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De repente 80

De repente 80

Eu era, aos 25, um corte. Um corte fino e exato no tecido frouxo do mundo. Eu me movia com a urgência do sintetizador, rápido, brilhante, e odiosamente seguro de que a vida me pertencia em sua totalidade tonificada. Meu mullet era o reflexo de uma era de poder desnecessário; minha esbeltez, a muralha contra o tempo.

Envelhecer. A palavra me repugnava. Era o cheiro de mofo da inação.

Eu olhava para o Senhor Ambrósio, o zelador do meu arranha-céu de vidro. Ele rastejava pelas superfícies, varrendo poeira que não me importava, e eu sentia uma impaciência física, uma coceira na garganta. "Ambrósio, por Deus! Você é um caracol! A lentidão ofende a minha pressa," eu vociferava, sem lhe dar a dignidade de olhar em seus olhos turvos. Eu era a velocidade, e ele era o estorvo.

Naquela noite, eu despenquei no sono, exausto pela minha própria juventude insaciável.

A Estranheza Nua

O despertar. Ah, o despertar não foi um abrir de olhos, mas um desabamento interno. Não foi um erro no quarto, mas um erro em mim. Eu sou, ou fui, aquele que se moveu. E agora, o que me movia era a hesitação.

Tentei erguer o braço. A pele. A pele que eu conhecia, lisa e tensionada sobre o músculo, havia se transformado em um pergaminho solto, manchado por aquilo que só podia ser a geografia de anos não vividos. Minhas mãos... Elas não eram mais ferramentas precisas, mas garras trêmulas de ossos salientes. Eu não conseguia controlar o tremor, era a vida desobedecendo-me.

A voz que saiu da minha garganta era um lamento seco, um som que me ofendeu no mais profundo da minha vaidade. Não era a minha voz de comando, mas o resmungo de quem pede silêncio.

Eu me arrastei até o espelho, essa traição cotidiana. E lá estava ele: um velho. Com o rosto cheio de rugas profundas, sulcos que guardavam lágrimas que eu nunca chorei. A fragilidade era tão densa que parecia pesar mais do que o corpo forte que eu abandonara.

Eu era eu, a mente de 25 anos faminta por velocidade, presa neste invólucro que só pedia o canto quieto da desistência. Não houve o amadurecimento que a idade traz, apenas a imputação de rugas e dor. Minha alma juvenil estava em guerra civil com este corpo estrangeiro.

Quem sou eu se a minha pele me nega? A vida me deu o corpo que eu desprezava para que eu aprendesse a sentir, e não apenas a usar. Eu sou a minha pressa presa na lentidão alheia.

O Câmbio da Dissonância

Minha jornada de herói não começou com uma espada, mas com uma dor lancinante no joelho ao tentar ir ao banheiro. Cada centímetro era uma negociação. O que o meu corpo de 25 faria em um segundo, este exigia uma meditação, um cálculo de risco: o risco da queda, o risco da fratura.

Eu tentei ler um livro. O foco era fugidio. Eu tentei abrir a geladeira. A força necessária para girar a tampa do pote de geleia era a mesma que eu usava para levantar peso na academia. E agora, eu estava derrotado por um pote de geléia. A humilhação era física, palpável.

E então, o chicote da introspecção. Eu não estava apenas velho, eu estava sendo o velho que eu havia insultado.

Lembrei de Ambrósio. Lembrei do seu tremor, da sua lentidão. Não era um defeito de caráter, era um estado de ser. Eu havia sido cruel porque não podia conceber a fragilidade. Eu não entendia que a lentidão é a única velocidade possível para quem está constantemente à beira da exaustão. Ele não andava devagar; ele negociava a distância.

Eu passei dez dias nesse purgatório de paciência forçada. A solidão era absoluta, pois ninguém via o jovem por trás dos olhos cansados. As pessoas falavam comigo com uma paciência excessiva, como se eu fosse uma criança grande e lenta. O meu eu de 25 anos queria gritar: Eu sei a resposta! Eu estou aqui!, mas o corpo só me permitia um murmúrio rouco.

Eu estava tentando pegar o controle remoto, que escorregara para o chão. A frustração adolescente me incendiou. Eu precisava da música, eu precisava do ruído para me provar que eu existia. Tentei me abaixar com a pressa que a minha mente impunha.

O corpo, porém, tinha suas próprias leis. Veio o teto giratório, o baque surdo, e a escuridão absoluta.

O Regresso e a Suavidade

O cheiro de hospital, familiar e distante, me chamou de volta. Os bipes rítmicos. Eu abri os olhos. O teto era branco, imaculado, e eu estava de volta.

Minha mãe chorava ao lado da cama. "Dez dias em coma, meu filho, por uma queda estúpida na porta de entrada!"

Senti meus braços. Eram os meus. Fortes, lisos, o contorno exato da minha juventude. Mas a sensação de ser jovem estava quebrada. Não era um poder; era uma dádiva silenciosa.

Eu não sonhei; eu fui o outro.

Quando voltei ao escritório, tudo parecia lento, mas não por impaciência minha. O mundo se movia em seu ritmo normal, mas eu estava lendo as entrelinhas. Vi o Senhor Ambrósio, a coluna curvada sobre a vassoura.

Parei ao lado dele.

"Senhor Ambrósio," minha voz era a minha, forte, mas estava temperada com uma doçura que eu nunca soubera que possuía. "Sente-se, por favor. Eu insisto. Deixe-me fazer isso. É... é um bom exercício para mim."

Peguei a vassoura. Abracei o cabo. Senti o peso do objeto de trabalho, e me movi devagar, como ele faria. A vassoura era um prolongamento do corpo, e eu varria a poeira com o cuidado que ele varreria o tempo.

A surpresa nos olhos do velho era uma pergunta que eu não precisava responder. Eu não havia adquirido anos, mas havia aprendido a ler o tempo em seu corpo. Eu havia me tornado, enfim, um ser que sente, e não apenas um corte fino na pressa da vida. E bastou essa lentidão emprestada para que a minha juventude, agora, se tornasse, pela primeira vez, verdadeira.




A metamorfose uma releitura

 Um conto curto baseado em

 "A Metamorfose" de Franz Kafka:



Um dia, ao acordar de sonhos inquietos, João se viu transformado em um inseto gigante. Ele olhou para seus muitos pés e tentou se mover, mas tudo parecia estranho e desconfortável. Ele se perguntou como seria sua vida agora, como ele seria capaz de enfrentar sua família e a sociedade.

Sua família ficou horrorizada com sua aparência e o trancou em seu quarto. João tentou se comunicar com eles, mas tudo o que saía de sua boca eram sons estranhos e incompreensíveis. Ele se sentiu sozinho e abandonado, incapaz de compreender como seus entes queridos não podiam ver além de sua aparência.


Com o tempo, João começou a se adaptar à sua nova forma. Ele aprendeu a se mover com mais facilidade e até mesmo a apreciar algumas das coisas que antes lhe causavam repulsa. Ele descobriu que agora podia escalar paredes e ver o mundo de uma perspectiva diferente, o que o tornava capaz de ver beleza onde antes não via.

Mas sua família nunca conseguiu aceitá-lo como ele era agora. Eles o mantiveram trancado em seu quarto e eventualmente pararam de lhe trazer comida. João sentiu a tristeza e a solidão o envolverem mais uma vez. Ele se perguntou se algum dia seria aceito novamente, se sua aparência o tornaria sempre um monstro para aqueles que o conheciam antes.

João morreu sozinho em seu quarto, esquecido por aqueles que ele mais amava. Mas mesmo em seus momentos finais, ele se recusou a odiar ou culpar aqueles que o rejeitaram. Em vez disso, ele escolheu amá-los e perdoá-los, sabendo que a verdadeira transformação estava em sua atitude e não em sua aparência.


----------Interpretação deste conto-----------


O conto é baseado na obra "A Metamorfose" de Franz Kafka e apresenta uma narrativa sobre a transformação de João em um inseto gigante. A metamorfose pode ser vista como uma metáfora para a alienação e a desumanização da sociedade moderna.

João representa o indivíduo que se sente excluído e incompreendido em sua própria família e sociedade. Quando ele se transforma em um inseto, sua aparência torna-se estranha e desconfortável para aqueles que o cercam, o que pode ser interpretado como a alienação social que as pessoas enfrentam quando não se enquadram nas normas da sociedade.

A família de João, ao invés de tentar entendê-lo e ajudá-lo, o trancou em seu quarto e o abandonou, mostrando a falta de empatia e compaixão que muitas vezes vemos nas relações humanas. Ao longo do conto, João tenta se adaptar à sua nova forma e até aprende a apreciar algumas das coisas que antes lhe causavam repulsa, mostrando a capacidade do ser humano em se adaptar e encontrar beleza nas situações mais inesperadas.

No entanto, a falta de aceitação de sua família e a sociedade o leva a um trágico fim, morrendo sozinho em seu quarto, esquecido por aqueles que ele mais amava. Isso pode ser interpretado como a consequência da falta de empatia e compaixão em nossas relações humanas, e a necessidade de aceitar e entender as diferenças dos outros, para construir uma sociedade mais justa e inclusiva.

Em resumo, a metamorfose de João é uma metáfora para a alienação e a desumanização da sociedade moderna, que muitas vezes exclui aqueles que não se enquadram nas normas estabelecidas, mostrando a importância da empatia, compaixão e aceitação para construir uma sociedade mais justa e inclusiva.


-------Gramática--------


 5 questões gramaticais com respostas retiradas do conto 


1.Qual é a pessoa gramatical predominante no conto "A Metamorfose"?

Resposta: A pessoa gramatical predominante no conto "A Metamorfose" é a terceira pessoa do singular.


2.Qual é o tempo verbal predominante no conto "A Metamorfose"?

Resposta: O tempo verbal predominante no conto "A Metamorfose" é o pretérito perfeito simples.


3.Qual é o sujeito da frase "João tentou se comunicar com eles, mas tudo o que saía de sua boca eram sons estranhos e incompreensíveis."?

Resposta: O sujeito da frase é "João".


4.Qual é o objeto direto da frase "Sua família ficou horrorizada com sua aparência e o trancou em seu quarto."?

Resposta: O objeto direto da frase é "ele".


5.Qual é a função gramatical da palavra "em" na frase "João morreu sozinho em seu quarto."?

Resposta: A palavra "em" é uma preposição que indica lugar, indicando o local onde João morreu.