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O dia que a Argentina perdeu o título pra Espanha

Diário – 19 de julho de 2026

Hoje foi um daqueles dias que vale a pena registrar para a posteridade.

Às 23 horas, deitado, vestindo minha antiga camiseta da Espanha, pensei que talvez seja hora de atualizá-la. Antes ela representava uma seleção campeã do passado; agora, quem sabe, mereça receber mais uma estrela para celebrar o novo título. Calma, já explico.

Hoje aconteceu a final da Copa do Mundo de 2026 entre Espanha e Argentina. A Argentina chegou à decisão carregando a fama de um time que conseguia se superar nos momentos decisivos, muitas vezes resolvendo partidas no fim. Era natural esperar que isso acontecesse novamente. A Espanha, por sua vez, também vinha de grandes atuações. Não sou especialista em futebol, mas tive a impressão de que seu conjunto estava mais equilibrado e uniforme. No segundo tempo, essa superioridade acabou prevalecendo, e a Espanha conquistou o título.

Logo pela manhã fui visitar meu pai. Aproveitei a ocasião para tirar uma foto usando minha camiseta da Espanha, como quem já se preparava para a grande decisão da tarde.

Também dediquei parte do dia ao meu mosaico. Tentei concluí-lo e cheguei muito perto: acredito que esteja cerca de 80% finalizado. Mais do que avançar na obra, aprendi bastante durante o processo. Percebi que preciso ser ainda mais caprichoso nos detalhes para alcançar um acabamento realmente bonito.

Outro momento especial foi participar da Escola Dominical ao lado da minha esposa. Foi uma manhã muito proveitosa, daquelas que renovam a fé e fortalecem a caminhada cristã.

Às 16 horas, assistimos à final da Copa do Mundo em família. Estavam comigo minha esposa e também meu sobrinho Adam, que acompanhou o jogo conosco. Foi um momento marcante e um excelente encerramento para uma tarde repleta de acontecimentos.

Assim termina este dia: marcado pela comunhão com a família, pela fé, pelo aprendizado em um trabalho manual e pela lembrança de uma final de Copa do Mundo que ficará registrada na memória.

Dia registrado com sucesso.

O Adeus

O Adeus

Hoje foi o dia de nos despedirmos do senhor Augusto.

Aos 75 anos, ele encerrou sua jornada nesta terra, deixando para trás uma história marcada pela simplicidade, pela bondade e pela generosidade. Era o avô da minha esposa, Thiphany, e também nosso vizinho de parede durante muitos anos.

Sempre vou me lembrar dele trazendo pão para nossa casa às terças-feiras. Era um gesto simples, mas que demonstrava o tamanho do seu coração. Seu Augusto era uma pessoa boa, caridosa e querida por todos que conviviam com ele.

Deixou três filhos: Caprice, mãe da minha esposa; Beto; e Aldo. Foi casado com dona Ieda durante muitos anos. Após o falecimento dela, há cerca de dez anos, ele encontrou novamente companhia e passou a viver com outra senhora, que o acompanhou até os seus últimos dias.

No velório, foi possível vê-lo pela última vez, já repousando no caixão, aguardando o momento da despedida definitiva: o sepultamento. Enquanto estava na funerária, conversei um pouco com o proprietário. Como realizo inspeções em funerárias da cidade, acabamos relembrando uma das inspeções que fiz naquele local e tivemos uma conversa bastante produtiva.

Também aproveitei para rever familiares e conhecidos. Estavam presentes o pastor Genésio, o irmão Edivaldo, o Maé e um pastor da Igreja Batista que eu não conhecia. Todos desempenharam um importante papel de capelania, oferecendo palavras de conforto e esperança aos presentes.

Às quatro horas da tarde seguimos para o cemitério. Porém, devido à fratura no meu pé, estou utilizando uma bota ortopédica. O local do sepultamento exigia uma descida por uma ladeira, seguida por alguns degraus. Vi todos seguindo em direção ao túmulo, mas percebi que não conseguiria acompanhar com segurança. Caminhava muito devagar e, ao notar que ainda teria mais escadas pela frente, decidi retornar.

Enquanto aguardava, resolvi procurar o túmulo do meu tio, José de Jesus Rodrigues, falecido em meados de 2009. Eu me lembrava apenas aproximadamente da região onde ele estava sepultado. Procurei por algum tempo, mas não conseguia encontrá-lo.

Então fiquei esperando meu sogro retornar. Pouco depois, minha esposa apareceu com nossa filha e comentou que havia encontrado um túmulo cuja fotografia parecia muito com a do meu pai. Fui verificar e, para minha surpresa, era realmente o túmulo do meu tio. Ela o encontrou no Cemitério Jardim das Saudades.

Foi um momento inesperado e emocionante.

Esse foi o meu dia: o adeus.

Quando visitamos um cemitério, inevitavelmente nos tornamos mais introspectivos. Ali repousam muitas pessoas. Jovens, idosos, homens e mulheres. Histórias interrompidas em diferentes momentos, mas que convergem para o mesmo destino.

A morte é uma realidade comum a todos nós. Um dia, cada um ocupará o seu lugar na memória daqueles que permanecerem.

Enquanto temos vida, porém, ainda podemos escrever. Podemos amar, trabalhar, aprender, ensinar, criar memórias, alimentar um blog e construir algo que sobreviva à nossa passagem.

A vida não nos pede perfeição. Pede movimento.

E enquanto estivermos aqui, é preciso continuar caminhando.

Envelhecer saudável é possível? 09/10

Envelhecer saudável é possível, mas talvez a maior dificuldade humana esteja em aceitar que viver nunca foi uma experiência livre de custo. A vida nasce dependente. Cresce dependente. E, no fim, também se encerra dependendo de uma rede invisível de pessoas, técnicas, estruturas e afetos. O ser humano gosta da ideia de autonomia, porém a própria existência é uma sucessão de vínculos.

Quando uma criança nasce, existe uma engrenagem inteira funcionando para que aquele instante aconteça. Antes mesmo do primeiro choro, há médicos obstetras, enfermeiros, técnicos de enfermagem, anestesistas, recepcionistas, profissionais da limpeza hospitalar, motoristas de ambulância, farmacêuticos, nutricionistas, fabricantes de equipamentos médicos e até pessoas que sequer conhecerão aquele bebê, mas que participaram indiretamente do processo.

Num parto cesariano, por exemplo, a mãe passa por uma preparação clínica: monitoramento dos sinais vitais, anestesia raquidiana ou peridural, esterilização do ambiente, instrumentos cirúrgicos organizados cuidadosamente. O obstetra realiza a incisão abdominal e uterina enquanto uma equipe acompanha oxigenação, pressão arterial e possíveis intercorrências. Ao nascer, o bebê é imediatamente avaliado, aspirado se necessário, aquecido, pesado e encaminhado para os primeiros cuidados neonatais. Um nascimento é, ao mesmo tempo, um ato biológico e uma operação coletiva extremamente sofisticada. A vida não começa sozinha.

E talvez o mais perturbador seja perceber que a morte também não.

Morrer movimenta outra rede humana igualmente complexa. Existe o médico que constata o óbito, o enfermeiro que encerra os procedimentos, os profissionais funerários que preparam o corpo, os motoristas que fazem o transporte, os funcionários de cartório que registram a morte, os coveiros, os cremadores, os religiosos, os psicólogos, os familiares que carregam não apenas o caixão, mas também o peso emocional da ausência. Até a burocracia participa do fim da vida: documentos, certidões, inventários, cancelamentos, despedidas formais. A morte também gera economia, desloca pessoas, cria rituais e reorganiza os vivos.

No meio desse intervalo — entre o nascimento assistido e a morte administrada — surge a pergunta inevitável: é possível viver saudavelmente?

Talvez sim. Porém “saudavelmente” não signifique escapar do envelhecimento, mas aprender a atravessá-lo com alguma dignidade emocional. O problema é que nossas escolhas frequentemente entram em conflito com aquilo que desejamos preservar. Dormimos pouco, alimentamo-nos mal, trabalhamos excessivamente, acumulamos ansiedade, abandonamos o silêncio e transformamos a mente em um depósito contínuo de estímulos. Queremos longevidade, mas vivemos como se o corpo fosse uma máquina infinita.

Recentemente, assistindo a uma nova série da Netflix, alguns recortes me chamaram atenção. Na trama, após a morte de uma pessoa, torna-se possível criar um android capaz de reproduzir memórias, personalidade e comportamentos do falecido. O nome do robô — “Ambe” — surge como uma tentativa tecnológica de prolongar afetos e amenizar o luto. A proposta parece sedutora: se a dor da perda é insuportável, então por que não reconstruir artificialmente quem partiu?

Mas a distopia nasce exatamente aí.

O enredo explora as consequências de mexer em algo profundamente humano: a impossibilidade da permanência. Porque o luto talvez exista não apenas pela ausência do outro, mas porque ele nos obriga a aceitar nossa própria finitude. Um android pode copiar voz, frases, hábitos e até reações emocionais, mas jamais carregará aquilo que torna alguém verdadeiramente vivo: a consciência da impermanência.

Talvez a tecnologia futura consiga imitar uma pessoa com perfeição assustadora. Ainda assim, permanecerá a dúvida filosófica: uma cópia é continuação ou apenas eco?

Enquanto penso nisso, escrevo aos 43 anos. E existe algo estranho nessa idade. Já não somos jovens o suficiente para acreditar que o tempo é infinito, mas ainda não somos velhos o bastante para aceitá-lo plenamente. Aos 43, começamos a perceber pequenas rachaduras na ilusão da eternidade. O corpo demora mais para responder. Certos sonhos ficam pelo caminho. Pessoas que estavam presentes desaparecem. Os pais envelhecem. Amigos adoecem. Fotografias passam a registrar versões de nós que já não existem mais.

A juventude vive como quem ignora o relógio. A maturidade, porém, começa a ouvir seus ponteiros.

Viver é algo que tem validade. Essa talvez seja a frase mais honesta que um ser humano pode escrever. Não no sentido pessimista, mas biológico, concreto, inevitável. Tudo na existência parece possuir prazo: alimentos, objetos, tecnologias, relações e corpos. A diferença é que crescemos acreditando que conosco será diferente. Não será.

Ainda assim, existe beleza nisso.

Porque justamente por acabar, a vida ganha valor. Um abraço teria a mesma importância se fosse eterno? Um encontro emocionaria tanto se pudéssemos repeti-lo infinitamente? Talvez não. A limitação do tempo transforma momentos simples em acontecimentos sagrados. O café compartilhado, a conversa comum, o cachorro dormindo aos pés da cama, o aniversário da filha, o silêncio de uma tarde — tudo se torna precioso porque sabemos, ainda que inconscientemente, que um dia deixará de existir.

Envelhecer saudável talvez não seja vencer a morte, mas reconciliar-se com ela lentamente. Não como derrota, mas como parte do contrato invisível assinado no instante em que nascemos. O problema não é a existência terminar; o problema é perceber tarde demais que estávamos vivos enquanto corríamos distraídos tentando não pensar nisso.



Envelhecer saudável é Possível 08/10

O tempo costuma caminhar em silêncio. Ele não bate à porta, não avisa quando chega, não pergunta se estamos preparados. Apenas passa. E talvez a maior ilusão da juventude seja acreditar que os dias são infinitos, que as pessoas permanecerão sempre nos mesmos lugares, com os mesmos rostos, as mesmas vozes e os mesmos abraços. A noção de tempo e espaço quase nunca é percebida enquanto a vida segue comum. Só compreendemos a fragilidade da existência quando a morte se aproxima de alguém, quando um vazio inesperado se instala à mesa, ou quando percebemos que os anos começaram a deixar marcas não apenas no espelho, mas também na alma.

Ainda assim, Deus, na sua infinita bondade, parece distribuir diariamente pequenas porções de felicidade para que a caminhada não se torne pesada demais. Às vezes essa felicidade vem escondida em detalhes simples: no cheiro do café pela manhã, numa conversa inesperada, numa música antiga tocando ao fundo ou no sorriso de quem amamos. São pequenas luzes espalhadas ao longo da estrada da vida, lembrando que existir também pode ser bonito.

Os aniversários talvez sejam um dos maiores símbolos dessa estranha relação entre alegria e passagem do tempo. Para alguns, são apenas datas no calendário. Para outros, representam reencontros, abraços, presentes, fotografias e memórias sendo construídas ao redor de uma mesa. Existe algo profundamente humano em reunir pessoas para celebrar mais um ano vencido. É como se disséssemos uns aos outros: “Ainda estamos aqui.”

E foi assim ontem, no dia 21 de maio de 2026, no aniversário de 13 anos da minha filha.

A casa tinha aquele movimento típico das comemorações: vozes misturadas, risadas surgindo de diferentes cantos, embalagens de presentes sendo abertas com ansiedade, celulares registrando momentos que daqui a alguns anos serão lembranças preciosas. Mas, em meio àquela alegria toda, houve um instante silencioso dentro de mim. Um instante quase invisível para os outros.

Olhei para ela.

Já não era mais a criança pequena que segurava minha mão para atravessar a rua. Diante de mim estava uma adolescente começando a descobrir o próprio mundo, carregando no rosto a juventude inteira, o frescor dos primeiros sonhos, das primeiras dúvidas, das primeiras vontades de independência. E naquele rosto jovem eu vi algo maior do que apenas o crescimento dela. Vi também o meu próprio envelhecimento.

Enquanto eu envelheço, ela cresce.

Talvez seja essa a forma mais delicada e mais cruel que o tempo encontra para se revelar. Os filhos funcionam como relógios vivos. Muitas vezes não percebemos as mudanças em nós mesmos, porque convivemos diariamente com nosso próprio reflexo. Mas nos filhos o tempo aparece de maneira escancarada. Um dia eles estão aprendendo a falar; no outro, escolhem as próprias roupas, possuem opiniões firmes e começam a caminhar para longe do colo que antes parecia ser o universo inteiro.

E naquele aniversário compreendi algo curioso: envelhecer talvez não seja perder a juventude, mas assistir a juventude renascer nos que vieram depois de nós.

Existe uma beleza silenciosa nisso.

Vivemos numa época que teme envelhecer. As pessoas querem esconder os cabelos brancos, apagar rugas, disfarçar o tempo como se ele fosse um inimigo. Mas talvez envelhecer saudavelmente não signifique lutar contra os anos. Talvez signifique fazer as pazes com eles. Aceitar que o corpo muda, que os ciclos se transformam, mas que a alma ainda pode continuar viva, curiosa e sensível.

Envelhecer saudavelmente talvez seja conservar a capacidade de se emocionar.

É continuar acreditando em encontros.

É manter acesa a gratidão pelas pequenas alegrias distribuídas por Deus todos os dias.

É perceber que a felicidade não mora apenas nos grandes acontecimentos, mas também nesses instantes aparentemente simples — como observar uma filha apagando as velas do aniversário enquanto o coração do pai oscila entre orgulho, saudade e esperança.

Naquela noite, enquanto todos cantavam parabéns, entendi que o tempo não é apenas aquilo que levamos embora dentro dos anos. O tempo também é aquilo que deixamos florescer. Minha filha crescia diante dos meus olhos, e mesmo sabendo que os dias passam rápido demais, senti uma espécie de paz. Porque talvez a verdadeira vitória da vida não esteja em permanecer jovem para sempre, mas em conseguir ver nossos filhos alcançando a juventude com saúde, sonhos e luz nos olhos.

E no fim das contas, talvez seja exatamente isso que Deus queira nos ensinar sobre o tempo: que tudo passa, sim… mas o amor permanece atravessando as gerações, silenciosamente, como uma herança invisível que nem a velhice consegue apagar.


Envelhecer saudável é possível? 07/10

 Há dias em que envelhecer parece apenas uma palavra distante, quase abstrata. Quando somos jovens, o corpo responde rápido, o sono recupera, os joelhos suportam excessos e a ideia de finitude parece pertencer aos outros. Existe uma sensação silenciosa de permanência, como se o tempo estivesse sempre longe, esperando educadamente a nossa vez. Mas ele não espera. Apenas caminha.

Tenho pensado muito sobre isso enquanto escrevo estas crônicas sobre envelhecer saudável. E talvez a maior dificuldade não esteja apenas nas doenças que chegam com a idade, mas em toda a estrutura da vida que parece empurrar as pessoas para um envelhecimento cansado, vulnerável e, muitas vezes, solitário.

Quando jovens, quase nunca temos dinheiro. Trabalha-se muito para sobreviver e pouco para viver. Muitos aprendem cedo a dividir salário mínimo entre contas, aluguel, remédios dos pais, condução e comida. Viajar vira luxo. Descansar parece culpa. Aproveitar a vida é algo frequentemente adiado para um futuro que ninguém garante que chegará da maneira imaginada.

A sociedade cria no jovem a esperança de ascensão. Estude, trabalhe, lute, melhore de vida. E muitos conseguem, é verdade. Compram um carro depois de anos. Financiam uma casa depois de décadas. Conquistam algum conforto justamente quando o corpo começa a desacelerar. É como se a vida entregasse certas recompensas no momento em que já não temos a mesma energia para usufruí-las plenamente.

Enquanto isso, os mais velhos partem. E novos jovens ocupam seus lugares na engrenagem. Existe algo profundamente estranho nesse ciclo repetitivo da civilização. Uma espécie de desorganização silenciosa que aprendemos a aceitar como natural. Pouco se fala sobre construir uma sociedade verdadeiramente preparada para que as pessoas envelheçam com dignidade desde o início da vida. Fala-se muito em produtividade, desempenho, sucesso individual. Pouco em amparo coletivo.

Talvez porque o egoísmo tenha se tornado quase uma necessidade de sobrevivência. Cada um tenta salvar o próprio presente sem conseguir olhar muito para quem virá depois. O amanhã pertence a outro. E assim seguimos, ocupados demais tentando não afundar para perceber que todos estamos no mesmo barco envelhecendo juntos.


Então a idade chega.


Primeiro vêm os pequenos sinais. O cansaço demora mais para ir embora. Uma dor antiga reaparece. O corpo já não aceita certos abusos. Depois surgem exames, comprimidos, limitações, medos discretos. Algumas doenças parecem escondidas dentro de nós apenas aguardando o tempo certo para despertar. Outras nascem do desgaste acumulado de décadas vivendo sob pressão, ansiedade e esforço contínuo.

E existe uma crueldade silenciosa nisso tudo: muitas vezes é justamente quando nos tornamos mais frágeis que menos temos recursos para cuidar de nós mesmos. A juventude raramente ensina educação financeira verdadeira, prevenção emocional ou preparação para a velhice. Vivemos acreditando na força eterna do corpo até o dia em que ele finalmente nos lembra que é feito de carne, tempo e desgaste.

Por isso envelhecer saudável talvez seja muito mais do que frequentar academias, caminhar ou controlar exames. Talvez seja também construir humanidade ao redor. Criar relações, apoio, consciência coletiva e gentileza social. Porque chega uma fase em que todos nós precisaremos de ajuda. Até os mais fortes.

Envelhecer não deveria ser uma queda lenta rumo ao abandono. Mas às vezes parece que a sociedade inteira foi construída apenas para a fase produtiva da existência, como se o valor humano diminuísse conforme os cabelos embranquecem.

Ainda assim, vejo beleza em certas pessoas idosas. Algumas carregam dores profundas e mesmo assim conseguem sorrir com calma. Outras caminham devagar pelas ruas como quem finalmente entendeu que viver nunca foi vencer corrida alguma. Talvez exista sabedoria nisso: compreender tarde demais que o tempo era o verdadeiro patrimônio.

E talvez envelhecer saudável comece exatamente aí. Não na ilusão de permanecer jovem, mas na coragem de aceitar a fragilidade humana sem perder a dignidade, a sensibilidade e a capacidade de olhar para o outro.



Envelhecer saudável é possível? 06/10

Há uma idade curiosa na vida em que o espelho começa a negociar conosco. Já não devolve o rapaz despreocupado que atravessava madrugadas sem pagar pedágio ao corpo, mas também ainda não entrega aquele senhor resignado que fala das dores como quem comenta a previsão do tempo. Aos quarenta e três anos, descubro que estou exatamente nesse território ambíguo, uma espécie de fronteira silenciosa onde o sujeito deixa de acreditar na juventude eterna, mas ainda se recusa terminantemente a aceitar a palavra “velho” como definição oficial de si mesmo.

É curioso observar isso dentro de uma academia. O ambiente, que para muitos parece apenas um depósito de halteres e músicas excessivamente animadas, acaba se transformando num retrato filosófico do tempo. Quando o tédio me alcança entre uma série e outra, costumo subir ao mezanino e caminhar na esteira observando os frequentadores. E ali existe um espetáculo humano muito mais interessante do que qualquer televisão ligada em programa esportivo. Senhores de cabelos completamente brancos dividem aparelhos com rapazes de vinte anos que ainda acreditam possuir articulações indestrutíveis. Senhoras que talvez tenham atravessado décadas cuidando da família, trabalhando, esquecendo de si mesmas, agora descobrem músculos que nem imaginavam possuir. Entre eles, um pastor de quase sessenta anos segue disciplinadamente sua rotina, sem aparência de heroísmo, sem alarde, apenas empurrando o próprio corpo para diante como quem entendeu uma verdade simples: envelhecer não é opcional; deteriorar-se antes da hora, muitas vezes, é.

Numa cidade de quase oitenta mil habitantes, chama atenção como ainda é pequeno o número de pessoas que enxergam o exercício físico não como vaidade, mas como manutenção da própria liberdade. Porque no fundo é disso que se trata. Mobilidade é liberdade. Conseguir abaixar para amarrar um sapato sem gemer como uma porta enferrujada é liberdade. Levantar da cama sem precisar negociar com a lombar é liberdade. Subir escadas sem parecer um personagem de filme de guerra também é liberdade. E talvez o grande equívoco moderno seja acreditar que o corpo tolerará indefinidamente décadas de negligência apenas porque conseguimos sobreviver a elas.

Eu mesmo comecei academia aos trinta e quatro anos não por paixão atlética nem por sonhos tardios de virar capa de revista fitness. Entrei para corrigir pequenas tragédias silenciosas acumuladas ao longo da vida: dores nas costas, magreza excessiva, uma baixa hormonal que parece ter decidido seguir carreira própria, ignorando completamente minhas opiniões sobre o assunto. Descobri então que o corpo possui memória. Ele registra a cadeira torta, o colchão inadequado, a postura errada diante do computador, o sedentarismo tratado como detalhe insignificante durante anos. E cobra tudo depois, com juros e correção monetária.

As dores das costas, por exemplo, não desaparecem com frases motivacionais nem com vídeos de internet prometendo milagres em cinco minutos. Os músculos encurtados, os amarres da coluna, tudo isso exige repetição, disciplina e exercícios que ninguém faria espontaneamente na natureza. Não existe nada intuitivo em puxar uma barra presa por cabos de aço enquanto um instrutor manda “contrair a escápula”. Mas ali, naquele movimento aparentemente ridículo, mora uma tentativa sincera de reconstruir o corpo antes que ele desista de vez de cooperar conosco.

E então surgem exemplos famosos que ajudam a alimentar a esperança coletiva. Rodrigo Faro, por exemplo, frequentemente fala sobre sua rotina rigorosa de exercícios, alimentação equilibrada e acompanhamento constante da saúde. Mantém treinos regulares de musculação, exercícios aeróbicos, preocupação com descanso e alimentação disciplinada, algo que naturalmente se torna mais viável quando o dinheiro permite acesso aos melhores profissionais, nutricionistas e horários flexíveis. Claro que ajuda bastante. Seria hipocrisia fingir que não. Dinheiro compra tempo, e tempo é um luxo decisivo quando o assunto é saúde.

Mas existe uma parte dessa equação que continua democrática: ninguém pode terceirizar completamente o cuidado consigo mesmo. Nem celebridade, nem pastor, nem aposentado, nem sujeito comum da academia de bairro. O exercício físico talvez seja uma das raras áreas da vida em que o corpo responde menos ao discurso e mais à insistência. Ele não se impressiona com intenções. Responde apenas ao que é repetido.

Talvez por isso eu goste de observar aqueles senhores treinando. Porque existe algo profundamente digno em alguém que decide lutar pela própria autonomia quando seria muito mais fácil simplesmente aceitar a decadência como roteiro inevitável. Cada repetição feita por uma senhora de cabelos grisalhos carregando halteres leves parece dizer silenciosamente: “Ainda não.” Cada caminhada lenta na esteira parece uma pequena rebelião contra o enferrujamento natural do tempo.

E talvez envelhecer bem seja exatamente isso: não vencer o tempo — porque essa batalha já nasce perdida — mas impedir que ele nos encontre completamente desmontados quando finalmente chegar.


Aquele que fugiu da sua própria natureza | Série: "Os animais te contam"

O leão nasceu sob o dourado severo das savanas antigas, onde o vento carregava o cheiro da terra quente e os rugidos dos ancestrais pareciam morar dentro das pedras. Seu pai era um rei respeitado, daqueles que não precisavam demonstrar força a todo instante, porque a própria presença bastava para impor silêncio aos chacais e segurança ao bando. Desde pequeno, o jovem filhote caminhava entre as leoas com a arrogância inocente de quem acredita que o amanhã será eterno. Corria pelos campos altos, perseguia borboletas invisíveis e observava o pai no alto das colinas, imóvel como uma montanha viva. Achava que coragem era apenas um estado natural das criaturas fortes. Não sabia ainda que a verdadeira coragem só nasce quando o medo já tomou conta de tudo.

A tragédia veio numa tarde abafada, quando o céu parecia pesado demais para sustentar as próprias nuvens. O pai tombou diante da brutalidade da selva e das traições que existem até entre os que compartilham o mesmo sangue. O filhote, assustado e confuso, ouviu vozes que o culpavam, vozes cruéis que cresciam dentro da sua mente como espinhos venenosos. Fugiu sem olhar para trás. Correu durante dias e noites, atravessando rios barrentos, matagais fechados e regiões onde nem mesmo os abutres ousavam permanecer por muito tempo. O medo transformou suas patas em máquinas desesperadas. Mais do que fugir da savana, fugia de si mesmo.

Foi então que encontrou dois seres improváveis: um suricato magro e falante, que enxergava humor até nas tempestades, e um javali enorme, desajeitado e dono de um coração absurdamente gentil. Eles não perguntaram de onde o leão vinha. Não cobraram explicações, nem exigiram coragem. Apenas o acolheram como se a vida fosse simples demais para guardar rancores. Ensinavam-no a dormir sob árvores úmidas, a ouvir o canto dos insetos durante a madrugada e a ignorar os perigos do amanhã. Havia uma filosofia despreocupada naquele pequeno refúgio escondido entre florestas densas e riachos silenciosos. “Hacunamatata”, repetiam eles com alegria, como se aquelas palavras fossem uma espécie de feitiço capaz de apagar dores antigas.

E por algum tempo funcionou.

O leão cresceu distante daquilo que era. Aprendeu a cavar troncos podres para encontrar larvas gordurosas, devorava besouros crocantes e ria da própria imagem quando o suricato dizia que ele era o único rei da selva que preferia cupins a caça. Os dias tornaram-se leves. Não havia responsabilidades, disputas ou decisões difíceis. Apenas o sol filtrando-se pelas folhas, banhos demorados nos rios e noites embaladas por gargalhadas. A floresta o anestesiou lentamente. Seu corpo crescia poderoso, mas seu espírito permanecia adormecido. Havia força em seus músculos, porém não existia propósito em sua existência.

E talvez seja exatamente assim que muitos se perdem.

Nem sempre a prisão possui grades. Às vezes ela é confortável. Às vezes tem amigos sinceros, refeições fáceis e tardes tranquilas demais. Há pessoas que passam a vida inteira escondidas dentro de lugares seguros apenas porque o mundo lá fora exige delas algo maior. O leão não percebia isso. Acomodou-se ao alívio de não precisar enfrentar o passado. Convenceu-se de que sobreviver era suficiente.

Até que certo entardecer mudou tudo.

O céu estava tingido de vermelho escuro quando ele se aproximou do rio para beber água. O vento soprava diferente naquele dia, carregando o cheiro distante das savanas. O leão abaixou a cabeça e viu o próprio reflexo tremulando na superfície do rio. Mas não enxergou apenas o rosto adulto que havia adquirido. Por um instante, viu o pai. Viu os olhos ancestrais da sua linhagem. Viu o peso do sangue que corria em suas veias. E então algo selvagem despertou dentro dele.

Seu peito apertou.

As lembranças vieram violentas como uma tempestade esquecida: o rugido do pai ecoando entre montanhas, a poeira dourada da savana, o medo da fuga, a culpa, a vergonha. Mas, acima de tudo, percebeu uma verdade impossível de ignorar: ele não era um animal criado para se esconder entre raízes úmidas enquanto a vida passava adiante. Era um leão. E fugir de sua natureza estava destruindo lentamente aquilo que existia de mais valioso dentro dele.

Naquela noite quase não dormiu. Escutava os insetos, observava o javali ressonando profundamente e o suricato enrolado entre folhas secas. Amava aqueles amigos. Eles haviam salvado sua vida. Contudo, entendeu algo doloroso: gratidão não pode se transformar em prisão. Há momentos em que continuar parado é uma forma silenciosa de covardia.

Quando amanheceu, partiu.

A volta foi difícil. Cada passo rumo às antigas terras parecia arrancar pedaços da segurança que havia construído ao longo dos anos. O leão já não sabia caçar como antes. Suas patas hesitavam. Seu corpo poderoso carregava hábitos frágeis. Os primeiros confrontos foram humilhantes. Sentia medo do próprio rugido. As leoas o observavam com desconfiança. Alguns animais murmuravam que ele havia abandonado seu destino. Outros diziam que jamais voltaria a ser rei.

Mas a coragem verdadeira não nasce pronta.

Ela é construída na persistência de quem cai e continua caminhando.

O leão reaprendeu lentamente sua natureza. Voltou a sentir o cheiro da caça antes da chuva. Recuperou a força dos saltos. Enfrentou hienas, atravessou secas severas e suportou noites inteiras protegendo os seus. Descobriu que liderança não tinha relação com orgulho ou domínio, mas com responsabilidade. Ser rei significava permanecer acordado enquanto os outros dormiam tranquilos. Significava carregar medos sem permitir que eles destruíssem sua missão.

E então, numa madrugada silenciosa, aconteceu.

Do alto da grande pedra que dominava a savana, ele lançou um rugido tão profundo que os pássaros levantaram voo das árvores e os rios pareceram estremecer por um instante. Não era apenas um som. Era um anúncio. O rei havia retornado. O eco atravessou campos, cavernas e florestas, espalhando-se como uma lembrança antiga que finalmente reencontrava seu lugar no mundo.

Hoje, quando o vento corta as savanas durante a noite, ainda é possível ouvir aquele rugido poderoso ecoando pela floresta, lembrando a todos que o verdadeiro líder não é aquele que jamais sentiu medo, mas aquele que encontrou coragem para voltar e enfrentar aquilo que nasceu para ser.

E talvez esta seja a grande moral da vida: muitas vezes as vozes, os cenários e as circunstâncias nos afastam dos nossos objetivos, oferecendo uma existência confortável, despreocupada e aparentemente segura. Aos poucos nos acomodamos ao simples ato de existir, esquecendo quem realmente somos. Porém a vida é como um rio que jamais retorna à nascente. Ela flui sempre para a frente. E chega um momento em que olhar para o próprio reflexo torna-se inevitável. Nesse instante, cada ser humano precisa decidir se continuará escondido entre as sombras da comodidade… ou se terá coragem de assumir o próprio destino.


Envelhecer saudável é possível? 05/10

Quando me disponibilizei a escrever uma série de crônicas sobre envelhecer saudavelmente, fiz comigo mesmo um combinado silencioso: observar o mundo ao meu redor e transformar aquilo que a vida me entregasse em reflexão. Não queria escrever textos frios, montados sobre estatísticas ou fórmulas prontas de bem-estar. Queria compreender o envelhecimento dentro daquilo que realmente somos — criaturas frágeis, emocionais, limitadas pelo tempo e profundamente afetadas pelos acontecimentos mais simples do cotidiano. Afinal, envelhecer é inevitável. Ninguém escapa disso. O que muda é a forma como atravessamos os anos e o que acontece dentro de nós enquanto o corpo segue avançando em direção ao inevitável.

A notícia desta semana ficou martelando em minha mente de uma maneira difícil de explicar. Uma mulher de trinta e oito anos foi encontrada morta dentro da própria casa aqui em Telêmaco Borba. Jovem ainda. Jovem demais para a morte parecer algo aceitável. A mãe estava viajando na Argentina quando tudo aconteceu. Como a casa permaneceu fechada por muitas horas, a proprietária do imóvel resolveu verificar. Encontrou a mulher caída na sala, já sem vida. As informações preliminares indicavam que o falecimento havia ocorrido muitas horas antes da descoberta. A notícia em si já era triste, mas existe algo ainda mais cruel em mortes solitárias. Há um silêncio que permanece na imaginação da gente. A casa fechada. A ausência de socorro. O tempo correndo indiferente enquanto alguém já não respirava mais.

O destino, às vezes, parece fazer questão de mostrar o quanto todos estamos mais conectados do que imaginamos. A mãe daquela mulher era justamente a farmacêutica que fazia minhas aplicações hormonais intramusculares. Conheço seu semblante cansado de rotina puxada, conheço sua educação discreta e seu jeito atencioso no trabalho. Há poucos dias havia sido dispensada da farmácia. Em menos de um mês, perdeu o emprego e depois a filha. Não existe preparação emocional para certos golpes da vida. Alguns sofrimentos chegam tão rápidos que desmontam completamente qualquer ideia de estabilidade.

Soube também que a filha enfrentava problemas de depressão. E isso me fez pensar muito sobre como algumas pessoas travam batalhas invisíveis que quase ninguém consegue compreender completamente. Existem doenças que aparecem em exames, alteram taxas sanguíneas, produzem sintomas evidentes. Outras acontecem em silêncio. A depressão, muitas vezes, é uma prisão sem grades aparentes. A pessoa continua caminhando, falando, sorrindo em alguns momentos, mas dentro dela algo se tornou pesado demais. Há dores emocionais que não produzem marcas visíveis e justamente por isso acabam subestimadas. O corpo continua vivo enquanto a vontade de permanecer nele começa lentamente a adoecer.

Não muito tempo atrás vivi outro choque semelhante. Um amigo da igreja, Paulo, tinha apenas trinta e sete anos. Levava uma vida comum, aparentemente saudável, com sonhos, planos e preocupações simples do cotidiano. Então surgiu um tumor na boca. Primeiro veio a incredulidade, depois os exames, os encaminhamentos, as tentativas desesperadas de tratamento. Em poucos meses ele estava morto. Três meses. A vida inteira interrompida em menos tempo do que dura uma estação do ano. Não envelheceu. Não teve tempo de sentir os cabelos embranquecerem, de reclamar das dores da idade, de ver o corpo desacelerar naturalmente. Apenas partiu.

Talvez seja justamente isso que mais me faça refletir sobre o verdadeiro significado de envelhecer saudavelmente. Muitas pessoas imaginam que isso esteja relacionado apenas a exercícios físicos, alimentação equilibrada, exames em dia ou aparência preservada. Tudo isso importa, evidentemente. O corpo merece cuidado. Mas a vida me mostra repetidamente que existir vai muito além da manutenção física. Há pessoas que chegam aos oitenta anos carregando uma alma leve, preservando humor, ternura, curiosidade e afeto. E há outras que envelhecem cedo por dentro, esmagadas pela desesperança, pela solidão ou pelo sofrimento emocional.

Começo a acreditar que envelhecer saudavelmente talvez seja conservar a capacidade de continuar encontrando sentido na vida apesar de tudo. Apesar das perdas, dos diagnósticos, das decepções, dos medos e das inevitáveis despedidas. Porque o tempo leva muita coisa de nós. Leva vigor, leva velocidade, leva pessoas queridas, leva ilusões. Mas não deveria levar completamente nossa capacidade de amar, de criar vínculos, de sentir prazer nas pequenas coisas e de perceber beleza no simples fato de ainda estarmos aqui.

A sociedade moderna ensina muito sobre produtividade e pouco sobre permanência emocional. As pessoas aprendem a trabalhar até a exaustão, aprendem a esconder tristeza, aprendem a parecer fortes o tempo inteiro. Mas quase ninguém aprende a pedir ajuda. Quase ninguém aprende a falar honestamente sobre solidão, medo ou vazio. E talvez por isso tantas pessoas estejam adoecendo silenciosamente. Algumas conseguem esconder tão bem suas dores que os outros só percebem a dimensão do sofrimento quando já é tarde demais.

Ainda assim, apesar de todas essas reflexões dolorosas, continuo acreditando profundamente na vida. Não numa visão ingênua, onde tudo termina bem ou onde o sofrimento possui respostas fáceis. Acredito na vida porque ela continua oferecendo possibilidades até o último instante. Um abraço ainda pode salvar um dia ruim. Uma conversa ainda pode impedir alguém de desistir. Um gesto simples ainda pode devolver dignidade a quem já não a enxergava em si mesmo. Existe algo profundamente humano em continuar tentando, mesmo sabendo que todos nós perderemos a batalha final contra o tempo.

Talvez envelhecer saudavelmente seja exatamente isso: aprender a caminhar em direção ao inevitável sem permitir que a alma morra antes do corpo. Continuar cultivando esperança em meio ao caos. Continuar acreditando que vale a pena acordar amanhã. Continuar enxergando valor nos vínculos humanos, na família, nos amigos, nos animais de estimação, nos pequenos rituais cotidianos que sustentam emocionalmente nossa existência.

Porque no fim das contas, a morte não é exatamente o contrário da vida. O contrário da vida talvez seja a ausência completa de sentido. E enquanto ainda houver amor, memória, afeto, fé ou esperança dentro de alguém, ainda existirá alguma forma de permanência resistindo ao tempo.



Envelhecer saudável é possível? 04/10

 Envelhecer saudável é possível? 

Talvez não da forma vendida pelas propagandas, onde rugas desaparecem, cabelos nunca embranquecem e o tempo parece pedir desculpas antes de passar. O envelhecimento real não é uma guerra contra o espelho. É uma conversa silenciosa entre o corpo, a mente e a alma.

Quando somos jovens, acreditamos que saúde é ausência de doença. Depois dos anos, entendemos que saúde também é conseguir dormir em paz, rir sem culpa, levantar da cama sem carregar o peso do mundo nos ombros. Há pessoas com corpos fortes e espíritos cansados. Outras, mesmo frágeis, carregam uma luz difícil de explicar.

O ator Keanu Reeves costuma ser citado como exemplo de envelhecimento saudável não apenas pela aparência física, mas pela serenidade com que conduz a própria vida. Longe dos excessos comuns da fama, ele mantém hábitos simples, discrição e uma postura humana rara em um mundo acelerado. Talvez envelhecer bem tenha mais relação com equilíbrio do que com estética.

O corpo precisa de movimento. Caminhar, alongar, respirar ar puro, beber água, dormir direito. O organismo humano foi feito para funcionar em harmonia, não em permanente estado de guerra contra ansiedade, ultraprocessados e noites mal dormidas. Mas a mente também exige cuidado. Ler um livro, aprender algo novo, conversar, cultivar a memória e o silêncio. O cérebro envelhece melhor quando continua curioso.

Existe ainda um detalhe que muitos esquecem: ninguém envelhece sozinho.

A família possui um papel invisível na longevidade. Um abraço sincero reduz medos que remédios não conseguem tocar. Um almoço em família pode alimentar mais que o corpo. Há idosos que sobrevivem muitos anos sem companhia, mas vivem de verdade apenas quando alguém pergunta como foi o dia deles.

E os pets… talvez sejam uma das formas mais puras de amor que existem. Um cachorro esperando na porta, um gato dormindo próximo da cama, pequenas presenças que quebram o silêncio das casas. Animais ajudam a diminuir a solidão, estimulam rotina e oferecem algo raro nos dias atuais: afeto sem julgamento. Em muitos casos, tornam-se companhia essencial para idosos que enfrentam perdas e mudanças inevitáveis da vida.

Curiosamente, muitos centenários compartilham hábitos simples. Não falam sobre dietas milagrosas ou fórmulas secretas. Falam sobre rotina, vínculos, propósito e calma.

Jeanne Calment viveu 122 anos, tornando-se uma das pessoas mais longevas já registradas. Já Irmã André ultrapassou os 118 anos e dizia que o segredo da vida longa estava na tranquilidade e na fé. No Brasil, Inah Canabarro Lucas também chamou atenção pela longevidade, atravessando gerações inteiras enquanto mantinha lucidez e simplicidade.

Talvez o maior segredo do envelhecimento saudável seja aceitar que o tempo não é inimigo. Cada marca no rosto carrega uma perda, uma vitória, uma lembrança, um amor vivido. Há beleza em continuar aqui quando tanta coisa já passou.

Envelhecer saudável é cuidar do corpo, sim. Mas também é aprender a perdoar, diminuir o ritmo quando necessário, cultivar pessoas verdadeiras e encontrar motivos para continuar sorrindo mesmo depois das tempestades.

No fim, a juventude impressiona por alguns anos. Mas a velhice serena… essa permanece na memória de quem fica.



Envelhecer, saudável, é possível? 03/10

 Envelhecer, saudável, é possível? 

Talvez esta seja uma das perguntas mais silenciosas do nosso tempo. Não daquelas perguntas filosóficas que aparecem em livros grossos e mesas de universidade, mas das que surgem no espelho do banheiro às seis da manhã, quando a luz branca resolve ser cruel. Há quem diga que a idade é apenas um número. Normalmente quem diz isso acabou de fazer um procedimento estético parcelado em doze vezes.


Recentemente, a atriz Demi Moore voltou ao centro das atenções por causa de um filme sobre envelhecimento, corpo, aparência e o terror moderno de deixar de ser desejável. Não deixa de haver certa ironia poética no fato de que, justamente no ano em que sua atuação foi celebrada como uma espécie de manifesto sobre a passagem do tempo, o prêmio principal acabou indo para uma atriz mais jovem. Hollywood, às vezes, parece um cassino elegante onde todos discursam sobre profundidade humana enquanto apostam secretamente na juventude.


O curioso é que a indústria cosmética sequer tenta mais disfarçar suas intenções. Antigamente vendiam cremes. Hoje vendem esperança em frascos de vidro fosco. Não prometem exatamente juventude eterna — isso seria propaganda enganosa —, mas oferecem algo talvez mais perigoso: a ilusão de que o tempo pode ser negociado. Como um fiscal da natureza, o relógio biológico bate à porta, e a ciência responde da janela: “ele não está”.


Vivemos num mundo estranho em que as pessoas envelhecem sem parecer envelhecer. Há homens de sessenta com rosto de quarenta e joelhos de oitenta. Mulheres com pele impecável e olhares cansados como estações rodoviárias em domingo chuvoso. A medicina aprendeu a repuxar a superfície, mas o corpo, esse funcionário antigo e ressentido da existência, continua arquivando tudo em silêncio: noites mal dormidas, ansiedades, excessos, culpas, cigarros escondidos, amores ruins e hambúrgueres às duas da manhã.


Eu mesmo vivo um paradoxo moderno. Por questões de saúde, preciso fazer reposição hormonal masculina. Veja só o nível da conversa contemporânea: o corpo já não produz naturalmente o que deveria produzir, e então a farmacologia entra em cena como um mecânico especializado em peças humanas. É quase bonito pensar nisso. O organismo falha, a ciência corrige. O tempo leva, a farmácia devolve um pouco. Há algo profundamente humano nesse esforço desesperado de manutenção.


Mas nem tudo são flores, como dizem as tias no grupo da família quando alguém posta foto de hospital.


Porque o corpo cobra. Sempre cobra.


Tenho dores nas costas. Dessas dores que não chegam gritando, mas ficam ali, como um credor educado lembrando diariamente que você passou anos sentado errado, dormindo torto, vivendo como se a coluna fosse uma peça opcional do esqueleto. Descobri, tarde demais, que postura não é elegância; é sobrevivência. A juventude nos faz acreditar que o corpo é infinito. Depois dos trinta, o simples ato de pegar uma meia caída no chão exige planejamento estratégico.


E, no entanto, seguimos correndo.


Olho para alguns países desenvolvidos, especialmente a Coreia do Sul, e vejo uma relação peculiar com envelhecimento e desempenho. Existe ali uma cultura de disciplina quase industrial do corpo. As pessoas parecem obedecer a um padrão invisível de eficiência estética e funcional. Envelhecem com saúde, é verdade, mas também envelhecem sob vigilância. Como se cada cidadão fosse um pequeno outdoor ambulante do sucesso nacional.


Há academias abertas de madrugada, rotinas alimentares milimetricamente organizadas, produtos para pele que parecem ter sido desenvolvidos pela NASA, e uma obsessão coletiva pela aparência que às vezes transforma o rosto humano em projeto arquitetônico. O país prospera. O padrão se mantém alto. Mas fico pensando quanto dessa saúde nasce do cuidado genuíno e quanto nasce do medo de deixar de servir.


Porque talvez essa seja a tragédia silenciosa da modernidade: confundimos viver bem com funcionar bem.


As pessoas falam muito de produtividade e pouco de existência. Trabalham para comprar coisas que aliviem o estresse causado pelo próprio trabalho que fizeram para comprar as coisas. Dormem pouco para conquistar conforto. Depois gastam o dinheiro conquistado tentando recuperar o sono perdido. O corpo virou uma empresa em crise administrada por aplicativos de hábitos.


E o legado?


Quase ninguém fala mais em legado. Fala-se em performance, engajamento, metas, resultados, aparência. Mas legado exige permanência emocional, e vivemos na era do descartável. Relações são trocadas como aparelhos telefônicos. Fotos desaparecem em vinte e quatro horas. Opiniões duram até o próximo assunto do momento. O mundo corre numa velocidade tão absurda que envelhecer passou a parecer uma falha de atualização.


Talvez por isso tantas pessoas existam sem realmente viver.


Acordam. Trabalham. Consomem. Dormem. Repetem.


E entre um compromisso e outro, evitam pensar no fato assustador de que estão morrendo aos poucos. Não de maneira dramática, cinematográfica, com trilha sonora e discursos emocionantes. Não. Morrem lentamente em filas, boletos, ansiedades e notificações.


Há anos, Demi Moore estrelou Ghost, aquele filme em que o amor continua existindo mesmo depois da morte. Para muita gente, foi apenas um romance sobrenatural. Mas talvez o sucesso daquele filme venha justamente da nossa dificuldade em aceitar o desaparecimento absoluto. O ser humano suporta quase tudo, menos a ideia de deixar de ser.


Existem milhares de teorias sobre o que acontece depois da morte. Céu, reencarnação, vazio, energia, consciência cósmica, planos espirituais. Cada cultura monta sua própria versão do mistério, como crianças tentando adivinhar o conteúdo de uma caixa fechada. E talvez seja inevitável que seja assim. A morte não pode ser exatificada. Não existe laboratório capaz de medi-la completamente. O máximo que temos são relatos, crenças, filosofias e aquele silêncio desconfortável que acompanha enterros.


Enquanto isso, seguimos aqui.


Habitando este corpo estranho, complexo, falível.


Nossa máquina da existência.


E como tratamos essa máquina? Essa talvez seja a pergunta central.


Há quem cuide do corpo apenas por estética. Outros, apenas por medo da morte. Alguns abandonam completamente qualquer cuidado, como se o organismo fosse um carro alugado. Mas talvez envelhecer de maneira saudável tenha menos relação com parecer jovem e mais relação com permanecer inteiro.


Inteiro fisicamente, quando possível.


Inteiro mentalmente, sobretudo.


Porque existe uma velhice da alma que chega antes da do corpo. Conheço jovens cansados da vida aos vinte e cinco e idosos curiosos aos oitenta. O envelhecimento não acontece apenas na pele. Ele acontece na capacidade de se encantar. Na disposição para aprender. Na coragem de continuar criando vínculos apesar das perdas.


Talvez o grande desafio não seja impedir o tempo de passar.


Isso ninguém conseguiu.


O desafio talvez seja não endurecer enquanto ele passa.


Continuar humano num mundo cada vez mais artificial. Continuar sensível numa época que valoriza velocidade mais do que profundidade. Continuar olhando para o próprio corpo não como inimigo, mas como companheiro de jornada.


As rugas talvez sejam menos ofensivas do que a ausência de memória afetiva. Um rosto marcado ainda conta histórias. Já a juventude eterna, às vezes, parece apenas silêncio esticado.


No fim, envelhecer saudável talvez seja isto: aceitar que o tempo modifica tudo, mas ainda assim cuidar do corpo, da mente e das pessoas ao redor como quem preserva algo sagrado. Não porque viveremos para sempre, mas justamente porque não viveremos.


E talvez exista certa beleza nisso.


Afinal, se o corpo é uma máquina da existência, como você disse, ele também é a única casa que carregaremos até o fim.


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Famosa abordada: Demi Moore

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Demi Moore, nascida como Demi Gene Guynes em 11 de novembro de 1962, é uma atriz e produtora norte-americana que, aos 63 anos, permanece como uma das figuras mais reconhecidas de Hollywood. Sua trajetória é marcada tanto pelo sucesso artístico quanto pela constante reinvenção diante das transformações da indústria cinematográfica e das discussões sobre envelhecimento e imagem pública.


Criada em um ambiente familiar instável e cercado por dificuldades financeiras, Demi Moore iniciou a carreira ainda jovem como modelo e atriz de televisão, alcançando projeção internacional nos anos 1980 e 1990. Tornou-se mundialmente conhecida após estrelar Ghost, obra que a transformou em símbolo romântico de uma geração. Depois disso, consolidou-se em produções de sucesso como A Few Good Men, Indecent Proposal e G.I. Jane.


Ao longo das décadas, sua imagem passou a representar não apenas o glamour hollywoodiano, mas também os debates contemporâneos sobre juventude, estética, pressão social e a busca por permanência em uma indústria que frequentemente privilegia a aparência e a renovação constante.


Envelhecer, saudável é possível? 02/10

 O Trem das Estações Esquecidas 

Existe uma conspiração silenciosa entre o espelho e o calendário. O espelho, esse sujeito cínico, nos devolve uma imagem que teimamos em não reconhecer, enquanto o calendário avança com a precisão de um carrasco suíço. A grande tragédia moderna não é a morte — essa, pelo menos, é democrática — mas a recusa em aceitar que a vida é feita de capítulos, e que não dá para ficar relendo o prefácio para sempre.

A saúde mental, no meio desse turbilhão que chamamos de "peripécias da vida", começa justamente aí: na arte de não brigar com o óbvio. Manter-se são exige um esforço hercúleo de ignorar a ditadura do "sempre jovem". Um dos primeiros passos para a higiene da alma é o distanciamento crítico. É preciso olhar para os problemas não como montanhas intransponíveis, mas como neblina na estrada; ela atrapalha a visão, mas se você mantiver a velocidade constante e os faróis acesos, ela acaba passando.

Para entender o valor de um envelhecimento equilibrado, precisamos visitar o necrotério das celebridades que resolveram viver em velocidade máxima, sem cinto de segurança. Falo daqueles que tinham o mundo aos pés, mas não tinham chão sob as botas. Marilyn Monroe, a deusa de platina que buscava no afeto alheio a cura para uma solidão que vinha de dentro; Amy Winehouse, que transformou sua dor em jazz e sua vida em um adeus precoce; Elvis Presley, o rei que se perdeu em seu próprio palácio de excessos; e Jim Morrison, que tentou atravessar para o "outro lado" e acabou ficando por lá.

Essas figuras não morreram de velhice; morreram de urgência. E a urgência é o veneno da saúde mental. Em um mundo que exige respostas imediatas e performances impecáveis, a primeira forma de manter a sanidade é estabelecer limites. Aprender a dizer "não" para o que nos consome é um exercício de musculação emocional tão importante quanto qualquer supino na academia.

A mente e o corpo, esses dois inquilinos que dividem o mesmo apartamento (o seu esqueleto), precisam estar em harmonia. Não adianta a mente querer ser um atleta de elite se o corpo já sinaliza que a lombar entrou em greve por tempo indeterminado. O alinhamento de propósito é a chave. Saúde mental é, em grande parte, autocompaixão. É entender que falhar faz parte do roteiro e que ter um tratamento adequado quando a química cerebral oscila não é sinal de fraqueza, mas de inteligência técnica.

Vivemos em uma sociedade que se recicla. A cada obituário, o sistema se ajusta. Somos peças de uma engrenagem que teima em se ver como o motor inteiro. Mas, como diz a canção interpretada por Maria Rita, a vida é uma estação. O trem está em movimento. Manter a saúde mental é saber apreciar a vista da janela, mesmo quando o trem sacode ou entra em um túnel escuro. A meditação, a leitura, o convívio com quem nos quer bem sem interesses contratuais — tudo isso são formas de lubrificar os trilhos da nossa própria locomotiva.

A saúde mental depende também de aceitar a finitude das fases. Cada idade tem seu bônus e seu ônus. Tentar carregar os privilégios da juventude para a maturidade sem aceitar as responsabilidades desta última é o caminho mais rápido para a frustração. O segredo de quem envelhece bem não está nas fórmulas mágicas de rejuvenescimento, mas na capacidade de encontrar beleza na decadência lenta e elegante das coisas. É saber que o "novo" logo será "velho", e que o legado que deixamos é a única coisa que realmente fica na plataforma quando o trem parte.

É preciso assistência, é preciso ciência, mas, acima de tudo, é preciso um pouco de filosofia de botequim: nada é tão grave quanto parece no calor do momento. A resiliência mental é como um músculo; ela cresce quando somos expostos ao estresse, desde que haja o tempo necessário para o descanso e a recuperação.

No final das contas, somos todos passageiros. Alguns tentam subornar o maquinista para voltar algumas estações, outros tentam pular do vagão em movimento. Mas os que chegam mais longe são aqueles que entendem que a viagem é o destino. E que, se as luzes da cabine começarem a piscar, o melhor a fazer é pedir ajuda, respirar fundo e lembrar que, enquanto o trem estiver andando, ainda há paisagem para ver.

O Personagem: Michael Jackson

O maior exemplo dessa luta inglória contra o tempo foi o Rei do Pop. O famoso abordado nesta crônica, que personificou a "Síndrome de Peter Pan", viveu em uma Terra do Nunca construída com muros altos e isolamento. Ele lutou contra vitiligo, lúpus e as marcas de uma infância que não aconteceu, tentando desesperadamente manter-se em uma juventude eterna que a biologia não permite. Ele foi o passageiro que tentou reconstruir o vagão inteiro enquanto o trem corria, esquecendo-se de que a paz mental não vem da perfeição da carcaça, mas da aceitação de que somos, todos nós, passageiros de uma só viagem.


Nota de Saúde: Para um envelhecimento saudável, mantenha exames de rotina em dia, pratique atividades físicas consistentes e não hesite em buscar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico para manter o equilíbrio emocional.

Envelhecer, saudável é possível? 01/10

 Envelhecer, dizia um desses filósofos de botequim que a gente encontra pela vida, é a única maneira que se descobriu até hoje de não morrer jovem, e embora a frase carregue o peso de uma obviedade quase rústica, ela esconde o espanto que nos assalta quando percebemos que o tempo não é mais aquela estrada infinita que víamos da janela do ônibus escolar, mas sim um retrovisor que reflete, com uma nitidez por vezes cruel, os ídolos da nossa infância transmutados em adultos que agora falam abertamente sobre geriatria. Recentemente, fui atingido por uma declaração da Eliana — sim, aquela mesma dos polegares, da voz de cristal que embalava as manhãs de um SBT ainda analógico e que, em algum momento da nossa linha do tempo, decidiu que cantar Shakira sob a batuta de um ex-namorado era uma etapa necessária da sua própria metamorfose — onde ela afirmava categoricamente que já possui uma geriatra para chamar de sua, e confesso que o impacto dessa frase em um sujeito que, como eu, caminha pelos quarenta e três anos, é equivalente a levar um soco de realidade dado por uma luva de pelica, pois para a minha filha, que ostenta seus doze anos como quem carrega a chave do futuro no bolso do jeans, a palavra "geriatra" soa tão natural quanto um algoritmo de rede social ou uma atualização de software, enquanto para mim, que ainda guardo na memória a imagem da menina de franjinha, o termo soa como uma invasão bárbara no território sagrado da juventude eterna.


A questão que se coloca diante de nós, essa geração que se equilibra precariamente entre o analógico e o digital, entre o pão com manteiga na chapa e o whey protein isolado, é como exatamente chegamos a esse ponto em que o corpo de menina de uma apresentadora de TV parece desafiar as leis mais básicas da termodinâmica, mantendo-se firme e reluzente enquanto o resto da humanidade lida com a gravidade, com o metabolismo em marcha lenta e com as dores que aparecem sem aviso prévio na manhã seguinte a um esforço mínimo. Vivemos, sem dúvida, sob o império da exposição contínua, onde a internet exige uma estética de vitrine que muitas vezes nos obriga a esconder as engrenagens rangentes da nossa máquina biológica sob camadas de filtros, ângulos favoráveis e edições cuidadosas, criando uma legião de pessoas que estão lindas por fora, mas que, se formos abrir o capô, talvez careçam daquela manutenção básica que só o movimento consciente e a disciplina alimentar podem proporcionar ao longo das décadas. Há, é claro, os prodígios que conseguem manter o equilíbrio entre o dentro e o fora, o que exige uma força de vontade que beira o misticismo, e há aqueles que se limitam à fachada, como casarões antigos de Curitiba que ostentam colunas suntuosas e pintura fresca enquanto o cupim faz a festa silenciosa nos baldrames, mas a grande verdade é que a vida é uma sucessão de escolhas que, no final das contas, acabam escrevendo a nossa biografia nas paredes das nossas artérias e na flexibilidade dos nossos tendões.


Se a alimentação nos define e o movimento nos transforma, a pergunta que ecoa no silêncio do consultório ou no barulho metálico da academia onde tentamos recuperar o tempo perdido é: como você está deixando a sua máquina? Tratar o corpo como uma entidade separada de nós mesmos, como se fôssemos apenas inquilinos temporários de um imóvel que não nos pertence, é o primeiro erro de uma longa lista de equívocos que cometemos ao longo das décadas de negligência, pois esquecemos que o envelhecimento saudável não é um bilhete de loteria que se ganha por sorte ou herança genética, mas sim um projeto de engenharia contínua que exige atenção constante aos lubrificantes que ingerimos e ao esforço que impomos aos nossos pistões musculares. Ver a Eliana falar de sua geriatra deveria ser, para todos nós que cruzamos a fronteira dos quarenta, um lembrete de que o tempo não perdoa os desatentos e que a diferença entre chegar à terceira idade com a dignidade de um clássico restaurado ou com a melancolia de um ferro-velho abandonado reside na coragem de trocar o sedentarismo confortável pela caminhada necessária e o excesso de alimentos processados pela simplicidade do que é vivo e nutritivo.


Nossa geração é aquela que viu o mundo mudar de cor, que passou do disco de vinil para o streaming e que agora se vê diante do espelho tentando entender em qual dobra da história aquela agilidade dos vinte anos se escondeu, e é justamente nesse ponto que a crônica do envelhecer se torna uma narrativa de resistência, onde cada escolha feita diante do prato de comida ou cada hora dedicada ao treino na academia funciona como um parágrafo de esperança em um livro que ainda tem muitos capítulos para serem escritos. A manutenção da máquina corpo não é um capricho estético para quem quer apenas parecer bem nas fotos de rede social, mas uma necessidade pragmática para quem deseja continuar sendo protagonista da própria vida, capaz de subir uma escada sem ofegar ou de brincar com os filhos sem sentir que o esqueleto está prestes a desmoronar sob o peso da gravidade. A Eliana que cantava para os polegares agora é a mulher que nos aponta o caminho da maturidade com consciência, e embora o "What?" que brota na nossa garganta ao ouvir sobre geriatras seja legítimo, ele deve ser seguido por uma reflexão profunda sobre o que estamos fazendo com o único veículo que realmente possuímos nesta existência.


A vida moderna nos oferece todas as facilidades para que sejamos sedentários e mal alimentados, transformando o ato de cuidar da saúde em um gesto quase revolucionário de rebeldia contra a comodidade, e é nesse cenário que precisamos ser os mecânicos atentos da nossa própria biologia, ajustando os parafusos da rotina e garantindo que o combustível seja de alta octanagem, pois a velhice, quando chega para quem não se preparou, é uma visita indesejada que cobra juros altíssimos sobre cada negligência do passado. Para a minha filha de doze anos, o conceito de saúde já nasce integrado a uma nova realidade de prevenção, mas para nós, que crescemos em uma época de menos informação e mais improviso, a tarefa é desaprender velhos hábitos para que possamos habitar nossa pele com o conforto de quem sabe que fez o melhor possível pela engrenagem. O envelhecimento saudável é, portanto, o exercício diário de aceitar que somos obras em construção permanente, e que se a Eliana já está consultando uma geriatra, talvez seja hora de pararmos de olhar para o relógio com medo e passarmos a olhar para os nossos hábitos com honestidade, pois no grande baile da vida, a música continua tocando e só quem mantém o corpo em movimento consegue acompanhar o ritmo, mesmo que os passos agora sejam mais calculados e o fôlego exija uma gestão mais inteligente.


Portanto, quando você se deparar com a imagem de alguém que parece ter vencido a barreira do tempo, não se iluda com a ideia de que aquilo é apenas fruto de cremes caros ou intervenções cirúrgicas, pois a verdadeira beleza que resiste ao outono da vida vem de uma manutenção interna que não pode ser comprada, apenas conquistada com o suor do movimento e com a sabedoria de quem sabe que o que colocamos para dentro do corpo é o que sustenta a estrutura por fora. A crônica do envelhecer saudável é uma história de amor-próprio escrita com a tinta da disciplina, e se hoje nos assustamos com a palavra "geriatria", que amanhã possamos celebrá-la como a ciência que nos permite estender a nossa estadia neste mundo com a qualidade que a nossa máquina merece, garantindo que, independentemente da idade cronológica, a nossa alma continue encontrando um corpo vigoroso e pronto para as próximas aventuras que o destino decidir nos apresentar. Ao final, somos todos passageiros de um tempo que não para, e a melhor forma de aproveitar a viagem é garantindo que o veículo esteja em ordem, com os freios revisados, o motor regulado e o tanque cheio de bons nutrientes, para que possamos olhar para o retrovisor sem arrependimentos e para a estrada à frente com o entusiasmo de quem sabe que o melhor quilômetro ainda está por vir. (Famosa abordada Eliana).


Envelhecimento fato que não se pode fugir 10/10

 O Legado do Tempo 
Finalizo aqui minha crônica sobre o envelhecimento, um fato do qual nenhum ser humano pode fugir. Foram dez encontros refletindo sobre o tempo, a velhice e aquilo que fazemos da nossa existência enquanto ainda caminhamos por ela.
Durante essas reflexões, falei sobre o Japão, um país que já vive um fenômeno assustador e silencioso: cidades e casas abandonadas pela ausência de filhos e herdeiros. Lugares onde o tempo parece ter permanecido imóvel, como se a vida tivesse saído pela porta e não voltado mais. Isso nos faz pensar no futuro da humanidade e em como estamos lidando com a própria continuidade da vida.
Também comentei sobre a busca quase obsessiva do ser humano por prolongar a existência. Bilionários investem fortunas tentando retardar o envelhecimento dos órgãos, buscando maneiras de reverter aquilo que sempre foi considerado inevitável. E, sinceramente, às vezes penso: se todo o esforço do mundo fosse direcionado para saúde, qualidade de vida e equilíbrio humano, talvez pudéssemos viver cento e cinquenta anos. É uma possibilidade que provoca reflexão.
Mas existe outra questão que me inquieta ainda mais. A preocupação da vida não deveria ser apenas viver mais, mas deixar algo que permaneça. Porque, sendo realistas, a existência humana é curta. O homem vive oitenta anos, noventa quando muito. Depois disso, já estamos em um segundo tempo avançado da vida.
Talvez a grande pergunta não seja “quanto tempo ainda tenho?”, mas “o que ficará de mim quando eu partir?”.
Chego aos meus quarenta e três anos entendendo algo que antes parecia distante. A alimentação, por exemplo, deixa de ser apenas prazer e passa a ser também responsabilidade. Comer mal pode, sim, nos matar lentamente. O corpo já não responde da mesma forma. A maturidade exige mudanças.
Envelhecer também deveria trazer serenidade. Quando somos jovens, acreditamos que a velhice pertence aos outros. A morte é distante, o corpo parece infinito e o amanhã nunca preocupa. Mas depois da metade da vida, algo muda dentro de nós. Começamos a perceber que certos hábitos precisam ser abandonados, que nossa maneira de agir deve amadurecer e que o tempo passa mesmo quando fingimos não perceber.
Qual seria, então, a forma ideal de envelhecer?
Talvez seja viver de maneira que não tenhamos vergonha do próprio legado. Ser lembrado como alguém bom. Alguém que tentou fazer o certo. Alguém que deixou mais afeto do que feridas.
No fim, cuidar da saúde, cultivar a serenidade e construir um legado digno talvez sejam as únicas maneiras reais de enfrentar o tempo.
E talvez envelhecer não seja perder a juventude.
Talvez envelhecer seja, finalmente, compreender a vida.

Envelhecimento, fato que não se pode fugir 09/10

 Finalizada a semana, e quase finalizando minha crônica sobre o envelhecimento, hoje tirei o dia para falar do conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa. Acho este conto muito pertinente para refletirmos sobre a passagem do tempo.

Quando jovens, apesar de o mundo nos ser apresentado com todos os seus costumes e modos, a morte parece algo distante. Na juventude estamos no viço da vida e, sendo assim, não nos preocupamos com ela. Esquecemos que o envelhecimento é inerente ao viver. Vive-se sem pensar no amanhã, e assim a vida torna-se mais leve; o medo de existir e, logo depois, deixar de existir fica adormecido em algum lugar da consciência.

Como prometido, vou tentar contextualizar essa reflexão com o conto em questão. Há um pai e um filho. O pai abandona a família, e parece que quem realmente sente esse abandono é apenas o filho. Mas é um abandono estranho, quase inconsciente, pois o pai aparenta perder o juízo e passa a morar em uma canoa no meio de um rio.

Isso transforma completamente a vida daquela família. A mãe sente vergonha, preocupação, e uma família antes estruturada passa, aos poucos, a se tornar uma família em ruínas. O tempo passa, e aquela situação típica do interior — algo impensável nos dias de hoje acontecer da mesma forma — permanece suspensa, como uma ferida aberta.

Escrevi um conto espelhado nessa narrativa, retratando a vida de mendigos. Como se tornaram mendigos? O que os levou ao desamparo? Bebida? Drogas? Abandono? Como conseguem viver assim? Pessoas que, muitas vezes, finalizam a existência em asilos. Será que eu também finalizarei a minha existência em um asilo?

Tenho somente uma filha. De certa forma, deixei a minha genética restrita a uma única pessoa. O conto de João Guimarães Rosa me traz esses sentimentos e me faz refletir profundamente.

Como já comentei em outro momento desta reflexão, certa vez visitei, a serviço, um hospital antigo da minha cidade. Observei que, na ala mais pobre, destinada aos pacientes atendidos pelo SUS, estavam justamente os mais velhos e necessitados.

Tudo aquilo que conquistamos ao longo da vida acaba sendo disponibilizado para o nosso próprio fim? A vida nos leva a gastar de forma desenfreada. Muitos ganham bem, possuem plano de saúde enquanto jovens, mas, quando chega a velhice, acabam dependendo da saúde pública.

A crônica de hoje está um pouco pessimista diante do futuro. Claro que também haverá boas coisas a serem observadas. Ainda assim, a reflexão permanece.

Sexta-feira, 08 de maio de 2026. Bora.