A cadeira de rodas rangia suavemente sobre o pavimento ligeiramente irregular, um som abafado pela brisa fresca do outono. Dona Aurora apertava as mãos enrugadas no colo, sentindo o leve empurrão das mãos firmes de seu filho, Ricardo, nas alças da cadeira. O cheiro de folhas secas pairava no ar.
— Estamos quase chegando, mamãe — disse Ricardo, a voz baixa, embora ela soubesse que ele se esforçava para parecer casual.
Dona Aurora não respondeu, mas inclinou a cabeça para trás, erguendo o olhar. O céu de um azul pálido estava pontilhado de nuvens brancas e macias, algumas longas e finas como pinceladas de algodão, outras volumosas como montanhas distantes.
Nuvens...
Em sua mente, a viagem para o Asilo Recanto da Serenidade se desdobrou em um filme silencioso, projetado no teto azul do mundo.
Viu a si mesma, ainda menina, deitada na grama do quintal, tentando adivinhar formas nos cúmulos. Lembro-se daquele dia em que jurou ter visto um castelo altíssimo e um dragão.
Ah, a infância... era o sabor da goiabada da vovó e o cheiro de terra molhada.
O asfalto sob as rodas mudou para uma calçada mais lisa. A realidade retornou por um instante. Ela estava sendo levada para o seu último lar. Não era o desfecho que ela havia imaginado nos seus dias mais jovens, mas quem alguma vez consegue moldar o destino?
Lembrou-se do dia do seu casamento com Manuel. O dia estava tão ensolarado! As nuvens eram quase invisíveis, ofuscadas pela felicidade brilhante que a envolvia. A nuvem que ela se recusava a ver era a sombra da guerra que levou seu jovem marido cedo demais.
Fechou os olhos por um segundo. A dor era antiga, mas ainda a tocava. No entanto, ela abriu os olhos rapidamente, forçando-se a olhar novamente para o céu. Não se podia viver na escuridão de uma dor de meio século.
— Você está bem, mamãe? — perguntou Ricardo, parando um momento.
— Estou apenas apreciando o espetáculo — ela respondeu, com um fio de voz que ainda carregava a doçura do sul.
O espetáculo da vida, pensou. Depois de Manuel, vieram os anos de trabalho árduo, as madrugadas na fábrica, a criação de Ricardo sozinha. Não foi fácil. Não houve príncipes, apenas o peso das responsabilidades. Mas olhe para Ricardo! Um homem bom, gentil, com a força de Manuel e a sua própria teimosia.
As nuvens de tempestade também passam, e depois o céu fica limpo, mais azul do que antes.
Ela pensou no asilo. Ricardo tinha lhe falado sobre o jardim florido, a biblioteca aconchegante, as outras senhoras e senhores com quem ela poderia conversar. Talvez fosse bom. Um lugar para descansar, para finalmente não ter que se preocupar em cozinhar, limpar ou cuidar de si. Talvez fosse como o último capítulo de um livro bem escrito: a resolução, a calma final antes de fechar a capa.
A nova vista.
Ela imaginou a janela do seu novo quarto. Olharia para as nuvens todos os dias, mas de uma perspectiva diferente. Um lugar de paz onde as memórias poderiam ser saboreadas, não mais carregadas. Ricardo não a estava abandonando; ele a estava colocando em um casulo de segurança. E o amor deles continuaria, forte e inabalável.
O asilo surgiu à vista, uma construção grande e elegante, aninhada em meio a árvores altas. Eles pararam na porta. Ricardo ajoelhou-se ao lado da cadeira, segurando sua mão. Os olhos dele estavam marejados.
— Eu virei vê-la todos os dias, mamãe. Eu prometo.
Dona Aurora apertou-lhe a mão e sorriu, um sorriso genuíno que não dava há meses.
— Eu sei, meu filho. Agora me deixe entrar. Tenho muitas nuvens para observar.
Dez anos depois.
O tempo tinha sido gentil, na medida do possível. Dona Aurora estava com noventa e nove anos. O corpo cansado, mas a mente límpida. Todas as tardes, pontualmente às quatro e meia, ela se sentava em sua cadeira de rodas favorita, perto da janela do salão, com vista para a longa estrada de acesso do asilo.
Ela olhava para o céu, para as nuvens.
Hoje, elas estavam dispersas e douradas, banhadas pela luz do entardecer. Ela via formas que não tentava mais decifrar, apenas apreciava a sua beleza fugaz.
A promessa de Ricardo não havia sido cumprida à risca; a vida dele tinha se tornado agitada, e as visitas, embora sempre atenciosas, eram mais raras do que ele gostaria. Mas ela não guardava rancor. O amor era paciente.
De repente, ela sentiu aquele aperto familiar de antecipação no peito. Não a excitação da juventude, mas a cálida certeza do reencontro. Os olhos de Dona Aurora, cansados, mas focados, fixaram-se no horizonte da estrada.
Lá estava.
Um carro azul-marinho, pequeno e familiar, virando a curva. Não era o carro mais moderno, mas era o carro dele. O carro de Ricardo.
O coração de Dona Aurora deu um salto, tão leve quanto uma pluma. Ela sorriu para as nuvens douradas, que pareciam ter esperado por este momento. Ele tinha vindo.
Ela endireitou-se na cadeira. Aos noventa e nove anos, com o céu a pintar o mundo de esperança, Dona Aurora esperou que seu filho viesse buscá-la para, pelo menos, uma hora de conversa. E soube, então, que as mais belas nuvens de sua vida ainda estavam por vir.
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