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Aquele que fugiu da sua própria natureza | Série: "Os animais te contam"

O leão nasceu sob o dourado severo das savanas antigas, onde o vento carregava o cheiro da terra quente e os rugidos dos ancestrais pareciam morar dentro das pedras. Seu pai era um rei respeitado, daqueles que não precisavam demonstrar força a todo instante, porque a própria presença bastava para impor silêncio aos chacais e segurança ao bando. Desde pequeno, o jovem filhote caminhava entre as leoas com a arrogância inocente de quem acredita que o amanhã será eterno. Corria pelos campos altos, perseguia borboletas invisíveis e observava o pai no alto das colinas, imóvel como uma montanha viva. Achava que coragem era apenas um estado natural das criaturas fortes. Não sabia ainda que a verdadeira coragem só nasce quando o medo já tomou conta de tudo.

A tragédia veio numa tarde abafada, quando o céu parecia pesado demais para sustentar as próprias nuvens. O pai tombou diante da brutalidade da selva e das traições que existem até entre os que compartilham o mesmo sangue. O filhote, assustado e confuso, ouviu vozes que o culpavam, vozes cruéis que cresciam dentro da sua mente como espinhos venenosos. Fugiu sem olhar para trás. Correu durante dias e noites, atravessando rios barrentos, matagais fechados e regiões onde nem mesmo os abutres ousavam permanecer por muito tempo. O medo transformou suas patas em máquinas desesperadas. Mais do que fugir da savana, fugia de si mesmo.

Foi então que encontrou dois seres improváveis: um suricato magro e falante, que enxergava humor até nas tempestades, e um javali enorme, desajeitado e dono de um coração absurdamente gentil. Eles não perguntaram de onde o leão vinha. Não cobraram explicações, nem exigiram coragem. Apenas o acolheram como se a vida fosse simples demais para guardar rancores. Ensinavam-no a dormir sob árvores úmidas, a ouvir o canto dos insetos durante a madrugada e a ignorar os perigos do amanhã. Havia uma filosofia despreocupada naquele pequeno refúgio escondido entre florestas densas e riachos silenciosos. “Hacunamatata”, repetiam eles com alegria, como se aquelas palavras fossem uma espécie de feitiço capaz de apagar dores antigas.

E por algum tempo funcionou.

O leão cresceu distante daquilo que era. Aprendeu a cavar troncos podres para encontrar larvas gordurosas, devorava besouros crocantes e ria da própria imagem quando o suricato dizia que ele era o único rei da selva que preferia cupins a caça. Os dias tornaram-se leves. Não havia responsabilidades, disputas ou decisões difíceis. Apenas o sol filtrando-se pelas folhas, banhos demorados nos rios e noites embaladas por gargalhadas. A floresta o anestesiou lentamente. Seu corpo crescia poderoso, mas seu espírito permanecia adormecido. Havia força em seus músculos, porém não existia propósito em sua existência.

E talvez seja exatamente assim que muitos se perdem.

Nem sempre a prisão possui grades. Às vezes ela é confortável. Às vezes tem amigos sinceros, refeições fáceis e tardes tranquilas demais. Há pessoas que passam a vida inteira escondidas dentro de lugares seguros apenas porque o mundo lá fora exige delas algo maior. O leão não percebia isso. Acomodou-se ao alívio de não precisar enfrentar o passado. Convenceu-se de que sobreviver era suficiente.

Até que certo entardecer mudou tudo.

O céu estava tingido de vermelho escuro quando ele se aproximou do rio para beber água. O vento soprava diferente naquele dia, carregando o cheiro distante das savanas. O leão abaixou a cabeça e viu o próprio reflexo tremulando na superfície do rio. Mas não enxergou apenas o rosto adulto que havia adquirido. Por um instante, viu o pai. Viu os olhos ancestrais da sua linhagem. Viu o peso do sangue que corria em suas veias. E então algo selvagem despertou dentro dele.

Seu peito apertou.

As lembranças vieram violentas como uma tempestade esquecida: o rugido do pai ecoando entre montanhas, a poeira dourada da savana, o medo da fuga, a culpa, a vergonha. Mas, acima de tudo, percebeu uma verdade impossível de ignorar: ele não era um animal criado para se esconder entre raízes úmidas enquanto a vida passava adiante. Era um leão. E fugir de sua natureza estava destruindo lentamente aquilo que existia de mais valioso dentro dele.

Naquela noite quase não dormiu. Escutava os insetos, observava o javali ressonando profundamente e o suricato enrolado entre folhas secas. Amava aqueles amigos. Eles haviam salvado sua vida. Contudo, entendeu algo doloroso: gratidão não pode se transformar em prisão. Há momentos em que continuar parado é uma forma silenciosa de covardia.

Quando amanheceu, partiu.

A volta foi difícil. Cada passo rumo às antigas terras parecia arrancar pedaços da segurança que havia construído ao longo dos anos. O leão já não sabia caçar como antes. Suas patas hesitavam. Seu corpo poderoso carregava hábitos frágeis. Os primeiros confrontos foram humilhantes. Sentia medo do próprio rugido. As leoas o observavam com desconfiança. Alguns animais murmuravam que ele havia abandonado seu destino. Outros diziam que jamais voltaria a ser rei.

Mas a coragem verdadeira não nasce pronta.

Ela é construída na persistência de quem cai e continua caminhando.

O leão reaprendeu lentamente sua natureza. Voltou a sentir o cheiro da caça antes da chuva. Recuperou a força dos saltos. Enfrentou hienas, atravessou secas severas e suportou noites inteiras protegendo os seus. Descobriu que liderança não tinha relação com orgulho ou domínio, mas com responsabilidade. Ser rei significava permanecer acordado enquanto os outros dormiam tranquilos. Significava carregar medos sem permitir que eles destruíssem sua missão.

E então, numa madrugada silenciosa, aconteceu.

Do alto da grande pedra que dominava a savana, ele lançou um rugido tão profundo que os pássaros levantaram voo das árvores e os rios pareceram estremecer por um instante. Não era apenas um som. Era um anúncio. O rei havia retornado. O eco atravessou campos, cavernas e florestas, espalhando-se como uma lembrança antiga que finalmente reencontrava seu lugar no mundo.

Hoje, quando o vento corta as savanas durante a noite, ainda é possível ouvir aquele rugido poderoso ecoando pela floresta, lembrando a todos que o verdadeiro líder não é aquele que jamais sentiu medo, mas aquele que encontrou coragem para voltar e enfrentar aquilo que nasceu para ser.

E talvez esta seja a grande moral da vida: muitas vezes as vozes, os cenários e as circunstâncias nos afastam dos nossos objetivos, oferecendo uma existência confortável, despreocupada e aparentemente segura. Aos poucos nos acomodamos ao simples ato de existir, esquecendo quem realmente somos. Porém a vida é como um rio que jamais retorna à nascente. Ela flui sempre para a frente. E chega um momento em que olhar para o próprio reflexo torna-se inevitável. Nesse instante, cada ser humano precisa decidir se continuará escondido entre as sombras da comodidade… ou se terá coragem de assumir o próprio destino.


De repente 80

De repente 80

Eu era, aos 25, um corte. Um corte fino e exato no tecido frouxo do mundo. Eu me movia com a urgência do sintetizador, rápido, brilhante, e odiosamente seguro de que a vida me pertencia em sua totalidade tonificada. Meu mullet era o reflexo de uma era de poder desnecessário; minha esbeltez, a muralha contra o tempo.

Envelhecer. A palavra me repugnava. Era o cheiro de mofo da inação.

Eu olhava para o Senhor Ambrósio, o zelador do meu arranha-céu de vidro. Ele rastejava pelas superfícies, varrendo poeira que não me importava, e eu sentia uma impaciência física, uma coceira na garganta. "Ambrósio, por Deus! Você é um caracol! A lentidão ofende a minha pressa," eu vociferava, sem lhe dar a dignidade de olhar em seus olhos turvos. Eu era a velocidade, e ele era o estorvo.

Naquela noite, eu despenquei no sono, exausto pela minha própria juventude insaciável.

A Estranheza Nua

O despertar. Ah, o despertar não foi um abrir de olhos, mas um desabamento interno. Não foi um erro no quarto, mas um erro em mim. Eu sou, ou fui, aquele que se moveu. E agora, o que me movia era a hesitação.

Tentei erguer o braço. A pele. A pele que eu conhecia, lisa e tensionada sobre o músculo, havia se transformado em um pergaminho solto, manchado por aquilo que só podia ser a geografia de anos não vividos. Minhas mãos... Elas não eram mais ferramentas precisas, mas garras trêmulas de ossos salientes. Eu não conseguia controlar o tremor, era a vida desobedecendo-me.

A voz que saiu da minha garganta era um lamento seco, um som que me ofendeu no mais profundo da minha vaidade. Não era a minha voz de comando, mas o resmungo de quem pede silêncio.

Eu me arrastei até o espelho, essa traição cotidiana. E lá estava ele: um velho. Com o rosto cheio de rugas profundas, sulcos que guardavam lágrimas que eu nunca chorei. A fragilidade era tão densa que parecia pesar mais do que o corpo forte que eu abandonara.

Eu era eu, a mente de 25 anos faminta por velocidade, presa neste invólucro que só pedia o canto quieto da desistência. Não houve o amadurecimento que a idade traz, apenas a imputação de rugas e dor. Minha alma juvenil estava em guerra civil com este corpo estrangeiro.

Quem sou eu se a minha pele me nega? A vida me deu o corpo que eu desprezava para que eu aprendesse a sentir, e não apenas a usar. Eu sou a minha pressa presa na lentidão alheia.

O Câmbio da Dissonância

Minha jornada de herói não começou com uma espada, mas com uma dor lancinante no joelho ao tentar ir ao banheiro. Cada centímetro era uma negociação. O que o meu corpo de 25 faria em um segundo, este exigia uma meditação, um cálculo de risco: o risco da queda, o risco da fratura.

Eu tentei ler um livro. O foco era fugidio. Eu tentei abrir a geladeira. A força necessária para girar a tampa do pote de geleia era a mesma que eu usava para levantar peso na academia. E agora, eu estava derrotado por um pote de geléia. A humilhação era física, palpável.

E então, o chicote da introspecção. Eu não estava apenas velho, eu estava sendo o velho que eu havia insultado.

Lembrei de Ambrósio. Lembrei do seu tremor, da sua lentidão. Não era um defeito de caráter, era um estado de ser. Eu havia sido cruel porque não podia conceber a fragilidade. Eu não entendia que a lentidão é a única velocidade possível para quem está constantemente à beira da exaustão. Ele não andava devagar; ele negociava a distância.

Eu passei dez dias nesse purgatório de paciência forçada. A solidão era absoluta, pois ninguém via o jovem por trás dos olhos cansados. As pessoas falavam comigo com uma paciência excessiva, como se eu fosse uma criança grande e lenta. O meu eu de 25 anos queria gritar: Eu sei a resposta! Eu estou aqui!, mas o corpo só me permitia um murmúrio rouco.

Eu estava tentando pegar o controle remoto, que escorregara para o chão. A frustração adolescente me incendiou. Eu precisava da música, eu precisava do ruído para me provar que eu existia. Tentei me abaixar com a pressa que a minha mente impunha.

O corpo, porém, tinha suas próprias leis. Veio o teto giratório, o baque surdo, e a escuridão absoluta.

O Regresso e a Suavidade

O cheiro de hospital, familiar e distante, me chamou de volta. Os bipes rítmicos. Eu abri os olhos. O teto era branco, imaculado, e eu estava de volta.

Minha mãe chorava ao lado da cama. "Dez dias em coma, meu filho, por uma queda estúpida na porta de entrada!"

Senti meus braços. Eram os meus. Fortes, lisos, o contorno exato da minha juventude. Mas a sensação de ser jovem estava quebrada. Não era um poder; era uma dádiva silenciosa.

Eu não sonhei; eu fui o outro.

Quando voltei ao escritório, tudo parecia lento, mas não por impaciência minha. O mundo se movia em seu ritmo normal, mas eu estava lendo as entrelinhas. Vi o Senhor Ambrósio, a coluna curvada sobre a vassoura.

Parei ao lado dele.

"Senhor Ambrósio," minha voz era a minha, forte, mas estava temperada com uma doçura que eu nunca soubera que possuía. "Sente-se, por favor. Eu insisto. Deixe-me fazer isso. É... é um bom exercício para mim."

Peguei a vassoura. Abracei o cabo. Senti o peso do objeto de trabalho, e me movi devagar, como ele faria. A vassoura era um prolongamento do corpo, e eu varria a poeira com o cuidado que ele varreria o tempo.

A surpresa nos olhos do velho era uma pergunta que eu não precisava responder. Eu não havia adquirido anos, mas havia aprendido a ler o tempo em seu corpo. Eu havia me tornado, enfim, um ser que sente, e não apenas um corte fino na pressa da vida. E bastou essa lentidão emprestada para que a minha juventude, agora, se tornasse, pela primeira vez, verdadeira.




🌥️ Olhando para as Nuvens do Céu

A cadeira de rodas rangia suavemente sobre o pavimento ligeiramente irregular, um som abafado pela brisa fresca do outono. Dona Aurora apertava as mãos enrugadas no colo, sentindo o leve empurrão das mãos firmes de seu filho, Ricardo, nas alças da cadeira. O cheiro de folhas secas pairava no ar.

— Estamos quase chegando, mamãe — disse Ricardo, a voz baixa, embora ela soubesse que ele se esforçava para parecer casual.

Dona Aurora não respondeu, mas inclinou a cabeça para trás, erguendo o olhar. O céu de um azul pálido estava pontilhado de nuvens brancas e macias, algumas longas e finas como pinceladas de algodão, outras volumosas como montanhas distantes.

Nuvens...

Em sua mente, a viagem para o Asilo Recanto da Serenidade se desdobrou em um filme silencioso, projetado no teto azul do mundo.

Viu a si mesma, ainda menina, deitada na grama do quintal, tentando adivinhar formas nos cúmulos. Lembro-se daquele dia em que jurou ter visto um castelo altíssimo e um dragão.

Ah, a infância... era o sabor da goiabada da vovó e o cheiro de terra molhada.

O asfalto sob as rodas mudou para uma calçada mais lisa. A realidade retornou por um instante. Ela estava sendo levada para o seu último lar. Não era o desfecho que ela havia imaginado nos seus dias mais jovens, mas quem alguma vez consegue moldar o destino?

Lembrou-se do dia do seu casamento com Manuel. O dia estava tão ensolarado! As nuvens eram quase invisíveis, ofuscadas pela felicidade brilhante que a envolvia. A nuvem que ela se recusava a ver era a sombra da guerra que levou seu jovem marido cedo demais.

Fechou os olhos por um segundo. A dor era antiga, mas ainda a tocava. No entanto, ela abriu os olhos rapidamente, forçando-se a olhar novamente para o céu. Não se podia viver na escuridão de uma dor de meio século.

— Você está bem, mamãe? — perguntou Ricardo, parando um momento.

— Estou apenas apreciando o espetáculo — ela respondeu, com um fio de voz que ainda carregava a doçura do sul.

O espetáculo da vida, pensou. Depois de Manuel, vieram os anos de trabalho árduo, as madrugadas na fábrica, a criação de Ricardo sozinha. Não foi fácil. Não houve príncipes, apenas o peso das responsabilidades. Mas olhe para Ricardo! Um homem bom, gentil, com a força de Manuel e a sua própria teimosia.

As nuvens de tempestade também passam, e depois o céu fica limpo, mais azul do que antes.

Ela pensou no asilo. Ricardo tinha lhe falado sobre o jardim florido, a biblioteca aconchegante, as outras senhoras e senhores com quem ela poderia conversar. Talvez fosse bom. Um lugar para descansar, para finalmente não ter que se preocupar em cozinhar, limpar ou cuidar de si. Talvez fosse como o último capítulo de um livro bem escrito: a resolução, a calma final antes de fechar a capa.

A nova vista.

Ela imaginou a janela do seu novo quarto. Olharia para as nuvens todos os dias, mas de uma perspectiva diferente. Um lugar de paz onde as memórias poderiam ser saboreadas, não mais carregadas. Ricardo não a estava abandonando; ele a estava colocando em um casulo de segurança. E o amor deles continuaria, forte e inabalável.

O asilo surgiu à vista, uma construção grande e elegante, aninhada em meio a árvores altas. Eles pararam na porta. Ricardo ajoelhou-se ao lado da cadeira, segurando sua mão. Os olhos dele estavam marejados.

— Eu virei vê-la todos os dias, mamãe. Eu prometo.

Dona Aurora apertou-lhe a mão e sorriu, um sorriso genuíno que não dava há meses.

— Eu sei, meu filho. Agora me deixe entrar. Tenho muitas nuvens para observar.


Dez anos depois.

O tempo tinha sido gentil, na medida do possível. Dona Aurora estava com noventa e nove anos. O corpo cansado, mas a mente límpida. Todas as tardes, pontualmente às quatro e meia, ela se sentava em sua cadeira de rodas favorita, perto da janela do salão, com vista para a longa estrada de acesso do asilo.

Ela olhava para o céu, para as nuvens.

Hoje, elas estavam dispersas e douradas, banhadas pela luz do entardecer. Ela via formas que não tentava mais decifrar, apenas apreciava a sua beleza fugaz.

A promessa de Ricardo não havia sido cumprida à risca; a vida dele tinha se tornado agitada, e as visitas, embora sempre atenciosas, eram mais raras do que ele gostaria. Mas ela não guardava rancor. O amor era paciente.

De repente, ela sentiu aquele aperto familiar de antecipação no peito. Não a excitação da juventude, mas a cálida certeza do reencontro. Os olhos de Dona Aurora, cansados, mas focados, fixaram-se no horizonte da estrada.

Lá estava.

Um carro azul-marinho, pequeno e familiar, virando a curva. Não era o carro mais moderno, mas era o carro dele. O carro de Ricardo.

O coração de Dona Aurora deu um salto, tão leve quanto uma pluma. Ela sorriu para as nuvens douradas, que pareciam ter esperado por este momento. Ele tinha vindo.

Ela endireitou-se na cadeira. Aos noventa e nove anos, com o céu a pintar o mundo de esperança, Dona Aurora esperou que seu filho viesse buscá-la para, pelo menos, uma hora de conversa. E soube, então, que as mais belas nuvens de sua vida ainda estavam por vir.



Cimarron um faroeste futurista |série oscar

Era o ano de 2075 e a Terra havia se tornado um lugar inóspito. As grandes cidades estavam destruídas e a população havia se espalhado pelo deserto. A água era escassa e a comida era precária. Os poucos recursos eram disputados por gangues violentas que vagavam pelo deserto em busca de sobrevivência.

Foi neste cenário que surgiu Yancey Cravat, um homem corajoso e destemido, que liderava uma caravana de colonos em busca de um novo lar. Ele e sua esposa, Sabra, haviam sido contratados pelo governo para liderar uma expedição ao território inexplorado conhecido como "Cimarron".

A equipe de Cravat era formada por um grupo de pioneiros com habilidades variadas, desde especialistas em tecnologia até lutadores experientes. Eles partiram em uma jornada perigosa pelo deserto, enfrentando os perigos que surgiam pelo caminho. Entre os obstáculos estavam as gangues violentas que tentavam saquear os suprimentos da caravana e a falta de água potável.

Após semanas de jornada, eles finalmente chegaram a Cimarron. A paisagem era desoladora, mas Cravat viu o potencial do lugar. Ele e sua equipe trabalharam duro para construir uma nova cidade, usando tecnologia avançada e técnicas antigas de construção. Eles criaram um sistema de irrigação que permitiu que a terra árida produzisse alimentos e construíram uma rede de defesa para proteger a cidade.

Mas nem tudo era fácil em Cimarron. As gangues violentas descobriram a existência da nova cidade e começaram a atacar. Cravat liderou a defesa da cidade, usando suas habilidades de luta e liderança para proteger seus colonos. Eles conseguiram derrotar as gangues e estabeleceram uma nova ordem em Cimarron.

Com o tempo, a cidade prosperou e se tornou um ponto de referência no deserto. Yancey Cravat tornou-se o xerife da cidade, garantindo a segurança e o bem-estar de seus habitantes. Sabra ajudou a estabelecer uma escola e uma biblioteca, garantindo que as novas gerações tivessem acesso ao conhecimento e à educação.

Cimarron tornou-se um exemplo de coragem, perseverança e trabalho em equipe. E, mesmo em um mundo pós-apocalíptico, a cidade provou que ainda havia esperança para o futuro.



Asas

Conto de Ficção-científica histórica

Baseado em um filme, enredo original no final

Era uma vez, em uma base militar durante a Primeira Guerra Mundial, dois jovens pilotos americanos que se tornaram amigos inseparáveis. Jack Powell e David Armstrong eram muito diferentes em suas personalidades, mas ambos compartilhavam a paixão por voar e a coragem de enfrentar os perigos da guerra.

Certo dia, durante uma missão, David é escolhido para liderar o esquadrão em uma operação arriscada. Antes de partir, ele pede a Jack para cuidar de Sylvia, a enfermeira por quem ambos estavam apaixonados. Jack concorda, sabendo que David confiava nele.

David e seus companheiros decolam, mas são surpreendidos por um ataque inimigo. Durante a batalha, David é ferido e seu avião cai. Jack assiste de longe, sem poder fazer nada para ajudar.

De volta à base, Jack fica devastado pela perda de seu amigo e, simultaneamente, sente-se culpado por não conseguir protegê-lo. Sylvia, que também está arrasada pela morte de David, procura conforto em Jack, mas ele se afasta, incapaz de lidar com suas próprias emoções.

Algum tempo depois, Jack recebe a notícia de que foi condecorado com a medalha de honra por sua bravura em combate. Em vez de se sentir orgulhoso, ele se sente vazio, sem saber como seguir em frente sem David.

Mas, com o tempo, Jack começa a lembrar-se dos momentos bons que passaram juntos, das risadas e da coragem que eles compartilharam. Ele percebe que honrar a memória de David significa continuar a lutar pela liberdade e a paz, assim como seu amigo teria feito.

Jack se aproxima de Sylvia novamente, e juntos eles encontram conforto um no outro, sabendo que David sempre estará presente em seus corações e em suas memórias. Eles entendem que o amor e a amizade são mais fortes do que a guerra e a morte, que é importante seguir em frente com esperança e coragem, em homenagem aos que se foram.

Segunda parte, reescrita:

"Jack, você prometeu cuidar de mim se algo acontecesse com David", disse Sylvia, com os olhos cheios de lágrimas. "Por favor, me ajude a superar essa dor".

"Eu sei, Sylvia. Eu prometi a ele. Mas é difícil para mim também", respondeu Jack, desviando o olhar.

"Eu entendo, Jack. Eu também sinto falta dele. Mas nós precisamos um do outro agora. Somos os únicos que restaram", disse Sylvia, segurando a mão de Jack.

Jack suspirou e olhou para ela. "Você tem razão. Eu estou aqui por você, Sylvia. Sempre estarei."

Com o tempo, Jack começou a se lembrar dos momentos bons que passou com David. "Você lembra daquela vez que o David me salvou de ser atingido por um avião inimigo?", disse Jack, sorrindo.

"Sim, lembro. Foi incrível", respondeu Sylvia, sorrindo de volta.

"E daquela vez que voamos juntos e conseguimos derrubar três aviões?", disse Jack, animado.

"Aquilo foi demais! Nós éramos invencíveis!", disse Sylvia, rindo.

Jack e Sylvia perceberam que, apesar da perda de David, eles ainda tinham reciprocamente e muitas boas lembranças para compartilhar. Juntos, eles encontraram conforto um no outro e seguiram em frente, sabendo que David sempre estaria presente em suas vidas. Eles sabiam que a amizade e o amor que compartilhavam eram mais fortes do que a guerra e a morte.



Oscar 1926 - Asas.

Qual filme ganhou o oscar em 1926, conte me o enredo?

O filme que ganhou o Oscar em 1926 foi "Asas" (Wings, em inglês), dirigido por William A. Wellman. O enredo é uma história de amor e amizade entre dois jovens pilotos americanos, Jack Powell (interpretado por Charles "Buddy" Rogers) e David Armstrong (interpretado por Richard Arlen), durante a Primeira Guerra Mundial.

Os dois se conhecem em uma base de treinamento aéreo e rapidamente se tornam amigos. Eles se apaixonam pela mesma mulher, Sylvia (interpretada por Jobyna Ralston), que é enfermeira no hospital militar. Quando David é escolhido para uma missão importante, ele pede a Jack para cuidar de Sylvia caso algo aconteça com ele.

Durante a missão, David é morto em combate, e Jack fica devastado. Ele retorna para casa com a medalha de honra e encontra Sylvia, mas não consegue superar a morte do amigo e acaba se afastando dela. No final, Jack supera sua tristeza e aceita o amor de Sylvia, honrando a memória de seu amigo David.

"Asas" é considerado um dos melhores filmes de guerra da era do cinema mudo sendo elogiado por suas cenas de batalha aérea realistas e impressionantes. O filme foi um grande sucesso de bilheteria na época e ganhou o primeiro Oscar de Melhor Filme em 1929.

Novo lar

— Mãe o que é asteroide? Lara cutucava a mãe, que como todo o habitante da Terra, não tirava os olhos da televisão, afinal, as notícias não eram das melhores.


"Filha você só tem seis anos, é melhor brincar e aproveitar bem os seus dias de criança."


Não entendia o porquê todos pareciam apreensivos, até que a mãe recebeu a carta. Foi um oficial do Governo que a trouxe, isto eu lembro. Apesar de ter seis anos de idade naquela época "Como não lembrar os olhos lacrimejados da minha mãe?"


"Filha você esta salva!" Ela sorriu pegou no meu colo e me abraçou.


Foi a última vez que eu vi a mamãe.


O caos se instaurou completamente na Terra, saques, arrombamentos e gritos desesperados eram ouvidos enquanto alguns privilegiados por sorteio estavam sendo guardados em bunkes de proteção. E outros jovens como eu, estavam indo passar por duas semanas de treinamento para a maior aventura da humanidade: Sobreviver.


— Vocês são crianças, todavia, também serão a esperança da humanidade. Eu só lembrava da mãe falar: "Independentemente do que acontecer, saiba que eu te amo, e é necessário você ir com eles, e nunca chore, sempre olhe nos olhos das pessoas com confiança que tudo dará certo".


As circunstâncias fizeram eu amadurecer prematuramente, também observava crianças da minha idade, serem excluídas da seleção por apresentarem comportamento inadequado. Eu era somente uma criança, mesmo passando todos os dias por psicólogos que analisavam o nosso modo de agir. Eu era somente uma criança!


Estava prestes a embarcar em uma nave espacial que iria desbravar um lugar longínquo não entendia muito do que se falava, e por que tanta a preocupação com um asteroide. Os dias estavam ficando negro isto é verdade.


Quando embarcamos, pessoas gritavam com filhos no colo querendo coloca-los no nosso êxodo. Estava vestida com uma roupa militar.


— Andem logo, já estamos atrasados ao nosso cronograma!


Eram várias espaço naves, lembro que foram cinco no total.


Não sei precisar quantas pessoas.

Só sei dizer que após estar aqui no espaço compreendi a gravidade do acontecimento. Assistido com apreensão por todos da nave. Antes de deitar naquela cápsula, e acordar já jovem.


Foi assim eu lembro:


No monitor uns cinco adultos que nos assistiam também, observavam à Terra de longe, já fazia duas semanas que estávamos no espaço. Era o tal do asteroide que estava indo a colidir ao nosso planeta Terra, no que comentavam na hora do refeitório ser o Armagedom. Entendi na prática do que se travava o Armagedom quando vi aqueles adultos chorarem e se desesperarem dizendo:


— Perda completa da Terra e somente resta nossa espaço nave.


Fomos os primeiros a embarcar e isto nos salvou, pois as outras quatro espaço naves foram atingidas por destroços e por uma certa onda, que não entendi bem do que se tratava. Nós sofremos com os destroços, todavia foi possível a restauração, em troca de vidas que se sacrificavam a cada mês que passava.


Antes de deitar naquela cápsula que eu não entendia bem do que se tratava.


O moço disse:


"Ficarão hibernando por 10 anos lembram dos vídeos do ursos que a Maria mostrou para vocês?" Maria era uma professora que cuidava de nós somente depois soube que ela era uma psicóloga.


"Quando acordarem terão atribuições aqui na Ragnarok, e serão importantes para o funcionamento do nosso novo lar."


E foram assim os meus dias:


Quando despertei daquele lugar já era uma adolescente de 16 anos, confesso que achei estranho acordar com aquele corpo. Maria já estava um pouco velha, e me explicou as minhas funções na nave. Explicou que seria a mecânica, depois de três meses de estudos tive que fazer vários reparos em diversos setores da Ragnarok, mostrou também o que eu tomei como guia para a minha vida.


A estrela guia.


— O nosso novo lar – assim falavam.


A Terra já não existia, somente lembranças eram passadas naquele telão no refeitório do que outrora fora a Terra.


Depois de um ano de atividades, agora entendendo melhor do que se travava, fui novamente para a minha cápsula criogênica, Maria sorriu ao fechar aquele compartimento de vidro e disse deste modo:


— Se vemos daqui dez anos.


E foram deste modo os meus dias.

Ao acordar aprendia novas funções e vivia plenamente naquela escuridão o ano de fixação que outrora era importante viver. Recebia várias injeções e todos os dias era analisada com os amigos. Parecíamos ratos de laboratório, tal qual dos desenhos de infância na Terra.


O médico sempre falava.


"Esta tudo bem? Vocês são a esperança da humanidade." Era um fardo muito grande ser a esperança da humanidade.


Quando despertei aos meus 26 anos.

Nós mulheres, tivemos que gerar um filho, e isto tornou-se estranho. Pois, precisava viver um ano fazendo tantas coisas, e com um peso a mais para suportar.


Éramos vinte seis mulheres.


— Sobre o Amor? Sei que existe relação entre homem e mulher, mas para nós nunca foi permitido, pois, nosso tempo era escasso e no final de um ano precisávamos voltar àquela cápsula.


"Chorei quando tive que deixar uma criança de três meses."


Confesso que lembrava da mãe todas às vezes que via aquele menininho tão lindo.


Maria já velha dizia-nos:

"Não se preocupem, ele aprenderá com o tempo o que é ser um ser humano no espaço."

E foi assim os nossos anos:


Quando tive trinta e seis;

Quarenta e seis;

Cinquenta e seis;

Sessenta e seis;

Setenta e seis;


Oitenta e seis, o tempo passou. Agora o meu corpo já não é tão jovem. Nunca conheci o meu filho, não foi  permitido. Quando chegou o meu oitavo ciclo, descobri que a Estrela guia. Cuja qual eu tanto queria chegar. Nunca seria o meu novo sol e nem conheceria o meu novo lar.


Alguns enlouqueceram no processo. Não eu.


Tive que suportar todos os anos até chegar o momento de saber. Que sim, fiz parte daquela história, e graças a minha vida e ao meu esforço. Ragnarok chegará ao seu novo lar.



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Este e mais contos Geek você encontra no meu novo blog: 

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Manuscrito de um viajante do tempo

 Meu pai sempre com uma obsessão por relógios antigos e viagem no tempo. Eu por Edgar Allan Poe. Ele um relojoeiro, de antiguidades, e eu prestes a me formar em Física.

A minha infância inteira observei meu pai dentro daquela oficina, antiga e empoeirada, montando preciosidades que não contrastam com o nosso tempo.

No projetor que era representado na mesa, assistia minhas séries. A tristeza de crescer sem um pai presente era suprida pela vida stream e também por livros, que lia no meu outro projetor holográfico, que outrora utilizava na mão.

— Filho, já vai substituir estes aparelhos obsoletos, pelos Nanobots que o governo irá disponibilizar. Ouviu Miro?

Não adiantava, meu pai estava obcecado. Ele queria provar uma teoria maluca, que teve em um sonho: Uma máquina do tempo.

Antes de ir à escola passava na frente da sua oficina, que era em um cômodo da nossa casa. Tentava um sorriso, um esboço de sentimento. Nada. Ele ficava em devaneio na frente daquelas minúsculas peças.

— Só mais um rubi encaixado nesta engrenagem, alinhada com o balanço, eu sei que é isto eu vi!

Fiquei a observar a decepção.

— Droga!

E mais uma vez desmontava para montar de novo aquele relógio de bolso.

— Eu sei que é um alinhamento, ele disse. Me olhou de soslaio e voltou a sua intensa rotina de buscar por aquela utopia.

— Deixe-o, vá estudar, até parece que esta perdendo o juízo, minha mãe interrompeu.

O estudo me tornou em um Físico. Alinhamento de prisma foi o meu trabalho de conclusão de curso. Quando retornei da capital já era homem feito e o conceito Nanobots foi implantado à população.

Era uma nanotecnologia que inseriria ao cidadão a uma Neuronet. Para isto, era aplicada na corrente sanguínea uma microscópica tecnologia através de um transmissor temporal (nas têmporas). Deste modo, tu terias a possibilidade de utilizar um sensor na pupila, que lhe traria informações advindas de Neuronet.

Agora eu era um cara moderno, estava conectado; minhas leituras e experiências estavam turbinadas!

— Meu pai? Bem, não aceitou a tecnologia, e o seu objetivo de vida, utópico, até mesmo neste tempo de progresso. Foi deslocado a um manicômio onde pessoas que não se adaptavam ao novo eram enviadas. Mas não era somente a adaptação que lhe fez ir para lá. Era a obsessão por raridade, e por um sonho que como disse era um sonho: Viajar no tempo.

Olho na mesa, permanecia naquele local o transmissor temporal que ele não aceitou, guardei no bolso, iria vender, e ganhar algum crédito adiante.

Fui a sua oficina. Olhei com nostalgia e busquei aquele relógio de bolso antigo que ele tanto trabalhara, pois iria levar comigo. Minha mãe já não estava entre nós. Precisava seguir meu rumo.

Encontrei e guardei as peças. Por tanto observar saberia montar e iria guardar para recordar.

Em casa, antes de dormir, minha obsessão por Poe continuava. Tentei dormir, mas o sono não vinha. E eu fazia várias leituras. — E como eu as fazia! Tentava entender o porquê de alguém tão talentoso nunca ter escrito um romance?

Neste instante, no meu apartamento, utilizo o meu visor óptico escolhendo um arquivo de informações, iria lidar com o relógio. Não encontrei, era muito obsoleto. Nem na Neuronet encontrava algo para fazer tal proeza.

Sentei à mesa e desmontei-o completamente. Peças minúsculas e um pequeno rubi. Lembrei-me do meu artigo. Alinhamento de prismas. "Vou montar e colocar os meus conceitos em ação como um souvenir neste relógio.", pensei. Deste modo, no meu novo emprego iria olhar para o relógio e para o meu trabalho de conclusão. Lembrarei, assim, de fatos importantes para minha vida.

Saí e busquei duas gemas pequenas. Era o que faltava.

— Agora um rubi, um diamante e uma esmeralda.

Comecei montar as peças daquele minúsculo quebra cabeça, o visor óptico ajudou, pois acessei uma lente de aumento microscópica e com muito cuidado coloquei o balanço.

Feito isso, bastava colocar o meu conceito de alinhamento de prisma em Ação. Segundo meu estudo, formular um alinhamento entre três pedras e em um momento exato de feixe de luz tornaria uma fusão de espectros, trazendo, deste modo, uma passagem temporal. Os cálculos foram convincentes, a ponto de receber nota máxima no curso. Todavia era agora que iria colocar em prática.

— Pronto! O alinhamento foi feito, um triângulo exato, montado naquele relógio. Precisava de mais cálculos para saber qual seria o momento exato do feixe de luz solar deveria reincidir naquele relógio com o meu conceito inserido nele.

Dormi. Fui ao meu novo emprego, havia muita coisa burocrática e comecei a pensar naquele relógio em casa. "Serei eu o próximo obcecado por relógios antigos e máquinas do tempo?", pensava.

— Máquinas do tempo?

Deixei o meu trabalho de lado, fui ao banheiro, acessei a Neuronet, e comecei a fazer cálculos. Revisei todo o meu artigo e fiquei entusiasmado, pareceu-me que as informações fluíram.

— Preciso visitá-lo.

E fui.

Era um local horrendo, as pessoas ficavam expostas em jaulas cibernéticas. Meu pai estava lá, mas não me reconheceu.

— Eu tenho certeza, eu sonhei, é possível, balbuciava ele.

Já em casa, triste, voltei a ler Poe, tentando esquecer a cena. Coloquei a mão no bolso, ainda estava lá o aparelho temporal que meu pai não instalou e pequenas gemas que sobraram.

Acessei a sala e voltei ao meu projeto de alinhamento do prisma.

— Era um feixe de luz, em um momento exato, era este o enigma. E tinha absoluta certeza que descobrira a charada.

— Acertei! Quando exatos ao meio dia coloquei aquele triângulo com um calculo perfeito, tanto das gemas como do tamanho em si, esperando que o que tanto estudara, fizesse efeito.

E fez.

Na parede daquela sala. Uma espécie de arco-íris abriu-se. E nele um vulto escuro. Peguei aquele relógio vintage e coloquei duas horas atrás.

— É isto!

Entrei naquele prisma e voltei para exatamente duas horas antes dos acontecimentos! Só que eu precisava ser mais preciso. Voltei ao relógio, mas dessa vez coloquei um calendário milenar e informações de localização. Sofri dias com isto, pois eram peças pequenas e uma engrenagem analógica. Tive que criar com uma impressora 3D muitas peças, até faltei ao trabalho.

— Do que importava? Era ousado e fantástico o conceito. A minha obsessão por Poe, era tão grande que a data foi no seu tempo. Ao colocar longitude e latitude, iria para o local onde queria.

Abri o prisma. Precisava me jogar, sem saber exatamente se estaria correto. Poderia morrer ao lançar-me naquela parede! Mas, se deu certo anteriormente... Precisava tentar.

E deste modo fui conhecer Edgar Allan Poe!


01


Quando me joguei naquela fenda nunca imaginei o que iria acontecer.      Estava agora em meio a um temporal de imagens e sentia meu corpo reluzir, coisas de segundos, que me pareceram horas.

Notei que estava em queda livre. Quando caí, acordei um mendigo daquele local. Era uma rua, mais precisamente um beco.

— Não se pode nem dormir sossegado!

Era noite. Iluminava a cidade algumas candeias que não representava o todo da cidade. Era um breu.

— Tu caíste do céu? Disse o mendigo que parecia bêbado. — Ah, deixa pra lá, bebi demais preciso dormir.

Meu corpo estava dolorido. Levantei e observei que a minha roupa não era apropriada, uma espécie de elastano térmica, que se adaptava ao ambiente. Precisava sair daquele local, mas com aquela roupa não.

O mendigo continuava a dormir.

Eu averiguei que meu relógio de bolso estava intacto, e no outro bolso estava com o projeto temporal do meu pai e algumas pequenas gemas extras que tinha trazido comigo. No meu tempo o diamante era manipulado, sendo corriqueiro e muito utilizado em equipamentos tecnológicos, bem como outras gemas também.

Olhei aquele mendigo fedido e entendi ser aquela, a roupa perfeita para perambular por aquele local em busca de Poe. Com muito custo acordei o tal.

— Preciso das tuas roupas. Trocaria por isto?

— Vale algum, este cristal?

— É um diamante, e dos bons, disse, aproximando-me do seu ouvido, que fedia a alguma bebida daquela época.

Tive que ficar pelado e ver aquele ser bizarro na sua intimidade. Quando ele vestiu as minhas roupas sentiu um estranhamento, pois ela aderira a pele de modo perfeito.

— Epa, coisa de bruxo isto! Disse o mendigo. Saiu com o cristal, que estaria com a vida ganha; beberia até morrer de cirrose e desfrutaria de belas mulheres.

Agora eu caminhava sem sentido certo, estava me habituando com a temperatura. Era bem estranho sentir frio e a roupa estava rasgada, suja e fedia a rato podre.

Pelos meus estudos, estava perto da casa do Poe. Meu plano era encontrar com ele, dar-lhe uma sugestão de livro, ou até mesmo oferecer-lhe a oportunidade de ir ao futuro para encontrar algo interessante para narrar, e voltar para o meu emprego chato de repartição.

Em uma taverna próxima, ouço socos, garrafas quebrando e muita confusão.    Logo depois vejo uma correria com um homem usando um sobretudo preto e chapéu da moda. Senti medo! Peguei aquela coberta, deitei no chão, me cobri e fiquei a espionar o sucedido.

Eu, com os 22 anos de idade, e olhei para o relógio averiguando a data, adentrei na Neuronet que misteriosamente funcionava, acessando meu sensor óptico e fiz alguns cálculos. Edgar Allan Poe estaria com vinte e cinco, era um jovem assim que eu encontraria.

A gritaria continuava. Parei de acessar, achei que poderia arrancar suspeitas. O tumulto estava vindo para o meu lado.

— Peguem este patife ladrão – alguém de sobretudo preto estava sendo jogado justamente onde eu estava.

Quando olhei, meu mundo que já estava bem abalado desmoronou. Eu o imaginava a partir de fotos, mas na minha frente, com um pequeno sangramento no supercílio, vi alguém muito parecido a mim.

— Poe, ladrão de cartas, vai ter que pagar — o outro dizia.

Olhos assustados agora viam duas pessoas muito parecidas.

— Bruxaria — gritou um, de longe. Ao escutarem um bater de asas de longe, todos saíram correndo.

Estávamos eu e ele frente a frente.


02


Quando os vândalos se dispersaram entendi, ao ver em um telhado próximo, um corvo com olhos vívidos que pousou e ficou a nos observar. Poe sentava na rua, colocando a mão no machucado. Tinha um olhar sombrio e assustador.

— Este animal me persegue – pegou um lenço no bolso e olhou para a ave. — Nunca mais serei o mesmo depois deste corte.

Ele me olhava, mas não sei se havia percebido a semelhança.

— O que foi? Parece que viu um fantasma! O que é isto? — Esqueci-me de disfarçar o projetil que me permitia acessar a neuronet. — És mudo ou o quê? Salvaste a minha vida, merece um rum.

Fomos a casa dele e tive outro encontro que arrepiou meus braços por completo. Um gato, com um instinto assustador, me olhou, passou as patas em mim e voltou ao seu dono.

— Parece que ela gostou de você. Ele sentou na cadeira e acendeu um cachimbo. — Fale alguma coisa, és mudo?

Serviu-me uma bebida. Em um gole só tentei digeri-la. Cuspi, no futuro não era permitido álcool, ainda mais com aquele teor. A gata preta miou e Poe, já recuperado do ferimento, riu. Eu disse:

— Meu Deus! – eu disse.

— Pelo menos não é mudo – respondeu.

— O que quer de mim?

— Sou do futuro, vim ajudar-te com o seu livro.


03


Pensei que o homem me chamaria de louco ou coisa assim.

— Como? — disse ele, tragando seu cachimbo.

— Será que até no futuro aquele cretino do Rufus fala de mim? Sou contista, não preciso escrever textos longos para deixar cravado na mente dos leitores meu conceito de arte.

— A propósito, o que é isto? Apontou para meu projétil transmissor que estava inserido na minha têmpora.

— É difícil explicar, mas trouxe um extra. Quer usar? – eu respondi.

— É uma a espécie de ópio, que causa alucinação? Pode parecer-te estranho, e a sua conversa me deixa confuso, no entanto, preciso criar, e escrevo de madrugada, não posso estar alucinado, nem sóbrio.

— Quer usar? — repeti. — Com este dispositivo poderás ter todo acesso de informação da Neuronet.

— Neuronet?

Pensei no tempo de Poe. Mesmo que brilhante seria muito complexo explicar conceitos de navegação digital.

— Use-o, parecerá uma sanguessuga fixada na sua testa num primeiro momento, depois sentirá algo estranho, e logo após a magia acontece. Com seus olhos poderá acessar informações de tempos futuros.

Poe levantou, parou de tragar o cachimbo, pegou o transmissor, e disse:

— Dê-me isto aqui, não tenho medo nem de cemitério, quiçá de uma sanguessuga, seu bruxo. E colocou-o.

Sentou naquela cadeira novamente. Sua pupila dilatou e logo após o sensor óptico estava instalado. Poe ficou em transe, o gato miava desesperado. O felino me olhou com olhos vorazes. E se aproximou me de um modo ameaçador. Poe estava degustando de todo o conhecimento de um futuro distante, e aquele gato afiando as garras naquela madeira, vindo em minha direção.


04


Quando o Gato estava se achegando, senti que a morte estava próxima. Aquele gato seria um ser maligno que cravaria suas unhas no meu pescoço por ter feito mal ao seu dono?

Allan saiu do seu transe, de modo assustadoramente natural.

— Catarine, não faça mal ao moço — disse ele. A propósito me dê o seu dispositivo de viagem no tempo, li os manuscritos que você esta escrevendo. Estava narrando a minha aventura, desde que comecei estas viagens. Realmente, seria bom conhecer o futuro com a tua bruxaria.

 Dei-lhe o relógio. Ele olhou falando...

— Tão moderno este aparelho – falou enquanto olhava o objeto. Clicou no botão, girou a coroa e foi. O gato deu duas miadas, o suficiente para voltar. Com o cabelo despenteado e com um rosto esbranquiçado. O excêntrico entoou:

— Vai embora, preciso criar.

O gato parecia um felino e o dono já estava entendendo que lhe parecia um tormento qualquer ver-se duplicado e conversar coisas totalmente sem sentido com um estranho. Retirou o projétil.

— E leve a sua sanguessuga com você.

Quando voltei, corri ler o romance que escreveu. Decepcionei-me! Com todo o conhecimento em mãos, a oportunidade de viajar para qualquer momento do futuro... O rapaz se viu motivado a narrar um fato real que aconteceu cinquenta anos depois da sua morte?

Ele era muito parecido comigo, isto me deixava intrigado.

Precisava visitá-lo mais uma vez, somente mais uma vez, para seguir a minha vida.

Ele estava lá. Eu compreendi do quem se tratava e de um modo bastante ameaçador. Agora, com a consciência em si, meu pai falou:

— Me dê o relógio, eu preciso voltar!

Era ele, meu pai era Edgar Allan Poe. Dei-lhe o relógio e ele se despediu-se de mim com um olhar triste.

— Eu? Fui preso naquele manicômio por infligir às leis da Neuronet. Descobriram que de algum modo fiquei off-line do sistema. Restando somente o tempo de colocar meus manuscritos em um arquivo criptografar e lança-lo na Neuronet. Depois veio aquela injeção...


2300 palavras

Conto de ficção científica steam punk

Autor; Waldryano


Este conto ficou em 6º lugar no concurso scfi-fi Wattpad oficial Abril 2018

Agradecimentos:

Antes de Mais nada, Gostaria de Citar.

O conto faz referência em forma de homenagem a três contos de Poe:


O Corvo

O Gato Preto

Manuscrito encontrado numa garrafa



Visitar minha mãe

Ontem à tarde fui ao cemitério onde a minha mãe descansa. E, trouxe lhe flores rosas e roxas, confesso que não eram as mais bonitas, e olhando com mais detalhes pude perceber uma centena de parasitas inquietos e pegajosos as acompanhavam em seus caules. Imaginei a voz da minha mãe com um realismo que me emocionou enormemente: 

“Não importa Daniel”

“Fica calmo, esses bichinhos nem me percebem” 

Na minha memória a vi sorrindo, satisfeita. Lembro que a limpeza era algo que o preocupava muito, então lavei o mármore, varri e limpei o prato com uma flanela. Depois fiquei um momento em silêncio junto ao túmulo. Sabe intrépido leitor, sinto um tom desconfortável em falar com os mortos.

Porém, me esforcei, afinal já estava ali, e por um coletivo habitual, antes de sair eu disse a mim mesmo que me esforçaria para agir corretamente. Foram poucas palavras, abruptamente interrompidas por um: "Bem... Até breve" Sim, eu disse poucas palavras, "O que eu teria dito a ela em vida?" da mesma forma, com o mesmo tom de voz, contendo inutilmente alguns sentimentos. Então eu imaginei de novo, para ver, o rosto da minha mãe, protetor, feliz, jovem e bonito, e... Saí, porque como você sabe eu não tenho este hábito em falar com os mortos.

*Já retornando para minha casa, silenciosamente e só, de repente, um vento impetuoso surgiu. Era frio e desconfortável, senti entre algumas janelas da vizinhança  um sussurro cortante, minha mãe surgiu nítida na minha memória, e o frio se tornou em um suor, afinal, parecia que estava na frente da minha mãe e tudo agora começava a surtir sentido. Olhei para os lados na esperança de ver outras pessoas, e tirar-me daquele dejavu assustador. Não encontrei. Vi as formigas andarem pelo caule de uma árvore, que demonstrava estar morta.*

Apressei o passo, e o arrependimento de ir a pé naquele lugar inóspito fez eu concluir: "Preciso vir vê-la mais vezes."

*Ampliado e traduzido com reescrita criativa* "Conto: Blanca"  por: Waldryano.

©Daniel Cabaza < https://albalearning.com/audiolibros/varios/cabaza_blanca.html >

Ligeiramente Grávida

Ela o conheceu, foi namoro de olho. Os olhos dela reivindicavam  ele, porém ele tinha outra.
Todavia, os olhares quando se cruzavam não respeitavam convenções. Eram olhares libidinosos envolto ao pecado.

Não deu outra, ela tornou-se amante daquele senhor. A idade madura sempre lhe instigou o desejo.

A figura paterna lhe faltou na infância. Daí o desvio por homens mais velhos,  já passará dos vinte, não era boa coisa ficar solteira, entretanto era ele quem ela tanto queria e quis.

Tornou-se amiga da galhofa, era o modo mais conveniente de estar sempre com ele.

A mãe e o pai arranjaram lhe um pretendente. Moço novo. Moça nova não pode passar dos vinte, sem casar, era de lei na cidadezinha.

Sem outra opção aceitou. O noivo agora era pacato e acreditava na santidade da moça.

No entanto, era ele o que deixava na lascívia do pecado.  O senhor homem casado. O circo estava formado.

A melhor amiga, a galhofa.
O noivo, o pacato.
O pai e a mãe, não sabem de nada para eles a filha era inocente.

Ele e ela num fim de tarde qualquer, rolando na cama, afinal, bom de cama os dois eram.
Após terminar o sexo, ele como de costume nú, peito cheio de pelos, ascende um cigarro e fica a contemplar o teto daquele hotel barato.

Ela morde os lábios, precisava lhe contar.
Ele puxa ela para o seu peito e disse de modo mentiroso um: Eu te amo. Na verdade estava com desejo de um segundo round.

Ela chora.

Ele pergunta o que foi.
Ela diz:

— Fiz o teste, pensei que era alarme falso mas não foi. Estou grávida.


Como eu a Conheci

Como eu a Conheci
Waldryano
♦ COMO EU A CONHECI ♦
Sempre gostei do Mar. Içar a âncora e debruçar-me em uma nova aventura. Um coração selvagem e indomável foi o meu. Mas tive que tomar uma decisão. Olho para a minha velha e querida Amélia na sala e sinto uma felicidade.
Em Nova York, hoje, faz muito frio. Nem gosto de olhar para a janela, prefiro não ver a referência de algo que eu amava e deixei para trás, um grande aquário. Olhei para Amélia, que sorriu, como sempre tricotando, desta vez um pulôver. Como eu a amo e não me arrependo da escolha que fiz.
***
— Capitão, capitão! Eles estão atacando.
Era a tripulação da Fênix Negra que estavam nos perseguindo. Mandei uma comitiva negociar, pois o tesouro foi encontrado por nosso navio e o mapa havia sido decifrado por mim, logo, nos pertencia. No entanto, éramos um numero reduzido e até encontrarmos a ilha da garganta cortada tivemos que passar por várias bifurcações. O navio, por conta disso, precisava ser leve e optamos por levar pouca carga e tripulantes, o que nos fez pagar um alto preço. Mas de outro modo não seria possível.
Olhei para o meu fiel amigo ao lado e quis entender como, exatamente, eles descobriram nossa rota e o nosso navio. Era muito estranho.
A estibordo veio mais uma rajada de tiros e com eles piratas adentravam o navio escalando por cordas. Fomos tomados, pelo visto a oferta não foi boa para eles, não quiseram uma parte do nosso tesouro em moedas de ouro, mas exigiram o tesouro por completo.
Empunhei minha espada e lutei bravamente, tentando de todos os modos proteger aquele navio. Depois de rendido, entendi de quem veio a informação da rota e de todo o resto: dele, o meu fiel amigo.
Agora eu era um prisioneiro dentro daquele navio pirata, e foi naquele local inóspito que a conheci.
— Qual é o seu nome?
Ela me olhou. Estava cansada, com as roupas rasgadas e os braços com arranhões. O serviço naquele local era para homens fortes, não para uma bela moça simples e delicada como ela.
— Do que importa um nome se estamos todos mortos?
Fui até ela e prontamente a ajudei.



— Enquanto há vida, haverá sempre esperança.
Veio um carrasco estalando um chicote no chão do convés demonstrando que precisávamos remar. A alimentação era precária e o calor intenso, condições desumanas. Em certo momento, observei que o carrasco dormia, era o momento de agir. Ela me olhou e nossos instintos funcionaram perfeitamente. Apesar da fraqueza, com uma sutileza inexplicável ela retirou a chave da cintura do pirata malvado. Eu a ajudei, pois precisávamos ser rápidos. E assim fomos.
— Vamos pegar um bote tripulável e dar o fora daqui — ela disse, já para fora do porão daquele navio.
Ela estava certa, era o mais sensato a fazer.
— Não, preciso recuperar o meu tesouro!
— Que história de tesouro, rapaz... Você precisa se salvar! Você não conhece estes piratas sanguinários, eles são capazes de tudo...
E ela puxou a minha mão e adentrávamos atrás de alguns barris de rum. A cena era bizarra, pensei em certo momento ser merecida. O meu fiel ajudante, aquele que me traira, estava na prancha caminhando rumo ao mar.
— Pelo amor dos deuses dos mares, não faça isso comigo! Eu te ajudei, disse a rota e onde estava o tesouro.
— O momento é agora — ela alertou. — Vamos pegar um daqueles botes de fuga e zarpar daqui. A propósito, sou Amélia.
Eu precisava ver, o traidor estava sendo encurralado cada vez mais para a ponta daquela prancha de madeira.
— Vamos logo! Você sabe de que são povoadas estas águas não é? Seu amigo não terá muita chance, mas nós teremos. Ou não me chamo Amélia.
Ela era agiu, minha salvadora sabia muito bem como descer aquele bote. Estávamos livres, ambos fugitivos em meio ao mar, e de longe escutei o grito de socorro. Era ele sendo jogado a estibordo, e como Amélia disse, as águas eram profundas e povoadas de tubarões, a cada remada entendia isto, pois as barbatanas eram visíveis.
— Precisamos salva-lo.
— Precisamos nos salvar — ela disse. — Ele fez a escolha sua, não é? Se estava na prancha, coisa boa não deve de ter feito.
Foi triste ver o preço da traição naquelas águas, que torridamente, por instantes, tornaram-se vermelhas. De fato, como disse Amélia, foi mesmo o melhor momento pra uma fuga, pois todos se divertiam distraídos.
— Remamos, senhor...
— Meu nome Enzo.
— Remamos, Senhor Enzo. A propósito, tenho um segredinho para lhe contar.
Ela abriu umas madeiras falsas e embaixo brilhou de modo dourado naquela noite. Era uma quantia considerável de moedas de ouro. O restante? Tive que aprender a domar esta pequena. Remamos até uma ilha deserta, nosso paraíso, onde aprendemos a nos amar. E odiar, por que não?
Quando lá, aprendendo a conviver um com o outro. Ela me contou que existia um lugar, para onde estávamos indo, terras distantes sendo povoadas. A pequena era uma ladra e cansara daquela vida; já eu, um capitão, precisava aprender a comandar um só coração: o dela. Em uma linda manhã fomos resgatados, aquele ouro não nos servia para nada naquela ilha deserta, mas serviu para me tornar o maior bancário daquela cidade, que cresce na velocidade das locomotivas. Meus filhos e netos são pessoas importantes, e Amália acaba de terminar mais um pulôver de um netinho.
Ela olha para o meu semblante, que estava a contemplar aquele aquário. Com o cansaço da vida ela se levanta, os seus olhos são exatamente iguais aos dos que a conheci.
— Vamos meu velho, você fez a melhor escolha. Nossos filhos e netos são tudo que temos, e você e eu aprendemos a domar nossos instintos aventureiros.
O netinho vem me pedir a benção para ir dormir.
— Vovô, vovô! Conta mais uma vez aquela história de piratas.
— De novo? — disse Amélia. — Sejam rápidos!
Eu contava para ele, demonstrava meus sentimentos reais, a história parecia fantasia, mas era real.
— Vovô, como que pode ter acontecido isso?
— Quer saber um segredo — cheguei bem pertinho dele. — Eu e a vovó estávamos lá.
♦ RUMO AO MAR ♦
A neve que estava ameaçando a cair finalmente deixa as ruas desta grande cidade alvas.
— Vó, o vovô não chegou ainda? — questionava meu netinho lindo, que estava embaixo das cobertas esperando Enzo para contar-lhe uma história para ele dormir.
— Não chegou querido, acho melhor você dormir.
Apaguei a vela e fui ao meu quarto, queria tricotar ainda hoje um cachecol para outra netinha. Fico a escutar os movimentos no quarto do meu neto. Vou a cama dele dou-lhe um beijo.
— Vó, conta uma historinha, eu não consigo dormir...
Será que eu devo contar a minha história a ele?
Acendi um castiçal de velas e peguei da gaveta uma moeda, que guardara de recordação. Por que não contar? Ele é uma criança, logo esquece.
— Está vendo esta moeda? — Ele olha com fixação. Brilhava, pois era ouro. Confirmando-me com um sim.
Coloquei na sua orelha e a fiz sumir. A criança ficou surpreendida, e fiz a moeda reaparecer na outra orelha.
— Nossa, vó! Isso é uma mágica?
— Não, querido neto, é a agilidade. — Por mais que agora a minha agilidade se resuma a tricotar, mãos inquietas precisam de uma ocupação.
— Vovó, conte a sua história, como o vovô contou. Conta. Conta, conta!
— Será?
Os olhos dele vibravam, queria saber a minha verdadeira história. Eu precisava contar, pois a idade já era avançada e os olhos já cansado, e estava naquele quarto o meu querido netinho querendo ouvir e o Enzo que não chegava.
— Então sente-se na cama, pois a história é muito legal. Contarei como eu me tornei uma tripulante do Fênix Negra.
***
— Amélia, alimente-se bem, pois o teu noivo não gosta de osso — dizia a minha mãe colocando a sopa naquela cumbuca de madeira.
Morávamos na Europa, em uma cidade portuária: Lisboa. Nossa função era fabricar botes. O meu futuro já estava traçado: casar-me com o açougueiro da vila. A idade já estava próxima, e o meu desespero também.
Sempre admirava àquela imensidão do mar; sentia que ele me chamava. Todas as vezes que passeava com a minha irmã era assim, sonhava em desbravar aquela imensidão. Agora passeávamos por uma feira de frutas, eu e ela.
— Ainda bem que o seu casamento esta chegando, Amélia. Irá casar com o melhor açougueiro da cidade!
Ela contava e me lembrava daquele ser repugnante, gordo, grande, que fedia a carne. Eu poderia até ter dinheiro, mas teria de suportar um balcão de açougue, e um cheiro fedido a vida toda. Não! Se pudesse escolher, queria cheirar a peixe em uma embarcação.
— Por que é assim? — disse para ela, mordiscando uma maça.
— Você não toma jeito. — Ela me olhou surpresa. — Tem que pagar pela maçã.
Eu continuei a mordiscar e não me importei com a repreensão dela, minhas mãos tinham vontade própria. Por que eu deveria de me casar com quem meus pais querem? Não posso escolher alguém, e não posso viajar e desbravar este mundo?
— Olhe! — Mais um navio saía do porto adiante. — Isto sim que é vida! Viajar conhecer lugares novos. Você já ouviu falar que há lugares novinhos do outro lado deste mar?
— Pare de sonhar e aceite de bom grado a vida que Deus lhe deu...
— Fale para a mãe que vou passear e já volto pra casa. Diga qualquer coisa, que fui comprar cordas... Coisas do tipo.
Minha irmã me olhou e concordou. Sabia que era voto vencido. Eu fui ao porto, sentia a água batendo nos diques e também aquela sensação de maresia. Algo aconteceu, observei uma movimentação estranha, era umas pessoas mal encaradas, marinheiros sendo recrutados.


— Eles estavam indo para uma taverna. — Compreendi. Peguei um cachecol preto que vi em um varal e um chapéu que observei nas redondezas, e estava preparada para assuntar, foi o que fiz.

Era no centro daquele lugar que cheirava mal, e bastante empoeirado, que observei o que me pareceu um Pirata. Tinha uma fisionomia horrorosa, no entanto era respeitado pelos demais.
— Vamos sair hoje à noite com o Fênix Negra, tenho a informação que um certo Capitão Enzo decifrou o mapa do tesouro da ilha da Garganta Cortada.
Um marujo que ainda não tinha sido recrutado disse:
— Esse tesouro não passa de uma lenda.
O Pirata que parecia ser o chefe daqueles bandidos chegou de modo assustador nas orelhas do marujo atrevido.
— Você esta me chamando de mentiroso? — O jovem rapaz ficou bastante assustado, sentiu que as calças estavam aquecendo e veio o liquido morno, que fizeram todos darem risada.
O Capitão pirata pegou-o pelo pescoço e ele, desesperado, tentava se soltar. Depois o Capitão soltou-o dando uma gargalhada.
— Leve-o para descascar batatas!
Quando dei por mim, eu já estava no meio daqueles recrutados, pigarreava, e abaixava o chapéu, a minha mão fez a limpa de vários bolsos. Era a chance de me livrar de um casamento arranjado.
Com os piratas daquele navio, tentava disfarçar de todos os modos a minha condição de mulher, tentava desenhar uma barba mal feita, colocar enchimentos nas calças, e principalmente acostumar com o navio. Vomitava, entregando a minha condição de estranha. Por várias semanas tentei de todos os modos disfarçar.
Um dia um pirata qualquer pegou implicância comigo, me chamava de mariquinhas. Acabei como o marujo das batatas. Navegamos e em certo momento descobriram a minha condição de mulher. Eu era uma moça bela, então me levaram para o Pirata chefe, tão asqueroso quanto o açougueiro. Ele que não pensasse que eu iria me deitar com ele coisa do tipo. Juntei o meu melhor catarro, aquele bem esverdeado, e cuspi na cara dele.
Foi o suficiente para ser presa, ajudava na remada daquele navio com mais uns escravos que não falavam a mesma língua que eu.
— Você acha aqui que a Amélia, não conseguiria se soltar daqueles grilhões?
Toda a noite eu saia, e descobri um grande tesouro em moedas. Roubava todos os dias um pouquinho para não chamar a atenção e coloquei em um bote tripulável. Voltava para a minha prisão e esperava pacientemente o momento exato de fugir daquele lugar.
Quando vi, meu netinho já estava dormindo, precisava contar a história, nem que fosse pra mim mesma, peguei a moeda e coloquei na caixinha em cima da estante, enfiei as agulhas no novelo e fui deitar, demorou um pouco chegou o meu amado Enzo, puxei-lhe a orelha.
— Eu não disse que aquela história de prancha, sangue tórrido no mar, assustaria nosso netinho? Hoje ele não conseguia dormir! — Ele me abraçou.
— Calma ele não é mais um bebê, ele será um aventureiro igual a nós!
♦ DE VOLTA AO MAR ♦
Estava tudo certo para a nossa Viagem de férias. Iríamos à Lisboa, pois Amélia queria ver as irmãs.. E eu? Queria ver o mar novamente. Um Capitão aposentado e uma ladra, que se tornou a melhor mulher deste mundo, cinquenta anos juntos. No entanto, a lacuna existia, ela queria voltar a sua terrinha. E eu? Queria também voltar a minha Inglaterra, visitar. Mas os negócios de um bancário na cidade de Nova York, não param. E as minhas férias eu poderiam prolongar? Deixei tudo nas mãos dos filhos.
Agora viajar. Enzo e Amélia de volta ao mar!
— Tudo pronto Amélia?
— Sim, vou levar isto, isto e isto... Vários novelos de lã e algumas agulhas também.
— Ah claro, minha recordação. — Foi até a caixa em cima da estante e pegou a única moeda que sobrara do nosso tesouro, que nos fez ricos naquela cidade.
Estávamos saindo. Cortava o meu coração não o leva-lo ao mar. O meu netinho sempre grudado conosco, mas foi à decisão dos pais, não poderíamos interferir.
***
— Tem certeza que a viu? — disse um senhor de meia idade a uma jovem bela de cabelos escuros, com uma roupa bem colada ao corpo que lembrava escamas de peixe, só que era uma espécie de tecido que parecia couro.
— Sim pai, está nesta casa, nossa investigação chegou a ela. A senhora a guarda bem aqui.
Aquela moça estava observando a casa através de um binóculo, nem a neve deixava-a desatenta. Certo dia, quando a senhora contava uma história ao neto, ela observou. Era a moeda que tanto procurava. A última moeda que precisava.
Foi a um banquinho subiu para pegar na estante, onde viu a caixinha. Ao abri-la, a surpresa... Estava vazia!
— Não pode ser! Estava aqui eu juro, pai.
Ela colocou as mãos na cabeça, parecia transtornada. Olhou para a mesa e um recado estava escrito num papel:
"Fomos viajar, caso mude de ideia embarcaremos às nove horas no porto de Manhattan."
Pegou o papel e amassou. Precisava se apressar. Olhou para o lado, viu vários peixes no aquário. 
— Vamos leva-los, não merecem ficar aqui. — Colocou os em um jarro que outrora fora de suco e saiu com aquele senhor.
No navio, o velho capitão fez questão de conhecer a tripulação, e apesar de viajarem na primeira classe daquele navio de cruzeiro, aonde iriam para Lisboa, Enzo quis conhecer o capitão do navio e logo a amizade
Amélia olhava para o final do porto na esperança de o vê-lo.
Ela estava feliz, pois iria ver as irmãs com as quais se correspondia por carta, mas triste, pois duas coisas já lhe sucediam: Deixar seu querido netinho que amava o mar e não poderia ir na viajem; e também aquela ânsia que não conseguia controlar.
— Ele apareceu!
Gritou Amélia, o Velho Enzo deixa o capitão de lado e desce para recebê-lo.
— Não teve jeito, pai, leve-o. Não vou tirar esta chance da vida dele de conhecer o mar!
— Oba, oba! — disse o netinho empolgado e Feliz.
Já há algumas milhas de distância, o velho Enzo explicava ao neto sobre aquela rota que estavam fazendo.
— Olha, em tempos passados, foi exatamente esta rota que fiz com o meu navio Falcão.
Já aguçava a imaginação do neto, o desenho era bem detalhado.
***
A moça desamassou o papel e perguntou ao local de informações sobre tal navio, disseram lhe que já havia partido.
— Droga, chegamos tarde! — exclamaram.
— Pai, precisamos daquela moeda, e hoje.
— Calma filha, vamos conseguir encontrá-los.
Os dois saíram da vista de populares. A moça lançou os peixinhos ao mar.
— Crueldade com vocês, companheiros, ficar aprisionados — disse ela aos peixes. — Nadem, sintam a liberdade.
Logo após ela tocou os pés no mar, então a calda surgiu. E ele, quando tocou no mar, a calda e o tridente se transformaram.
— Precisamos ser rápidos, Selena, hoje é o nosso último dia!
— Sim, pai! A nossa existência depende daquela moeda!
***
— O dia que o navio pirata Fênix Negra te atacou, vovô?
— Garoto esperto — disse ele olhando para o neto.
Amélia estava um pouco indisposta, agora participava da conversa. Chamou o neto para ver os golfinhos e contava a ele que a viagem seria de meses, precisava ter paciência, pois iriam conhecer um lugar maravilhoso: A Europa.
O avô sempre o arrastava e contava sobre os locais daquela rota. Certo dia o avô chegou e falou ao neto:
— Estamos muito perto da ilha da Garganta Cortada, o lugar onde encontrei o tesouro.
— Vovô, o que o Senhor fez com tantas moedas de ouro, quando chegou à Nova York?
— Na verdade, somente uma moeda do meu tesouro me restou, o restante era tesouros que a sua avó conquistara no Fênix Negra.
— Esta? — Mostrou ao avô a moeda e nela havia uma insígnia: Uma sereia.
— Bem esta! Não era para estar nas coisas da sua avó?
— Minhas mãos também são rápidas, vovô — disse o neto.
Os dois foram à proa do navio. Começaram a olhar ao horizonte, a noite estava chegando e um estranho nevoeiro também. A tripulação em sua imensa maioria estava no interior da embarcação.
— Muito estranho este nevoeiro — disse Amélia ao chegar. — Entrem, e principalmente você, pequeno, sabe muito bem que pode pegar um resfriado.
Ao horizonte, três golfinhos deram um pulo na água, mostrando suas caldas. O netinho ficou olhando fixamente aquilo. Depois, algo que ele não sabia precisar também pulou mostrando a cauda. O navio começou a balançar.
— O que é aquilo? — gritou o netinho.
O avô já ouvira falar daquele nevoeiro estranho. Amélia também. Aquela era uma sereia e estava começando a entoar uma canção. Enzo a reconheceu e sabia perfeitamente o que aconteceria.
— Depressa, fechem os ouvidos.
— Mas vô, é tão linda esta canção — o netinho falou.
— Rápido, faça o que o seu avô está mandando — inquietou-se Amélia.
O canto da sereia deixou toda a tripulação adormecida. Os dois "peixes" se tornaram seres humanos e estavam subindo a proa do navio.
♦ UMA IMPORTANTE DECISÃO ♦
- Cinquenta Anos Atrás-
As ondas batiam no rochedo, eu estava com ela, abraçando-a, olhando o pôr do sol.
— Peço que veja mais uma vez, Selena, mais uma vezinha o mapa.
Já havia olhado aquele mapa e precisava ficar calada, era algo muito importante ao meu povo e não poderia contar.
Enamorei-me por aquele rapaz: Um Capitão.
— Só mais uma vez! — Ele olhou-me com aqueles olhos que penetravam o meu ser.
— Olhe, Enzo... Este mapa é uma canção.
— Uma canção?
— Sim. Veja este relevo. — O capitão começava a expor o mapa a linhas imaginárias e parecia mesmo uma partitura escondida.
Ela cantou. Era uma canção antiga do reino de Atlantis. Ele escutou maravilhado.
— Eu não conheço o final, pois é um dialeto que nunca ouvi falar.
O Capitão sabia da condição de Selena — ser uma sereia —, mas gostava dela e todos os dias, ao entardecer, encontrava com a sua namorada. Certo dia ganhou em uma aposta de cartas o mapa de um tesouro indecifrável. No meio daquele mapa havia desenhado uma moeda de sereia.
Agora namorava uma sereia, tanto tentou que aprendera a canção e cantarolava pra lá e pra cá, no navio, no convés... A letra era meio estranha, sem sentido. O namoro com Selena precisou ser interrompido, pois o Capitão estava sendo pressionado pelos pais a noivar com uma jovem burguesa.
— Como explicar que me enamorei por uma sereia?
Terminaram, cortou o coração de Selena, nunca superou tal decepção. Ao Capitão, o noivado não deu muito certo, logo ficou só. Selena o via na distância do oceano. E daquele namoro de final de verão restou uma canção.
— Uma canção?
Como um passe de mágica o Capitão entendeu que era uma coordenada. Só que era estranho. O local parecia não existir. Era além de uma enseada. Ele tomou uma pequena embarcação e foi.
Uma neblina, um local até então desconhecido. Os tripulantes ficaram estarrecidos. O capitão passou e apareceu a ilha da Garganta cortada, como diziam as lendas. Ele continuou a cantarolar e com uma bússola em mãos ia guiando-se pelo instinto.
Era dentro de uma gruta. Ele entendeu que o tesouro estaria naquele local, dentro de uma lagoa. A juventude e a prática lhe fizeram chegar sem problema nas profundezas daquele lago e um reflexo dourado o instigou a ir além.
— Um baú com magníficas moedas de ouro com a insígnia de uma sereia!
***
O pai de Selena a ouviu cantarolar a canção proibida.
— Onde você ouviu esta canção?
Ela se fez de desentendida, fazendo graça com a cauda.
— Não sei, ouvi por aí.
Pressionada, ela confessou tudo.
— Não pode ser! Você cantou até o final para ele?
Ela lembrou que não sabia o dialeto antigo.
— Você não sabe, pois ninguém deveria saber.
O final dizia:
♪ Retirando o nosso tesouro, a chave será desfeita, um mundo será aos pouco destruído, acabando com a nação eleita. ♪
O pai de Selena sentiu uma pontada no coração. Olhou para o lado, e viu uma sereia sumir.
— Não pode ser! O tesouro foi descoberto! Ele não pode sair da Ilha da Garganta cortada.
Ambos nadaram com a maior velocidade permitida, foram averiguar. Realmente tinha sido levado. As moedas brilhavam de modo estranho na presença de sereias. E era este instinto que os fizeram chegar ao navio Fênix Negra.
Ela cantou e todos os tripulantes do navio adormeceram. O Tesouro estava recuperado e o mundo de Atlantis salvo. Mas das mil moedas deste tesouro faltava uma...
***
Estava a subir ao navio, ela que outrora foi meu primeiro amor, Selena. Será que ela me reconheceria já velho?
Os dois novos tripulantes daquele navio disseram:
— Vocês tem algo que nos pertence.
Ela o olhava tentando lembrar.
— É você?
— Sim, sou eu: Selena.
Amélia olhou a cena sem compreender do que se tratava.
—Você é uma sereia? — perguntou o neto.
Os dois seres do mar olharam para o neto.
— Precisamos da sua ajuda, capitão Enzo. — O pai de Selena fez um gesto com o tridente e a moeda saiu flutuando do bolso do neto, indo até a mão daquele senhor que parecia sério, ou seja, lhe remetiam medo.
— Precisamos que você coloque o tesouro exatamente onde o encontrou. O tesouro da garganta cortada deve ficar onde está. Todas as moedas, inclusive esta.
O tesouro que fez Enzo e Amélia se tornarem pessoas bem sucedida não provinha da ilha da garganta cortada, era outro. Amélia recolhera aos poucos alguns tesouros e escondia na embarcação, esperando o momento exato de fugir daquele navio. Do tesouro, só restou ao Capitão uma moeda, que fez com que, aos poucos, toda a população de Atlantis sumisse. Restando apenas o Rei e a princesa daquele local mágico.
— A minha filha foi generosa e te mostrou uma canção antiga, você foi perspicaz e descobriu como chegar ao nosso elo com este mundo. No entanto, minha filha não lhe contou que o tesouro nunca poderia sair da ilha.
— Enzo, volte e devolva onde tirou o tesouro.
Amélia consentiu, mesmo não gostando muito da ideia se compadeceu da situação. O neto entusiasmado com a ideia de aventura, falou:
— Posso ir junto? Posso? Posso?
— Tudo bem — respondeu o pai de Selena. — Só que o seu avô voltará a ser jovem, com a mesma idade que tinha quando retirou o tesouro, é necessário, pois são águas profundas. E você, se quiser acompanha-lo, será jovem também.
— Oba! — gritou o menino.
— Podem ir, eu cuido desses dorminhocos aqui. Tenho bastante linha para tricotar — disse a avó Amélia.
Ao passe do tridente, ambos estavam jovens novamente, navegaram com o pequeno navio Falcão que permanecia naquele local esquecido. Deu tempo do Capitão mostrar o navio pirata Fênix Negra e a tripulação, todos estavam dormindo.
— Era mesmo verdade, vô!
E conseguiram colocar o baú com as moedas naquele fundo de lagoa, dentro da gruta.
Ao terminar, Selena pegou nas mãos do Capitão Enzo e disse:
— Fique, eu lhe imploro! Vivamos para sempre aqui. Eu o amo!
E, novamente, o capitão teve que tomar uma importante decisão...
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