Envelhecer, dizia um desses filósofos de botequim que a gente encontra pela vida, é a única maneira que se descobriu até hoje de não morrer jovem, e embora a frase carregue o peso de uma obviedade quase rústica, ela esconde o espanto que nos assalta quando percebemos que o tempo não é mais aquela estrada infinita que víamos da janela do ônibus escolar, mas sim um retrovisor que reflete, com uma nitidez por vezes cruel, os ídolos da nossa infância transmutados em adultos que agora falam abertamente sobre geriatria. Recentemente, fui atingido por uma declaração da Eliana — sim, aquela mesma dos polegares, da voz de cristal que embalava as manhãs de um SBT ainda analógico e que, em algum momento da nossa linha do tempo, decidiu que cantar Shakira sob a batuta de um ex-namorado era uma etapa necessária da sua própria metamorfose — onde ela afirmava categoricamente que já possui uma geriatra para chamar de sua, e confesso que o impacto dessa frase em um sujeito que, como eu, caminha pelos quarenta e três anos, é equivalente a levar um soco de realidade dado por uma luva de pelica, pois para a minha filha, que ostenta seus doze anos como quem carrega a chave do futuro no bolso do jeans, a palavra "geriatra" soa tão natural quanto um algoritmo de rede social ou uma atualização de software, enquanto para mim, que ainda guardo na memória a imagem da menina de franjinha, o termo soa como uma invasão bárbara no território sagrado da juventude eterna.
A questão que se coloca diante de nós, essa geração que se equilibra precariamente entre o analógico e o digital, entre o pão com manteiga na chapa e o whey protein isolado, é como exatamente chegamos a esse ponto em que o corpo de menina de uma apresentadora de TV parece desafiar as leis mais básicas da termodinâmica, mantendo-se firme e reluzente enquanto o resto da humanidade lida com a gravidade, com o metabolismo em marcha lenta e com as dores que aparecem sem aviso prévio na manhã seguinte a um esforço mínimo. Vivemos, sem dúvida, sob o império da exposição contínua, onde a internet exige uma estética de vitrine que muitas vezes nos obriga a esconder as engrenagens rangentes da nossa máquina biológica sob camadas de filtros, ângulos favoráveis e edições cuidadosas, criando uma legião de pessoas que estão lindas por fora, mas que, se formos abrir o capô, talvez careçam daquela manutenção básica que só o movimento consciente e a disciplina alimentar podem proporcionar ao longo das décadas. Há, é claro, os prodígios que conseguem manter o equilíbrio entre o dentro e o fora, o que exige uma força de vontade que beira o misticismo, e há aqueles que se limitam à fachada, como casarões antigos de Curitiba que ostentam colunas suntuosas e pintura fresca enquanto o cupim faz a festa silenciosa nos baldrames, mas a grande verdade é que a vida é uma sucessão de escolhas que, no final das contas, acabam escrevendo a nossa biografia nas paredes das nossas artérias e na flexibilidade dos nossos tendões.
Se a alimentação nos define e o movimento nos transforma, a pergunta que ecoa no silêncio do consultório ou no barulho metálico da academia onde tentamos recuperar o tempo perdido é: como você está deixando a sua máquina? Tratar o corpo como uma entidade separada de nós mesmos, como se fôssemos apenas inquilinos temporários de um imóvel que não nos pertence, é o primeiro erro de uma longa lista de equívocos que cometemos ao longo das décadas de negligência, pois esquecemos que o envelhecimento saudável não é um bilhete de loteria que se ganha por sorte ou herança genética, mas sim um projeto de engenharia contínua que exige atenção constante aos lubrificantes que ingerimos e ao esforço que impomos aos nossos pistões musculares. Ver a Eliana falar de sua geriatra deveria ser, para todos nós que cruzamos a fronteira dos quarenta, um lembrete de que o tempo não perdoa os desatentos e que a diferença entre chegar à terceira idade com a dignidade de um clássico restaurado ou com a melancolia de um ferro-velho abandonado reside na coragem de trocar o sedentarismo confortável pela caminhada necessária e o excesso de alimentos processados pela simplicidade do que é vivo e nutritivo.
Nossa geração é aquela que viu o mundo mudar de cor, que passou do disco de vinil para o streaming e que agora se vê diante do espelho tentando entender em qual dobra da história aquela agilidade dos vinte anos se escondeu, e é justamente nesse ponto que a crônica do envelhecer se torna uma narrativa de resistência, onde cada escolha feita diante do prato de comida ou cada hora dedicada ao treino na academia funciona como um parágrafo de esperança em um livro que ainda tem muitos capítulos para serem escritos. A manutenção da máquina corpo não é um capricho estético para quem quer apenas parecer bem nas fotos de rede social, mas uma necessidade pragmática para quem deseja continuar sendo protagonista da própria vida, capaz de subir uma escada sem ofegar ou de brincar com os filhos sem sentir que o esqueleto está prestes a desmoronar sob o peso da gravidade. A Eliana que cantava para os polegares agora é a mulher que nos aponta o caminho da maturidade com consciência, e embora o "What?" que brota na nossa garganta ao ouvir sobre geriatras seja legítimo, ele deve ser seguido por uma reflexão profunda sobre o que estamos fazendo com o único veículo que realmente possuímos nesta existência.
A vida moderna nos oferece todas as facilidades para que sejamos sedentários e mal alimentados, transformando o ato de cuidar da saúde em um gesto quase revolucionário de rebeldia contra a comodidade, e é nesse cenário que precisamos ser os mecânicos atentos da nossa própria biologia, ajustando os parafusos da rotina e garantindo que o combustível seja de alta octanagem, pois a velhice, quando chega para quem não se preparou, é uma visita indesejada que cobra juros altíssimos sobre cada negligência do passado. Para a minha filha de doze anos, o conceito de saúde já nasce integrado a uma nova realidade de prevenção, mas para nós, que crescemos em uma época de menos informação e mais improviso, a tarefa é desaprender velhos hábitos para que possamos habitar nossa pele com o conforto de quem sabe que fez o melhor possível pela engrenagem. O envelhecimento saudável é, portanto, o exercício diário de aceitar que somos obras em construção permanente, e que se a Eliana já está consultando uma geriatra, talvez seja hora de pararmos de olhar para o relógio com medo e passarmos a olhar para os nossos hábitos com honestidade, pois no grande baile da vida, a música continua tocando e só quem mantém o corpo em movimento consegue acompanhar o ritmo, mesmo que os passos agora sejam mais calculados e o fôlego exija uma gestão mais inteligente.
