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Está nos Olhos (Conto) Philip K. Dick


Está nos OlhosPhilip K. Dick


Foi por acaso que descobri esta incrível invasão da Terra por criaturas de outro planeta. Até agora não fiz nada a respeito; não consigo pensar no que fazer. Eu escrevi para o Governo e eles me responderam com um panfleto sobre manutenção e concerto de casas de madeira. De qualquer maneira, a coisa toda é conhecida; não fui o primeiro a descobri-la. Talvez até esteja sob controle.

Eu estava sentado em minha poltrona, ociosamente folheando um livro que alguém deixou no ônibus quando me deparei com a referência que me colocou nos trilhos. Por um momento não respondi. Demorou um tempo para tudo aquilo ser assimilado. Depois que compreendi, parecia estranho que eu não tivesse notado a primeira vista.

A referência era claramente a uma espécie de não humanos providos de poderes incríveis, não naturais na Terra. Uma espécie, apresso-me em assinalar, costumeiramente disfarçada de seres humanos. Seu disfarce, porém, tornou-se transparente em face das seguintes observações do autor. Era óbvio que o autor sabia de tudo. Sabia de tudo - e estava transpondo tudo. A linha (e eu tremo de lembrá-la até agora) lia:

… seus olhos passearam lentamente pela sala.

Vagos calafrios me assaltaram. Tentei visualizar os olhos. Eles rolavam como moedas? A passagem indicava que não; eles pareciam mover-se pelo ar, não pela superfície. Bem rápidos, aparentemente. Ninguém na história estava surpreso. Foi isso que me deu a dica. Nenhum sinal de surpresa em frente a algo tão chocante. A seguir, os detalhes aumentavam.

… seus olhos se moveram de uma pessoa à outra.

Ali estava, em poucas palavras. Os olhos claramente haviam se separado do resto de seu corpo e estavam se movendo por conta própria. Meu coração bateu tão forte que fiquei com falta de ar. Eu havia encontrado por acaso uma menção acidental de uma raça totalmente estranha. Obviamente extraterrestre. Porém, nos capítulos do livro, isso era tudo perfeitamente natural - o que sugeria que eles pertenciam à mesma espécie.

E o autor? Uma lenta suspeita queimava em minha mente. O autor estava levando tudo numa boa. Evidentemente, ele sabia que era algo muito normal. Em nenhum momento ele fez alguma tentativa de esconder seu conhecimento. A história continuava:

… agora seus olhos estavam fixos em Julia.

Julia, por ser uma dama, teve ao menos a educação de sentir-se indignada. Ela é descrita como ficando corada e franzindo a sobrancelha enfurecida. Suspirei aliviado. Eles não eram todos alienígenas. A narrativa continua:

… lentamente, calmamente, seus olhos examinaram cada polegada do corpo dela.

Meu Deus! Mas aqui a garota virou-se e deu o fora e tudo acabou. Recostei em minha poltrona, ofegante com o horror. Minha esposa e os meus filhos me olham, assombrados.

- Qual o problema querido? - minha esposa perguntou.

Eu não podia contar a ela. Esse tipo de conhecimento era demais para uma pessoa comum. Eu tinha que manter segredo.

- Nada, suspirei.

Levantei, peguei o livro e corri para fora da sala.


Na garagem, continuei a leitura. Havia mais. Trêmulo, li a próxima passagem reveladora:

… ele pôs seu braço em volta de Julia. Prontamente ela lhe perguntou se ele podia remover seu braço. Ele imediatamente o fez, com um sorriso.

Não é explicado o que foi feito com o braço depois que ele o removeu. Talvez tenha ficado em algum canto. Talvez tenha sido jogado fora. Eu não me importo. O problema é: toda a verdade estava lá, me encarando.

Havia uma raça de criaturas capazes de remover partes de sua anatomia de acordo com a sua vontade. Olhos, braços - e talvez mais. Sem mover um cílio. Meu conhecimento de biologia veio a calhar nesse ponto. Obviamente elas eram criaturas simples, unicelulares, algum tipo de criatura primitiva formada por uma única célula. Seres menos desenvolvidos do que estrelas-do-mar. Estrelas-do-mar podem fazer a mesma coisa, sabe.

Continuei a ler. E cheguei a essa revelação incrível, exposta com toda a frieza pelo autor, sem o mínimo tremor.

… fora do cinema nós nos separamos. Uma parte entrou, outra parte foi para a lanchonete jantar.

Fissão binária, obviamente. Separando-se ao meio e formando duas entidades. Provavelmente cada parte inferior foi para a lanchonete, por ser ela mais longe, e as partes superiores foram para o cinema. Continuei lendo, as mãos tremiam. Eu realmente havia me deparado com alguma coisa aqui. Minha mente cambaleava enquanto eu lia essa passagem:

… Temo que não haja dúvidas. Pobre Bibney perdeu a sua cabeça novamente.

A qual era seguida por:

… e Bob disse que ele não tinha miolos para isso.

Porém Bibney andava por aí como qualquer pessoa. O cara ao lado, qualquer um, era apenas mais um estranho. Ele foi logo descrito como.

… totalmente desprovido de cérebro.

Não havia dúvidas da coisa na próxima passagem. Julia, a qual eu havia pensado ser a única pessoa normal, revela-se como sendo uma forma de vida alienígena também, similar ao resto:

… deliberadamente, Julia havia dado seu coração ao jovem.

Não explicava qual era a disposição final do órgão, mas eu realmente não me importava. Era evidente que Julia continuou vivendo normalmente, como todos no livro. Sem corações, braços, olhos, cérebros, vísceras, dividindo-se em dois sempre que a ocasião demandasse. Sem escrúpulos.

… então ela lhe deu sua mão.

Fiquei doente. O patife agora tinha a mão dela, assim como o coração. Estremeço de pensar no que ele fez com ambas, a essa altura.

… ele pegou o braço dela.

Não se contentando em esperar, ele começara a desmembrá-la por conta própria. Vermelho como um tomate, eu fechei violentamente o livro e saltei de pé. Mas não em tempo para escapar de uma última referência a aqueles pedaços despreocupados de anatomia das quais as viagens tinham me direcionado:

… os olhos dela o seguiram por todo o caminho até a estrada e através do prado.

Corri da garagem para dentro da casa calorosa, como se coisas amaldiçoadas estivessem me seguindo. Minha esposa e meus filhos estavam jogando Banco Imobiliário na cozinha. Me juntei a eles e joguei com fervor frenético, testa febril, dentes batendo.

Eu já tinha suportado demais. Não quero saber mais nada disso. Que eles venham. Que invadam a Terra. Não vou me meter nisso.

Absolutamente não tenho estômago para isso.



Título Original: The Eyes Have It
Tradução Herman Schmitz
(This etext was produced from Science Fiction Stories 1953. Extensive research did not uncover any evidence that the U.S. copyright on this publication was renewed.)

Você já mascou Can-D? Philip K. Dick




Philip K. Dick - trecho de Os Três Estigmas de Palmer Eldritch
— Obviamente, a solução é conhecê-la melhor — disse avidamente Leo. 
— Você já mascou Can-D? — perguntou com indiferença. 
— Pois devia. A despeito do fato de criar hábito. É uma verdadeira experiência. 
— Ele, claro, mantinha um suprimento da droga, gradação AA, em sua mansão-satélite.

Quando convidados se reuniam; a coisa era trazida para acrescentar cor ao que poderia se tornar uma ocasião monótona. — O motivo por que pergunto é que você parece o tipo de mulher dotada de imaginação ativa e a reação que a pessoa tem a Can-D depende, varia, com os poderes imaginativos do tipo criativo da pessoa.

— Eu gostaria de experimentar, algum dia — respondeu a senhorita Jurgens. Olhou em volta, baixou a voz e inclinou—se para ele. — Mas é ilegal.

— É...? — Ele a olhou fixamente.

— O senhor sabe que é. — A moça pareceu aborrecida.

— Escute aqui — disse Leo — , eu posso lhe arranjar um pouco. Claro, mascaria a erva com ela. Em comunhão, as mentes dos usuários fundiam-se, tornavam-se uma nova entidade — ou pelo menos tal era a experiência Algumas sessões de consumo de Can-D na intimidade, e saberia tudo o que houvesse para saber a respeito de Pia Jurgens. Havia nela alguma coisa — além das óbvias qualidades físicas, anatômicas — que o fascinava Ansiava por tornar-se mais íntimo dela.

— Nós não usaremos uma representação.

Por uma ironia da sorte, ele, o criador e fabricante do micro-mundo de Perky Pat preferia usar Can-D num vácuo. O que um terráqueo tinha a ganhar com um cenário, na medida em que era uma miniatura das condições que prevaleciam numa cidade típica da Terra? Para colonos numa lua uivante e varrida por tempestades, amontoados no fundo de um alojamento para se defenderem de cristais congelados de metano e de outras coisas, a situação era diferente. Perky Pat e seu cenário eram uma reentrada no mundo em que haviam nascido. Mas ele, Leo Bulero, estava muito cansado do mundo em que nascera e onde ainda vivia. E mesmo na mansão-satélite, com todas as suas esquisitas e não tão esquisitas diversões, não conseguia preencher o vazio. Contudo...

— Essa Can-D — disse a senhorita Jurgens — é uma grande coisa e não surpreende que tenha sido proibida. É como uma religião. A Can-D é a religião dos colonos. — Soltou uma risadinha. Um pedaço dela, mascado durante quinze minutos, e então... — fez um gesto amplo — desaparece o alojamento miserável. Desaparece o metano. A coisa fornece uma razão para se viver. Será que não vale o risco e a despesa?

Mas o que é que existe de igual valor para nós?, perguntou Leo a si mesmo e sentiu-se triste. Fabricando os cenários de Perky Pat e cultivando e distribuindo a base de líquen para o produto final acondicionado de Can-D tornara a vida suportável para mais de um milhão de expatriados involuntários da Terra. Mas que diabo conseguia ele em troca? Minha vida, pensou, é dedicada aos outros, estou começando a ficar inquieto, não é suficiente. Havia seu satélite, onde Scotty esperava, havia sempre os complexos detalhes de suas duas grandes operações comerciais, a legal e a outra que não era... Mas não haveria na vida mais do que isso?


Philip K. Dick - Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, 1965

Diante de Nós, o Wub, por Philip K. Dick

"O negligente wub poderia bem ter dito: muitos homens falam como filósofos e vivem como tolos."


Haviam quase terminado com a carga. Lá fora restava o Optus, seus braços cruzados, a cara fechada. O capitão Franco desceu descontraído a plataforma de carga, sorrindo.
“Qual o problema?” ele disse. “Vocês estão sendo pagos por isso tudo.”
O Optus não disse nada. Virou-se, juntando sua capa. O capitão pisou na beirada dela.
“Só um minuto. Não vá ainda. Eu não terminei.”
“Oh?” o Optus se virou, com dignidade. “Estou voltando à aldeia.” Ele olhou para os animais e pássaros sendo empurrados para a plataforma de carga, para dentro da espaçonave. “Preciso organizar novas caçadas.”
Franco acendeu um cigarro. “Por que não? Vocês podem ir lá no sertão e caçar isso tudo de novo. Mas quando nós estivermos a meio caminho entre marte e a terra –“
Sem dizem uma palavra, o Optus se foi. Franco se juntou ao tripulante no pé da plataforma.
“Como vai a coisa?” Olhou para seu relógio. “Fizemos um bom negócio aqui.”
O tripulante olhou para ele de relance, irritado. “Como você explica aquilo?”
“Qual o problema? Precisamos disso mais do que eles.”
“Te vejo mais tarde, capitão”. O tripulante seguiu seu caminho na plataforma, no meio dos pássaros marcianos de pernas longas, para dentro da nave. Franco observou enquanto ele sumia de vista. Estava justamente indo atrás dele, subindo a plataforma para entrar no embarque, quando ele o viu.
“Meu deus!” Ficou olhando, suas mãos nos quadris. Peterson estava andando pela trilha, seu rosto vermelho, levando a coisa em uma corrente.
“Desculpe capitão”, ele disse, puxando a corrente. Franco caminhou até ele.
“O que é isso?”
O wub ficou lá, indolente, seu grande corpo relaxando lentamente. Estava sentado, com os olhos semicerrados. Umas poucas moscas zuniam em seu flanco e ele balançava sua cauda.
A coisa sentou. Fez-se silêncio.
“É um wub,” disse Peterson. “Arrumei esse com um nativo por cinquenta centavos. Ele disse que é um animal muito incomum. Muito respeitado.”
“Isso?” Franco cutucou o grande lombo do wub. “Isso é um porco! Um grande porco sujo!”
“Sim, senhor, é um porco. Os nativos chamam isso um wub.”
“Um porcão. Deve pesar uns duzentos quilos.” Franco puxou um punhado do pelo grosso. O wub arfou. Seus olhos abriram, pequenos e úmidos. Então sua grande boca se retorceu.
Uma lágrima rolou pela bochecha do wub abaixo e caiu no piso.
“Talvez seja bom de comer,” disse Peterson nervosamente.
“Já, já saberemos,”, disse Franco.

* * * * *

O wub sobreviveu à decolagem, profundamente adormecido no compartimento de carga da nave. Quando já estavam no espaço e tudo estava tranquilo, o capitão Franco pediu a seus homens que trouxessem o wub para cima para que ele pudesse descobrir que tipo de animal era aquele.
O wub grunhia e bufava, espremendo-se corredor acima.
“Venha”, ralhou Jones, puxando a correia. O wub se contorceu, esfregando seu couro nas paredes lisas cromadas. Ele irrompeu na ante-sala, caindo no chão como um pacote. Os homens saltaram.
“Meu deus,”, disse French. “O que é isso?”
“Peterson diz que é um wub”, disse Jones. “Pertence a ele.”. Ele chutou o wub. O wub se levantou cambaleante, arfando.
“Qual o problema com isso?” French chegou mais perto. “Será que vai ficar doente?”
Eles observaram. O wub revirava os olhos melancolicamente. Olhou os homens à sua volta.
“Acho que ele está com sede,” disse Peterson. Ele saiu para buscar água. French balançou a cabeça.
“Não é de se admirar que tenhamos tido tanto trabalho para decolar. Tive que refazer todos os meus cálculos de lastro.”
Peterson voltou com a água. O wub começou a lamber a água, agradecido, espirrando-a nos homens.
O capitão Franco apareceu na porta.
“Vamos dar uma olhada nisso.” Ele avançou, observando criticamente. “Você conseguiu isso por cinquenta centavos?”
“Sim, senhor”, disse Peterson. “Ele come praticamente de tudo. Eu o alimentei com cereal e ele gostou. E então, com batatas, com purê, com sobras de refeição, com leite. Ele parece que gosta de comer. Depois de comer ele deita e dorme.”
“Entendi”, disse o capitão Franco. “Agora, sobre seu gosto. Essa é a verdadeira questão. Duvido que haja sentido em engordar isso ainda mais. Parece estar gordo o suficiente pra mim, já. Onde está o cozinheiro? Quero ele aqui. Quero descobrir –“
O wub parou de tomar água e olhou para o capitão.
“Realmente, capitão”, disse o wub, “sugiro que conversemos sobre outros assuntos.”
A sala ficou em silêncio.
“O que foi isso?” disse Franco. “Bem agora.”
“O wub, senhor,” disse Peterson. “Ele falou.”
Todos olharam para o wub.
“O que ele disse? O que ele disse?”
“ele sugeriu que falássemos de outra coisa.”
Franco caminhou em direção ao wub. Andou à sua volta, examinando-o por todos os lados. Então voltou para junto de seus homens.
“Imagino se não haverá um nativo dentro dele,”, disse, pensativo. “Talvez devamos abri-lo para dar uma olhada dentro.”
“Oh, pelo amor de deus,”, gritou o wub. “É só nisso que vocês conseguem pensar? Matar e cortar?”
Franco cerrou os punhos. “Saia já daí! Quem quer que você seja, saia daí!”
Nada se moveu. Os homens permaneceram juntos, suas faces vazias, olhando para o wub. O wub balançou o rabo. De repente, ele arrotou.
“Perdão,” disse o wub.
“Não creio que tenha alguém aí dentro,” disse Jones em voz baixa. Eles todos se entreolharam.
O cozinheiro chegou.
“Queria me ver, capitão?” ele disse. “Que que há?”
“Isso é um wub”, disse Franco. “É de comer. Meça ele e arrume um jeito – “
“Acho que precisamos conversar”, disse o wub. “Eu gostaria de discutir isso com você, capitão, se possível. Vejo que você e eu discordamos a respeito de algumas questões básicas.”
O capitão levou um bom tempo para responder. O wub esperou, tranquilo, sugando a água de suas mandíbulas.
“Venha até meu escritório”, o capitão disse finalmente. Ele se virou e saiu da sala. O wub levantou e o seguiu. Os homens o olharam enquanto ele saia. Ouviram-no subir as escadas.
“Queria saber o que vai sair disso,”disse o cozinheiro. “Bom, vou estar na cozinha, me avisem assim que souberem alguma coisa.”
“Claro,”, disse Jones. “Claro.”

* * * * *

O wub desabou relaxadamente em um canto, com um suspiro. “Perdoe-me,”, ele disse. “Temo que tenha-me tornado viciado em distintas formas de relaxamento. Quando se é tão grande quanto eu –“
O capitão assentiu, impacientemente. Sentou-se em sua mesa e cruzou as mãos.
“Tudo bem,”, disse. “Vamos começar. Você é um wub? É isso?”
O wub deu de ombros. “Suponho que sim. É assim que eles nos chamam, os nativos, quero dizer. Nós temos nosso próprio termo.”
“E você fala inglês? Já teve contato com gente da terra antes?”
“Não.”
“Então como você faz isso?”
“Falar inglês? Estou falando inglês? Não tenho consciência de estar falando nada em particular. Examinei sua mente –“
“Minha mente?”
“Estudei seu conteúdo, especialmente o estoque semântico, como eu o chamo –“
“Entendo,” disse o capitão. “Telepatia. Claro.”
“Somos uma raça muito velha,”, disse o wub. Muito velha e pesadona, é difícil para nós nos movermos por aí. Você há de entender que qualquer coisa tão lenta e pesada estaria à mercê de formas de vida mais ágeis. Confiar em defesas físicas não era de muita serventia para nós. Como poderíamos prevalecer? Pesados demais para correr, fracos demais para lutar, pacíficos demais para caçar –“
“Como vocês vivem?”
“Plantas. Vegetais. Podemos comer quase qualquer coisa. Somos muito universais. Tolerantes, ecléticos, universais. Vivemos e deixamos viver. É assim que nós vamos vivendo.”
O wub lançou um olhar para o capitão.
“E é por isso que eu objetei tão violentamente a esta história toda sobre me cozinhar. Eu podia ver a imagem na sua mente – a maior parte de mim no freezer, uma parte na panela, um pouco para seu gato de estimação –“
“Então você lê mentes?” disse o capitão. “Que interessante. Mais alguma coisa? Quer dizer, você faz mais alguma coisa parecida?”
“Uma coisinha ou outra.” Disse o wub, distraído, olhando o quarto á sua volta. “Um belo apartamento o que você tem aqui, capitão. Você o mantém bem arrumado. Eu respeito formas de vida organizadas. Alguns pássaros marcianos são bastante organizados. Eles jogam coisas fora de seus ninhos e os varrem –“
“Mesmo?” assentiu o capitão. “Mas, voltando á questão –“
“Perfeitamente. Você mencionou me jantar. Me foi dito que o gosto é bom. Um tanto gorduroso, mas macio. Mas como poderia algum contato mais permanente ser estabelecido entre seu povo e o meu se vocês usam de atitudes tão bárbaras? Me comer? Você, pelo contrário, deveria discutir questões comigo, filosofia, artes –“
O capitão levantou. “Filosofia. Pode lhe interessar o fato de que teremos bastante dificuldade para encontrar o que comer durante o próximo mês. Uma perda infeliz –“
“Eu sei.” O wub assentiu “Mas não estaria mais de acordo com seus princípios de democracia se todos disputássemos na sorte, ou algo assim? Afinal, democracia é para proteger a minoria justamente deste tipo de violação. Agora, se cada um de nós votasse –“
O capitão caminhou para a porta.
“Ora, dane-se,” disse. Abriu a porta. Abriu a boca.
Permaneceu lá, congelado, a boca aberta, os olhos mirando o vazio, seus dedos ainda na maçaneta.
O wub o observou. Depois, caminhou para fora da sala, passando ao lado do capitão. Seguiu pelo corredor, perdido em seus pensamentos.


* * * * *


O quarto estava quieto.
“Veja você,”, disse o wub. “Nos temos um mito em comum. Sua mente contém muitos símbolos míticos familiares. Ishtar, Odisseu, -“
Peterson estava sentado em silêncio, olhando para o chão. Ele se mexeu na cadeira.
“Continue,” ele disse. “Por favor continue.”
“Vejo no seu Odisseu uma figura comum à mitologia da maioria das raças auto-conscientes. Da maneira como o entendo, Odisseu vaga como um indivíduo, consciente de si mesmo como tal. Esta é a ideia de separação, de separação da família e do país. O processo de individuação.”
“Mas Odisseu retorna para seu lar.” Peterson olhou pela janela da nave, para as estrelas, estrelas sem fim, queimando diligentemente no universo vazio. “Ele finalmente vai para casa.”
“Como devem fazer todas as criaturas. O momento da separação é um período temporário, uma breve jornada da alma. Ele começa, ele termina. O viajante retorna para sua terra e sua raça...”
A porta se abriu. O wub parou, virando sua grande cabeça.
O capitão Franco entrou na sala, os homens atrás dele. Na porta, hesitaram.
“Você está bem?” disse French.
“Você está falando comigo?” disse Peterson, surpreso. “Como assim?”
Franco abaixou sua arma. “Venha cá,” disse para Peterson. “Levante-se e venha até aqui.”
Silêncio.
“Vá em frente,” disse o wub. “Não há problema.”
Peterson levantou. “Pra que?”
“É uma ordem.”
Peterson caminhou até a porta. French agarrou seu braço.
“O que está havendo?” Peterson se soltou, com um safanão. “Que que há com vocês?”
O capitão Franco moveu-se na direção do wub. De seu canto da sala o wub olhou para cima, pressionado contra a parede.
“Interessante,”, disse o wub, “sua obsessão com a ideia de me comer. Imagino por que será.”
“Levante-se”, disse Franco.
“Se você assim deseja.” O wub levantou-se, grunhindo. “Seja paciente. Isso é difícil para mim.” Ficou de pé, arfando, sua língua balançando tolamente.
“Atire nele agora,” disse French.
“Pelo amor de deus!” exclamou Peterson. Jones se virou para ele rapidamente, seus olhos cinzentos de terror.
“Você não viu ele – como uma estátua, parado lá, sua boca aberta. Se não tivéssemos ido lá embaixo, ele ainda estaria lá.”
“Quem, o capitão?” Peterson olhou em volta. “Mas ele está bem, agora.”
Eles olharam para o wub, em pé no meio da sala, seu grande peito subindo e descendo com a respiração.
“Vamos,” disse Franco. “Fora do caminho.”
Os homens saíram da frente, para o corredor.
“Você está um tanto amedrontado, não?” disse o wub. “Por acaso fiz algo a você? Sou contra a ideia de ferir. Tudo que fiz foi tentar me proteger. Você esperava que eu corresse ansiosamente para minha morte? Sou um ser racional, como vocês mesmos. Estava curioso para ver sua nave, aprender sobre vocês. Eu sugeri aos nativos –“
A pistola balançou.
“Veja só,”, disse Franco. “Eu imaginava isso.”
O wub sentou, resfolegando. Pôs uma pata à frente, enrolando a cauda ao seu redor.
“Está muito quente. Percebo que estamos perto dos foguetes. Poder atômico. Vocês fizeram muitas coisas maravilhosas com isso – tecnicamente. Aparentemente sua hierarquia científica não está equipara para resolver questões morais, éticas –“
Franco virou para seus homens, apinhados atrás dele, olhos arregalados, em silêncio.
“Eu faço. Vocês podem assistir.”
French assentiu. “Tente acertar o cérebro. Não é bom pra comer. Não acerte o peito. Se a caixa torácica se esmigalhar, teremos que catar os ossos.”
“Escutem,” disse Peterson, mordendo os lábios. “Ele por acaso fez alguma coisa? Que mal ele fez, eu pergunto? E, de qualquer forma, ele ainda é meu. Vocês não têm direito de atirar nele. Ele não pertence a vocês.”
Franco levantou sua pistola.
“Vou sair,”, disse Jones, sua face pálida. “Não quero ver isso.”
“Eu também,” disse French. Os homens saíram, murmurando Peterson permaneceu na porta.
“Ele estava me falando sobre mitos,” ele disse. “Não teria machucado ninguém, ele.”
Ele saiu.
Franco caminhou na direção do wub. Este olhou para cima, lentamente. Engoliu em seco.
“Uma tolice,” ele disse. “Lamento que você deseje fazer isso. Havia uma parábola que seu salvador contava –“
Ele parou, olhando para a pistola.
“Você pode me olhar nos olhos e fazer isso?” disse o wub. “Você consegue fazer isso?”
O capitão olhou para baixo. “Posso te olhar nos olhos,” ele disse. Lá na fazenda a gente tinha porcos. Porcos selvagens imundos. Eu posso fazer isso.”
Olhando para o wub abaixo de si, para seus olhos brilhantes e úmidos, ele puxou o gatilho.


* * * * *


O gosto estava excelente.
Eles estavam sentados ao redor da mesa, taciturnos. Alguns mal comiam. O único que parecia estar se divertindo era o capitão Franco.
“Mais?” disse, olhando em volta. “Mais? E algum vinho, talvez.”
“Não para mim,” disse French. “Acho que vou voltar para a sala de navegação.”
“Eu também.” Jones levantou-se, empurrando sua cadeira para trás. “Até mais.”
O capitão os observou partir. Alguns dos outros também aproveitaram para sair.
“O que você crê seja o problema?” disse o capitão. Virou-se para Peterson. Peterson estava sentado olhando para seu prato, para as batatas, as ervilhas e para o grande pedaço de carne macia e quente.
Ele abriu sua boca. Nenhum som saiu dela.
O capitãp pôs sua mão no ombro de Peterson.
“É só matéria orgânica agora,” ele disse. “A essência da vida se foi.” Ele comeu, pegando um bocado de molho com um naco de pão. “Eu mesmo, adoro comer. É uma das grandes coisas que uma criatura viva pode apreciar. Comida, descanso, meditação, discutir coisas.”
Peterson concordou. Dois outros homens se levantaram e saíram. O capitão bebeu um pouco de água e suspirou.
“Bem,”, disse. “Devo admitir que esta foi uma refeição bastante agradável. Todos os relatos que havia ouvido eram realmente verdade – o gosto de wub. Muito agradável. Mas eu estava impedido de apreciá-lo em tempos passados.”
Limpou os lábios com o guardanapo e se recostou na cadeira. Peterson olhava desanimado para a mesa.
O capitão o observava atentamente. Inclinou-se em sua direção.
“Ora, vamos,” disse. “anime-se! Vamos discutir coisas.”
Ele sorriu.
“Como estava dizendo antes de ser interrompido, o papel de Odisseu nos mitos –“
Peterson levantou-se de um salto, olhando-o.
“Continuando,” disse o capitão. “Odisseu, tal como o compreendo -"


A Mente Alienígena — Philip K. Dick (Conto)

A MENTE ALIENÍGENA
Philip K. Dick


Quieto, nas profundezas de sua câmara Theta, ouviu um som fraco e depois a sensivoz.

– CINCO MINUTOS

– De acordo – disse e se esforçou para sair do sono profundo.

Tinha cinco minutos para ajustar o curso da nave, algo havia dado errado no sistema de autocontrole.

Um erro seu? Não era provável, nunca cometia erros. Jason Bedford cometer erros? Jamais!

Enquanto se dirigia cambaleante ao módulo de controle, viu que Norman, que havia sido enviado para diverti-lo, também estava acordado. O gato flutuava lentamente em círculos, dando pequenos golpes com as patas em uma lapiseira que alguém havia esquecido solta.


Estranho, pensou Bedford. Achava que estaria inconsciente. Reviu as leituras do curso da nave.


Impossível! Um quinto de parsec da direção de Sirio. Isso somaria uma semana na sua viagem.


Com precisão reajustou os controles, depois enviou um sinal de alerta a Meknos III, seu destino.


– Problemas? – Perguntou o operador meknosiano. A voz era seca e fria, um som monótono que fazia Bedford pensar em serpentes.


Explicou sua situação.


– Precisamos da vacina, disse o meknosiano. Trate de manter seu curso.


Norman, o gato, que flutuava majestosamente junto ao módulo de controle, estendeu uma pata e tocou aleatoriamente o painel. Os circuitos acionados soltaram tênues bips e a nave mudou de curso.


– Foi assim que você fez, disse Bedford. Me humilhou diante de um alienígena. Me reduziu a um imbecil.


Agarrou o gato e o apertou forte.


– O que foi este som estranho? Perguntou o meknosiano. Uma espécie de lamento.


Bedford respondeu sereno.


– Não foi nada. Esqueça o que ouviu.


Cortou o rádio, levou o corpo do gato para o compartimento de lixo e o ejetou no espaço. No instante seguinte regressou a câmara theta e uma vez mais adormeceu. Desta vez ninguem mexeria nos controles. Dormiu em paz. Quando a nave pousou em Meknos III, o chefe da equipe médica alienígena o recebeu com um pedido curioso.


– Gostaríamos de ver seu mascote.


– Não tenho mascote, disse Bedford. O que era verdade.


– Segundo a mensagem que nos enviaram…


– Realmente não é um problema seu, disse Bedford. Vocês já tem a vacina, vou partir agora.


– A segurança de qualquer forma de vida é assunto nosso – disse o meknosiano. – Revistaremos sua nave.


– Em busca de um gato que não existe – falou Bedford.


A busca resultou inútil. Com impaciência Bedford observou como as criaturas alienígenas procuravam dentro de cada depósito de armazenamento e cada corredor da nave.


Por infelicidade, os meknosianos encontraram dez sacos de comida desidratada para gatos. Em seu próprio idioma, iniciou-se uma prolongada discussão.


– Tenho permissão para voltar para a Terra? – perguntou Bedford áspero. – Tenho um horário para cumprir.

O que diziam ou pensavam os alienígenas, pouco lhe importava, só desejava poder voltar para sua silenciosa câmara Theta e para o sono profundo.

– Terá que passar pelo procedimento de descontaminação – disse o chefe médico meknosiano. – Para que nenhum virus…

– Sei disso, disse Bedford. Podem começar.

Mais tarde quando a descontaminação se completou e preparava para acionar a partida de volta à nave, ouviu o rádio. Era um meknosiano, qualquer um, pois para Bedford eram todos iguais.

– Como se chamava o gato? Perguntou o meknosiano.

– Norman, disse Bedford e pressionou a partida. A nave disparou para cima e ele sorriu.


Não sorriu contudo ao descobrir que faltava seu gerador de energia para a câmara Theta. Tão pouco sorriu quando não conseguiu localizar a unidade de reposição.

Teria esquecido de trazê-la? Não, não poderia. Eles haviam retirado-a.

Dois anos para voltar a Terra.

Dois anos de consciência plena, privado do sonho Theta, dois anos sentado ou flutuando ou - como havia visto em holofilmes militares de entretenimento - enroscado em um canto, totalmente louco.

Lançou um pedido de rádio solicitando retorno a Meknos III.

Nenhuma resposta.

Sentado no módulo de controle, golpeou com a mão o pequeno computador interno e disse: -Minha câmara Theta não funciona, a sabotaram. O que me sugere fazer durante dois anos?


FITAS DE VÍDEO ENTRETENIMENTO DE EMERGÊNCIA'

– Certo. Tinha esquecido delas. Obrigado.

Apertou o botão indicado e o compartimento de fitas abriu deslizando.

Nenhuma fita. Apenas um brinquedo para gatos, uma bolsinha em miniatura para apertar, que haviam incluido para Norman e que nunca utilizara. Os outros compartimentos estavam vazios.


A mente alienígena era cruel, pensou Bedford. Misteriosa e cruel.

Pôs para funcionar o gravador de áudio da nave e com calma, disse com a maior convicção possível.

– O que farei será dedicar meus próximos dois anos a uma rotina diária. Primeiro serão as comidas. Passarei todo tempo possível planejando, preparando, comendo e desfrutando de pratos deliciosos. Durante o tempo que tenho daqui por diante, provarei toda combinação possível de viveres.


Dirigiu-se ao armário de alimentos.

Enquanto caia diante do armário completamente cheio, abarrotado, prateleira por prateleira, de embalagens idênticas, pensou. Por outro lado, não havia muito o que fazer com uma provisão de dois anos de comida para gatos. Em relação a variedade, seriam todos do mesmo sabor?

Eram todos do mesmo sabor.