Envelhecer, saudável é possível? 02/10

 O Trem das Estações Esquecidas 

Existe uma conspiração silenciosa entre o espelho e o calendário. O espelho, esse sujeito cínico, nos devolve uma imagem que teimamos em não reconhecer, enquanto o calendário avança com a precisão de um carrasco suíço. A grande tragédia moderna não é a morte — essa, pelo menos, é democrática — mas a recusa em aceitar que a vida é feita de capítulos, e que não dá para ficar relendo o prefácio para sempre.

A saúde mental, no meio desse turbilhão que chamamos de "peripécias da vida", começa justamente aí: na arte de não brigar com o óbvio. Manter-se são exige um esforço hercúleo de ignorar a ditadura do "sempre jovem". Um dos primeiros passos para a higiene da alma é o distanciamento crítico. É preciso olhar para os problemas não como montanhas intransponíveis, mas como neblina na estrada; ela atrapalha a visão, mas se você mantiver a velocidade constante e os faróis acesos, ela acaba passando.

Para entender o valor de um envelhecimento equilibrado, precisamos visitar o necrotério das celebridades que resolveram viver em velocidade máxima, sem cinto de segurança. Falo daqueles que tinham o mundo aos pés, mas não tinham chão sob as botas. Marilyn Monroe, a deusa de platina que buscava no afeto alheio a cura para uma solidão que vinha de dentro; Amy Winehouse, que transformou sua dor em jazz e sua vida em um adeus precoce; Elvis Presley, o rei que se perdeu em seu próprio palácio de excessos; e Jim Morrison, que tentou atravessar para o "outro lado" e acabou ficando por lá.

Essas figuras não morreram de velhice; morreram de urgência. E a urgência é o veneno da saúde mental. Em um mundo que exige respostas imediatas e performances impecáveis, a primeira forma de manter a sanidade é estabelecer limites. Aprender a dizer "não" para o que nos consome é um exercício de musculação emocional tão importante quanto qualquer supino na academia.

A mente e o corpo, esses dois inquilinos que dividem o mesmo apartamento (o seu esqueleto), precisam estar em harmonia. Não adianta a mente querer ser um atleta de elite se o corpo já sinaliza que a lombar entrou em greve por tempo indeterminado. O alinhamento de propósito é a chave. Saúde mental é, em grande parte, autocompaixão. É entender que falhar faz parte do roteiro e que ter um tratamento adequado quando a química cerebral oscila não é sinal de fraqueza, mas de inteligência técnica.

Vivemos em uma sociedade que se recicla. A cada obituário, o sistema se ajusta. Somos peças de uma engrenagem que teima em se ver como o motor inteiro. Mas, como diz a canção interpretada por Maria Rita, a vida é uma estação. O trem está em movimento. Manter a saúde mental é saber apreciar a vista da janela, mesmo quando o trem sacode ou entra em um túnel escuro. A meditação, a leitura, o convívio com quem nos quer bem sem interesses contratuais — tudo isso são formas de lubrificar os trilhos da nossa própria locomotiva.

A saúde mental depende também de aceitar a finitude das fases. Cada idade tem seu bônus e seu ônus. Tentar carregar os privilégios da juventude para a maturidade sem aceitar as responsabilidades desta última é o caminho mais rápido para a frustração. O segredo de quem envelhece bem não está nas fórmulas mágicas de rejuvenescimento, mas na capacidade de encontrar beleza na decadência lenta e elegante das coisas. É saber que o "novo" logo será "velho", e que o legado que deixamos é a única coisa que realmente fica na plataforma quando o trem parte.

É preciso assistência, é preciso ciência, mas, acima de tudo, é preciso um pouco de filosofia de botequim: nada é tão grave quanto parece no calor do momento. A resiliência mental é como um músculo; ela cresce quando somos expostos ao estresse, desde que haja o tempo necessário para o descanso e a recuperação.

No final das contas, somos todos passageiros. Alguns tentam subornar o maquinista para voltar algumas estações, outros tentam pular do vagão em movimento. Mas os que chegam mais longe são aqueles que entendem que a viagem é o destino. E que, se as luzes da cabine começarem a piscar, o melhor a fazer é pedir ajuda, respirar fundo e lembrar que, enquanto o trem estiver andando, ainda há paisagem para ver.

O Personagem: Michael Jackson

O maior exemplo dessa luta inglória contra o tempo foi o Rei do Pop. O famoso abordado nesta crônica, que personificou a "Síndrome de Peter Pan", viveu em uma Terra do Nunca construída com muros altos e isolamento. Ele lutou contra vitiligo, lúpus e as marcas de uma infância que não aconteceu, tentando desesperadamente manter-se em uma juventude eterna que a biologia não permite. Ele foi o passageiro que tentou reconstruir o vagão inteiro enquanto o trem corria, esquecendo-se de que a paz mental não vem da perfeição da carcaça, mas da aceitação de que somos, todos nós, passageiros de uma só viagem.


Nota de Saúde: Para um envelhecimento saudável, mantenha exames de rotina em dia, pratique atividades físicas consistentes e não hesite em buscar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico para manter o equilíbrio emocional.