventude, estética, pressão social e a busca por permanência em uma indústria que frequentemente privilegia a aparência e a renovação constante.


Envelhecer, saudável é possível? 02/10

 O Trem das Estações Esquecidas 

Existe uma conspiração silenciosa entre o espelho e o calendário. O espelho, esse sujeito cínico, nos devolve uma imagem que teimamos em não reconhecer, enquanto o calendário avança com a precisão de um carrasco suíço. A grande tragédia moderna não é a morte — essa, pelo menos, é democrática — mas a recusa em aceitar que a vida é feita de capítulos, e que não dá para ficar relendo o prefácio para sempre.

A saúde mental, no meio desse turbilhão que chamamos de "peripécias da vida", começa justamente aí: na arte de não brigar com o óbvio. Manter-se são exige um esforço hercúleo de ignorar a ditadura do "sempre jovem". Um dos primeiros passos para a higiene da alma é o distanciamento crítico. É preciso olhar para os problemas não como montanhas intransponíveis, mas como neblina na estrada; ela atrapalha a visão, mas se você mantiver a velocidade constante e os faróis acesos, ela acaba passando.

Para entender o valor de um envelhecimento equilibrado, precisamos visitar o necrotério das celebridades que resolveram viver em velocidade máxima, sem cinto de segurança. Falo daqueles que tinham o mundo aos pés, mas não tinham chão sob as botas. Marilyn Monroe, a deusa de platina que buscava no afeto alheio a cura para uma solidão que vinha de dentro; Amy Winehouse, que transformou sua dor em jazz e sua vida em um adeus precoce; Elvis Presley, o rei que se perdeu em seu próprio palácio de excessos; e Jim Morrison, que tentou atravessar para o "outro lado" e acabou ficando por lá.

Essas figuras não morreram de velhice; morreram de urgência. E a urgência é o veneno da saúde mental. Em um mundo que exige respostas imediatas e performances impecáveis, a primeira forma de manter a sanidade é estabelecer limites. Aprender a dizer "não" para o que nos consome é um exercício de musculação emocional tão importante quanto qualquer supino na academia.

A mente e o corpo, esses dois inquilinos que dividem o mesmo apartamento (o seu esqueleto), precisam estar em harmonia. Não adianta a mente querer ser um atleta de elite se o corpo já sinaliza que a lombar entrou em greve por tempo indeterminado. O alinhamento de propósito é a chave. Saúde mental é, em grande parte, autocompaixão. É entender que falhar faz parte do roteiro e que ter um tratamento adequado quando a química cerebral oscila não é sinal de fraqueza, mas de inteligência técnica.

Vivemos em uma sociedade que se recicla. A cada obituário, o sistema se ajusta. Somos peças de uma engrenagem que teima em se ver como o motor inteiro. Mas, como diz a canção interpretada por Maria Rita, a vida é uma estação. O trem está em movimento. Manter a saúde mental é saber apreciar a vista da janela, mesmo quando o trem sacode ou entra em um túnel escuro. A meditação, a leitura, o convívio com quem nos quer bem sem interesses contratuais — tudo isso são formas de lubrificar os trilhos da nossa própria locomotiva.

A saúde mental depende também de aceitar a finitude das fases. Cada idade tem seu bônus e seu ônus. Tentar carregar os privilégios da juventude para a maturidade sem aceitar as responsabilidades desta última é o caminho mais rápido para a frustração. O segredo de quem envelhece bem não está nas fórmulas mágicas de rejuvenescimento, mas na capacidade de encontrar beleza na decadência lenta e elegante das coisas. É saber que o "novo" logo será "velho", e que o legado que deixamos é a única coisa que realmente fica na plataforma quando o trem parte.

É preciso assistência, é preciso ciência, mas, acima de tudo, é preciso um pouco de filosofia de botequim: nada é tão grave quanto parece no calor do momento. A resiliência mental é como um músculo; ela cresce quando somos expostos ao estresse, desde que haja o tempo necessário para o descanso e a recuperação.

No final das contas, somos todos passageiros. Alguns tentam subornar o maquinista para voltar algumas estações, outros tentam pular do vagão em movimento. Mas os que chegam mais longe são aqueles que entendem que a viagem é o destino. E que, se as luzes da cabine começarem a piscar, o melhor a fazer é pedir ajuda, respirar fundo e lembrar que, enquanto o trem estiver andando, ainda há paisagem para ver.

O Personagem: Michael Jackson

O maior exemplo dessa luta inglória contra o tempo foi o Rei do Pop. O famoso abordado nesta crônica, que personificou a "Síndrome de Peter Pan", viveu em uma Terra do Nunca construída com muros altos e isolamento. Ele lutou contra vitiligo, lúpus e as marcas de uma infância que não aconteceu, tentando desesperadamente manter-se em uma juventude eterna que a biologia não permite. Ele foi o passageiro que tentou reconstruir o vagão inteiro enquanto o trem corria, esquecendo-se de que a paz mental não vem da perfeição da carcaça, mas da aceitação de que somos, todos nós, passageiros de uma só viagem.


Nota de Saúde: Para um envelhecimento saudável, mantenha exames de rotina em dia, pratique atividades físicas consistentes e não hesite em buscar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico para manter o equilíbrio emocional.

O Cemitério de Elefantes

 Eu sempre soube onde terminaria minha caminhada.

Entre os elefantes mais antigos da savana, havia uma história repetida ao pé das acácias, contada em voz baixa nas noites em que o vento vinha quente do sul: chega um tempo em que o corpo pesa mais que a memória, e então os velhos seguem sozinhos para o vale dos ossos, o lugar onde a terra aprende lentamente a engolir gigantes.

Quando eu era pequeno, ria dessa ideia.

Corria atrás das garças, espantava macacos dos galhos baixos e acreditava que os adultos eram feitos de pedra eterna. Minha mãe caminhava na frente da manada com a calma das montanhas. Eu pensava que nada no mundo poderia fazê-la cair. Seu passo fazia a terra vibrar, e eu seguia dentro daquela vibração como um peixe segue a correnteza.

Foi ela quem me ensinou os caminhos das chuvas.

— Escute o chão — dizia. — A terra fala antes das nuvens.

E era verdade. Antes da tempestade chegar, havia um murmúrio escondido sob as patas. Os insetos mudavam de direção, os pássaros silenciavam por um instante, e então o céu desabava sobre nós como um rio virado ao contrário.

Naquele tempo, a savana parecia infinita.

As árvores eram mais altas aos meus olhos de filhote, os rios mais largos, e até o cheiro do barro tinha alguma espécie de juventude. Eu brincava com Kito, outro pequeno macho nascido na mesma estação que eu. Fazíamos disputas para ver quem derrubava primeiro os cupinzeiros secos. Nenhum de nós tinha força suficiente, mas insistíamos com orgulho.

Kito morreu cedo.

Não gosto de lembrar disso, mas os velhos dizem que a memória amarga também alimenta a alma. Foi na grande seca, quando os poços viraram lama espessa e os leões perderam o medo da luz do dia. Encontraram-no separado da manada perto de um arbusto queimado. Minha mãe colocou a tromba sobre seus ossos durante muito tempo, sem dizer nada.

Naquela noite compreendi que a morte não fazia barulho.

Ela apenas retirava alguém do mundo como o vento leva uma folha da árvore.

Depois disso comecei a observar os adultos com mais atenção. Vi cicatrizes que antes não percebia. Vi o cansaço nos olhos dos mais velhos depois das longas caminhadas. Vi um tio meu mancar durante três estações por causa da mordida de um crocodilo. Descobri que a força não era eternidade; era apenas resistência.

Os anos passaram como passam os rios: silenciosos, mas irreversíveis.

Cresci.

Minhas presas apareceram devagar, como luas nascendo. Minha voz engrossou. Os filhotes passaram a andar debaixo da minha barriga durante as travessias. E um dia percebi que minha mãe já caminhava atrás da manada, não mais à frente.

Foi estranho assistir ao envelhecimento dela.

As mães, para os filhos, deveriam permanecer iguais. Mas o tempo é um caçador paciente. Primeiro levou sua rapidez. Depois seu sono tranquilo. Mais tarde levou parte da audição. Ela começou a esquecer pequenos caminhos, confundia árvores antigas, parava mais vezes para descansar.

Ainda assim, era ela quem contava histórias nas noites frias.

Falava de um tempo em que havia mais rios e menos homens. Dizia que as estrelas eram buracos feitos pelos ancestrais para vigiar os vivos. Contava sobre uma elefanta branca que teria caminhado até o mar e retornado coberta de sal.

Os filhotes escutavam fascinados.

Hoje percebo que os velhos contam histórias porque sabem que não poderão acompanhar o futuro. As palavras tornam-se uma maneira de continuar andando mesmo depois da queda.

Minha mãe partiu numa manhã de neblina.

Não houve despedida. Apenas acordamos e percebemos sua ausência. Os rastros apontavam para o oeste, para além das colinas escuras. Nenhum de nós a seguiu.

Porque todos sabíamos.

O vale dos ossos.

Durante muitos anos tentei não pensar naquele lugar. Enterrei-me nas tarefas da vida. Houve secas, incêndios, enchentes repentinas. Houve disputas entre machos jovens, nascimento de filhotes, travessias perigosas entre homens armados.

Ah, os homens…

Quando eu era novo, apareciam raramente. Depois vieram em número maior. Cortavam árvores, abriam feridas na terra, deixavam fumaça no horizonte. Alguns carregavam trovões nas mãos. Aprendemos a sentir o cheiro deles à distância.

Vi um irmão cair por causa desses trovões.

Ele ainda tentou se levantar. Os olhos procuravam a manada enquanto o sangue escurecia o chão. Permanecemos ao redor do corpo por horas. Os urubus esperavam nas árvores como juízes silenciosos.

Naquele dia senti raiva pela primeira vez.

Mas a raiva envelhece rápido dentro de um elefante. Não conseguimos carregá-la por muito tempo porque a memória já pesa demais.

Continuei vivendo.

A savana mudava diante de mim. Árvores caíam onde antes havia sombra. Filhotes nasciam e cresciam. Alguns me chamavam de velho antes mesmo que eu aceitasse isso. Eu ria. Depois comecei a me cansar mais cedo. Minhas juntas doíam nas manhãs frias. Certos caminhos tornaram-se longos demais.

E então vieram os sonhos.

Nos sonhos eu caminhava sozinho por um vale branco. Ossos surgiam entre as pedras como galhos secos. E no meio deles estava minha mãe, observando-me em silêncio.

Acordava sempre antes de alcançá-la.

Com o tempo entendi o chamado.

Não foi uma decisão tomada de repente. O corpo começa a conversar conosco. Primeiro em sussurros, depois em ordens. Minhas presas já não brilhavam como antes. Minha visão falhava ao entardecer. Certas noites eu permanecia acordado ouvindo o coração bater devagar, como se estivesse cansado de continuar.

Então comecei minha última caminhada.

Não contei a ninguém.

Parti antes do nascer do sol enquanto a manada dormia. Passei pelos campos onde brincara quando filhote. Atravessei o rio estreito onde certa vez quase fui levado pela correnteza. Toquei com a tromba uma velha acácia rachada pelos relâmpagos. Tudo parecia despedida.

No segundo dia ouvi filhotes ao longe.

Parei escondido atrás de pedras e observei uma nova manada cruzando a planície. Pequenos corriam em círculos exatamente como eu fazia com Kito muitos anos antes.

Senti alegria.

E tristeza.

Porque compreendi que a vida não sente pena dos que envelhecem. Ela continua avançando, verde e indiferente, produzindo novos passos enquanto os antigos desaparecem.

Cheguei ao vale ao cair da tarde.

O lugar era maior do que imaginei.

Havia ossos espalhados entre a poeira: costelas abertas como barcos naufragados, crânios enormes olhando para o céu vazio, presas quebradas pelo tempo. O vento passava por entre eles produzindo um som estranho, quase parecido com vozes.

Ali não havia pássaros.

Nem insetos.

Nem árvores.

Apenas silêncio.

Escolhi um lugar próximo a uma pedra inclinada e deitei-me devagar. Meus joelhos protestaram. Pela primeira vez senti medo verdadeiro.

Não medo de predadores.

Nem dos homens.

Medo de deixar de existir.

As noites aqui são frias. Mais frias do que qualquer outra noite da savana. O vento parece atravessar os ossos e carregar lembranças junto consigo. Às vezes acordo achando ouvir minha mãe caminhando perto de mim. Outras vezes escuto Kito rindo como nos dias antigos.

Talvez a morte comece assim: confundindo memória e realidade.

Estou cansado agora.

Muito cansado.

Consigo sentir meu coração diminuindo o ritmo como um tambor distante depois da festa. O céu desta noite está cheio de estrelas, e penso no que minha mãe dizia sobre os ancestrais observando pelos buracos do firmamento.

Se isso for verdade, então ela me vê.

Talvez esteja esperando.

Talvez todos estejam.

Curioso… passei a vida inteira acreditando que o cemitério dos elefantes fosse um lugar de terror. Mas aqui, cercado pelos restos daqueles que caminharam antes de mim, percebo outra coisa.

Não é um lugar de horror.

É um lugar de retorno.

Os ossos ao meu redor já foram viajantes da chuva, guardiões de filhotes, amantes da lama fresca, sobreviventes de secas e incêndios. Todos tiveram medo. Todos amaram a vida. Todos resistiram enquanto puderam.

E agora eu me junto a eles.

O vento sopra novamente.

Fecho os olhos.

Pela primeira vez em muitos anos, não sinto vontade de continuar caminhando.



Envelhecer, saudável é possível? 01/10

 Envelhecer, dizia um desses filósofos de botequim que a gente encontra pela vida, é a única maneira que se descobriu até hoje de não morrer jovem, e embora a frase carregue o peso de uma obviedade quase rústica, ela esconde o espanto que nos assalta quando percebemos que o tempo não é mais aquela estrada infinita que víamos da janela do ônibus escolar, mas sim um retrovisor que reflete, com uma nitidez por vezes cruel, os ídolos da nossa infância transmutados em adultos que agora falam abertamente sobre geriatria. Recentemente, fui atingido por uma declaração da Eliana — sim, aquela mesma dos polegares, da voz de cristal que embalava as manhãs de um SBT ainda analógico e que, em algum momento da nossa linha do tempo, decidiu que cantar Shakira sob a batuta de um ex-namorado era uma etapa necessária da sua própria metamorfose — onde ela afirmava categoricamente que já possui uma geriatra para chamar de sua, e confesso que o impacto dessa frase em um sujeito que, como eu, caminha pelos quarenta e três anos, é equivalente a levar um soco de realidade dado por uma luva de pelica, pois para a minha filha, que ostenta seus doze anos como quem carrega a chave do futuro no bolso do jeans, a palavra "geriatra" soa tão natural quanto um algoritmo de rede social ou uma atualização de software, enquanto para mim, que ainda guardo na memória a imagem da menina de franjinha, o termo soa como uma invasão bárbara no território sagrado da juventude eterna.


A questão que se coloca diante de nós, essa geração que se equilibra precariamente entre o analógico e o digital, entre o pão com manteiga na chapa e o whey protein isolado, é como exatamente chegamos a esse ponto em que o corpo de menina de uma apresentadora de TV parece desafiar as leis mais básicas da termodinâmica, mantendo-se firme e reluzente enquanto o resto da humanidade lida com a gravidade, com o metabolismo em marcha lenta e com as dores que aparecem sem aviso prévio na manhã seguinte a um esforço mínimo. Vivemos, sem dúvida, sob o império da exposição contínua, onde a internet exige uma estética de vitrine que muitas vezes nos obriga a esconder as engrenagens rangentes da nossa máquina biológica sob camadas de filtros, ângulos favoráveis e edições cuidadosas, criando uma legião de pessoas que estão lindas por fora, mas que, se formos abrir o capô, talvez careçam daquela manutenção básica que só o movimento consciente e a disciplina alimentar podem proporcionar ao longo das décadas. Há, é claro, os prodígios que conseguem manter o equilíbrio entre o dentro e o fora, o que exige uma força de vontade que beira o misticismo, e há aqueles que se limitam à fachada, como casarões antigos de Curitiba que ostentam colunas suntuosas e pintura fresca enquanto o cupim faz a festa silenciosa nos baldrames, mas a grande verdade é que a vida é uma sucessão de escolhas que, no final das contas, acabam escrevendo a nossa biografia nas paredes das nossas artérias e na flexibilidade dos nossos tendões.


Se a alimentação nos define e o movimento nos transforma, a pergunta que ecoa no silêncio do consultório ou no barulho metálico da academia onde tentamos recuperar o tempo perdido é: como você está deixando a sua máquina? Tratar o corpo como uma entidade separada de nós mesmos, como se fôssemos apenas inquilinos temporários de um imóvel que não nos pertence, é o primeiro erro de uma longa lista de equívocos que cometemos ao longo das décadas de negligência, pois esquecemos que o envelhecimento saudável não é um bilhete de loteria que se ganha por sorte ou herança genética, mas sim um projeto de engenharia contínua que exige atenção constante aos lubrificantes que ingerimos e ao esforço que impomos aos nossos pistões musculares. Ver a Eliana falar de sua geriatra deveria ser, para todos nós que cruzamos a fronteira dos quarenta, um lembrete de que o tempo não perdoa os desatentos e que a diferença entre chegar à terceira idade com a dignidade de um clássico restaurado ou com a melancolia de um ferro-velho abandonado reside na coragem de trocar o sedentarismo confortável pela caminhada necessária e o excesso de alimentos processados pela simplicidade do que é vivo e nutritivo.


Nossa geração é aquela que viu o mundo mudar de cor, que passou do disco de vinil para o streaming e que agora se vê diante do espelho tentando entender em qual dobra da história aquela agilidade dos vinte anos se escondeu, e é justamente nesse ponto que a crônica do envelhecer se torna uma narrativa de resistência, onde cada escolha feita diante do prato de comida ou cada hora dedicada ao treino na academia funciona como um parágrafo de esperança em um livro que ainda tem muitos capítulos para serem escritos. A manutenção da máquina corpo não é um capricho estético para quem quer apenas parecer bem nas fotos de rede social, mas uma necessidade pragmática para quem deseja continuar sendo protagonista da própria vida, capaz de subir uma escada sem ofegar ou de brincar com os filhos sem sentir que o esqueleto está prestes a desmoronar sob o peso da gravidade. A Eliana que cantava para os polegares agora é a mulher que nos aponta o caminho da maturidade com consciência, e embora o "What?" que brota na nossa garganta ao ouvir sobre geriatras seja legítimo, ele deve ser seguido por uma reflexão profunda sobre o que estamos fazendo com o único veículo que realmente possuímos nesta existência.


A vida moderna nos oferece todas as facilidades para que sejamos sedentários e mal alimentados, transformando o ato de cuidar da saúde em um gesto quase revolucionário de rebeldia contra a comodidade, e é nesse cenário que precisamos ser os mecânicos atentos da nossa própria biologia, ajustando os parafusos da rotina e garantindo que o combustível seja de alta octanagem, pois a velhice, quando chega para quem não se preparou, é uma visita indesejada que cobra juros altíssimos sobre cada negligência do passado. Para a minha filha de doze anos, o conceito de saúde já nasce integrado a uma nova realidade de prevenção, mas para nós, que crescemos em uma época de menos informação e mais improviso, a tarefa é desaprender velhos hábitos para que possamos habitar nossa pele com o conforto de quem sabe que fez o melhor possível pela engrenagem. O envelhecimento saudável é, portanto, o exercício diário de aceitar que somos obras em construção permanente, e que se a Eliana já está consultando uma geriatra, talvez seja hora de pararmos de olhar para o relógio com medo e passarmos a olhar para os nossos hábitos com honestidade, pois no grande baile da vida, a música continua tocando e só quem mantém o corpo em movimento consegue acompanhar o ritmo, mesmo que os passos agora sejam mais calculados e o fôlego exija uma gestão mais inteligente.


Portanto, quando você se deparar com a imagem de alguém que parece ter vencido a barreira do tempo, não se iluda com a ideia de que aquilo é apenas fruto de cremes caros ou intervenções cirúrgicas, pois a verdadeira beleza que resiste ao outono da vida vem de uma manutenção interna que não pode ser comprada, apenas conquistada com o suor do movimento e com a sabedoria de quem sabe que o que colocamos para dentro do corpo é o que sustenta a estrutura por fora. A crônica do envelhecer saudável é uma história de amor-próprio escrita com a tinta da disciplina, e se hoje nos assustamos com a palavra "geriatria", que amanhã possamos celebrá-la como a ciência que nos permite estender a nossa estadia neste mundo com a qualidade que a nossa máquina merece, garantindo que, independentemente da idade cronológica, a nossa alma continue encontrando um corpo vigoroso e pronto para as próximas aventuras que o destino decidir nos apresentar. Ao final, somos todos passageiros de um tempo que não para, e a melhor forma de aproveitar a viagem é garantindo que o veículo esteja em ordem, com os freios revisados, o motor regulado e o tanque cheio de bons nutrientes, para que possamos olhar para o retrovisor sem arrependimentos e para a estrada à frente com o entusiasmo de quem sabe que o melhor quilômetro ainda está por vir. (Famosa abordada Eliana).


Envelhecimento fato que não se pode fugir 10/10

 O Legado do Tempo 
Finalizo aqui minha crônica sobre o envelhecimento, um fato do qual nenhum ser humano pode fugir. Foram dez encontros refletindo sobre o tempo, a velhice e aquilo que fazemos da nossa existência enquanto ainda caminhamos por ela.
Durante essas reflexões, falei sobre o Japão, um país que já vive um fenômeno assustador e silencioso: cidades e casas abandonadas pela ausência de filhos e herdeiros. Lugares onde o tempo parece ter permanecido imóvel, como se a vida tivesse saído pela porta e não voltado mais. Isso nos faz pensar no futuro da humanidade e em como estamos lidando com a própria continuidade da vida.
Também comentei sobre a busca quase obsessiva do ser humano por prolongar a existência. Bilionários investem fortunas tentando retardar o envelhecimento dos órgãos, buscando maneiras de reverter aquilo que sempre foi considerado inevitável. E, sinceramente, às vezes penso: se todo o esforço do mundo fosse direcionado para saúde, qualidade de vida e equilíbrio humano, talvez pudéssemos viver cento e cinquenta anos. É uma possibilidade que provoca reflexão.
Mas existe outra questão que me inquieta ainda mais. A preocupação da vida não deveria ser apenas viver mais, mas deixar algo que permaneça. Porque, sendo realistas, a existência humana é curta. O homem vive oitenta anos, noventa quando muito. Depois disso, já estamos em um segundo tempo avançado da vida.
Talvez a grande pergunta não seja “quanto tempo ainda tenho?”, mas “o que ficará de mim quando eu partir?”.
Chego aos meus quarenta e três anos entendendo algo que antes parecia distante. A alimentação, por exemplo, deixa de ser apenas prazer e passa a ser também responsabilidade. Comer mal pode, sim, nos matar lentamente. O corpo já não responde da mesma forma. A maturidade exige mudanças.
Envelhecer também deveria trazer serenidade. Quando somos jovens, acreditamos que a velhice pertence aos outros. A morte é distante, o corpo parece infinito e o amanhã nunca preocupa. Mas depois da metade da vida, algo muda dentro de nós. Começamos a perceber que certos hábitos precisam ser abandonados, que nossa maneira de agir deve amadurecer e que o tempo passa mesmo quando fingimos não perceber.
Qual seria, então, a forma ideal de envelhecer?
Talvez seja viver de maneira que não tenhamos vergonha do próprio legado. Ser lembrado como alguém bom. Alguém que tentou fazer o certo. Alguém que deixou mais afeto do que feridas.
No fim, cuidar da saúde, cultivar a serenidade e construir um legado digno talvez sejam as únicas maneiras reais de enfrentar o tempo.
E talvez envelhecer não seja perder a juventude.
Talvez envelhecer seja, finalmente, compreender a vida.

Envelhecimento, fato que não se pode fugir 09/10

 Finalizada a semana, e quase finalizando minha crônica sobre o envelhecimento, hoje tirei o dia para falar do conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa. Acho este conto muito pertinente para refletirmos sobre a passagem do tempo.

Quando jovens, apesar de o mundo nos ser apresentado com todos os seus costumes e modos, a morte parece algo distante. Na juventude estamos no viço da vida e, sendo assim, não nos preocupamos com ela. Esquecemos que o envelhecimento é inerente ao viver. Vive-se sem pensar no amanhã, e assim a vida torna-se mais leve; o medo de existir e, logo depois, deixar de existir fica adormecido em algum lugar da consciência.

Como prometido, vou tentar contextualizar essa reflexão com o conto em questão. Há um pai e um filho. O pai abandona a família, e parece que quem realmente sente esse abandono é apenas o filho. Mas é um abandono estranho, quase inconsciente, pois o pai aparenta perder o juízo e passa a morar em uma canoa no meio de um rio.

Isso transforma completamente a vida daquela família. A mãe sente vergonha, preocupação, e uma família antes estruturada passa, aos poucos, a se tornar uma família em ruínas. O tempo passa, e aquela situação típica do interior — algo impensável nos dias de hoje acontecer da mesma forma — permanece suspensa, como uma ferida aberta.

Escrevi um conto espelhado nessa narrativa, retratando a vida de mendigos. Como se tornaram mendigos? O que os levou ao desamparo? Bebida? Drogas? Abandono? Como conseguem viver assim? Pessoas que, muitas vezes, finalizam a existência em asilos. Será que eu também finalizarei a minha existência em um asilo?

Tenho somente uma filha. De certa forma, deixei a minha genética restrita a uma única pessoa. O conto de João Guimarães Rosa me traz esses sentimentos e me faz refletir profundamente.

Como já comentei em outro momento desta reflexão, certa vez visitei, a serviço, um hospital antigo da minha cidade. Observei que, na ala mais pobre, destinada aos pacientes atendidos pelo SUS, estavam justamente os mais velhos e necessitados.

Tudo aquilo que conquistamos ao longo da vida acaba sendo disponibilizado para o nosso próprio fim? A vida nos leva a gastar de forma desenfreada. Muitos ganham bem, possuem plano de saúde enquanto jovens, mas, quando chega a velhice, acabam dependendo da saúde pública.

A crônica de hoje está um pouco pessimista diante do futuro. Claro que também haverá boas coisas a serem observadas. Ainda assim, a reflexão permanece.

Sexta-feira, 08 de maio de 2026. Bora.

Envelhecimento, fato que não se pode fugir 08/10

Na procura diária por um fato que iniciasse minha crônica sobre o envelhecimento, deparei-me com uma moeda. Sim, uma simples moeda. Estava saindo do estacionamento onde deixei minha moto quando vi um colega de trabalho, já próximo da aposentadoria. Cumprimentei-o e, logo após, voltei a atravessar a rua. Na beirada do meio-fio, algo brilhou. Era uma pequena moeda de dez centavos. Peguei-a e percebi que era do ano de 2017. Aquela pequena moeda já estava há nove anos entre nós.

Pensei: “É sorte. Preciso jogar na Mega-Sena.”

Comentei com o colega que havia visto, em um vídeo, um lugar em Foz do Iguaçu onde as pessoas, mesmo sem poder, jogam moedas desejando sorte.

Ainda preciso amarrar a essa crônica “A Terceira Margem do Rio”,um conto que li esses dias de Guimarães Rosa, fica pra próxima sobre as minhas crônica  já se encontra em seu oitavo evento narrativo.

Sobre envelhecer, percebo que ganhamos valor conforme trocamos nossas horas por trabalho. Quando adentramos este mundo, nossa mãe, de algum modo, paga para que possamos nascer. Há toda uma rede de profissionais que nos recebe na chegada. Eu, em específico, sou fiscal sanitário e realizo fiscalizações em funerárias da cidade onde vivo. Então, até para morrer, existe uma rede de pessoas encarregadas de cuidar do último momento.

Agora, sentado diante do computador, digitando no software FocusWriter, penso que daqui a pouco revisarei este texto no ChatGPT e o deixarei para a posteridade: primeiro no Recanto das Letras, depois na Amazon KDP e também no blog.

Será que algum dia terei alguma remuneração por este escrito filosófico sobre o envelhecimento?