Envelhecimento, fato que não se pode fugir 09/10

 Finalizada a semana, e quase finalizando minha crônica sobre o envelhecimento, hoje tirei o dia para falar do conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa. Acho este conto muito pertinente para refletirmos sobre a passagem do tempo.

Quando jovens, apesar de o mundo nos ser apresentado com todos os seus costumes e modos, a morte parece algo distante. Na juventude estamos no viço da vida e, sendo assim, não nos preocupamos com ela. Esquecemos que o envelhecimento é inerente ao viver. Vive-se sem pensar no amanhã, e assim a vida torna-se mais leve; o medo de existir e, logo depois, deixar de existir fica adormecido em algum lugar da consciência.

Como prometido, vou tentar contextualizar essa reflexão com o conto em questão. Há um pai e um filho. O pai abandona a família, e parece que quem realmente sente esse abandono é apenas o filho. Mas é um abandono estranho, quase inconsciente, pois o pai aparenta perder o juízo e passa a morar em uma canoa no meio de um rio.

Isso transforma completamente a vida daquela família. A mãe sente vergonha, preocupação, e uma família antes estruturada passa, aos poucos, a se tornar uma família em ruínas. O tempo passa, e aquela situação típica do interior — algo impensável nos dias de hoje acontecer da mesma forma — permanece suspensa, como uma ferida aberta.

Escrevi um conto espelhado nessa narrativa, retratando a vida de mendigos. Como se tornaram mendigos? O que os levou ao desamparo? Bebida? Drogas? Abandono? Como conseguem viver assim? Pessoas que, muitas vezes, finalizam a existência em asilos. Será que eu também finalizarei a minha existência em um asilo?

Tenho somente uma filha. De certa forma, deixei a minha genética restrita a uma única pessoa. O conto de João Guimarães Rosa me traz esses sentimentos e me faz refletir profundamente.

Como já comentei em outro momento desta reflexão, certa vez visitei, a serviço, um hospital antigo da minha cidade. Observei que, na ala mais pobre, destinada aos pacientes atendidos pelo SUS, estavam justamente os mais velhos e necessitados.

Tudo aquilo que conquistamos ao longo da vida acaba sendo disponibilizado para o nosso próprio fim? A vida nos leva a gastar de forma desenfreada. Muitos ganham bem, possuem plano de saúde enquanto jovens, mas, quando chega a velhice, acabam dependendo da saúde pública.

A crônica de hoje está um pouco pessimista diante do futuro. Claro que também haverá boas coisas a serem observadas. Ainda assim, a reflexão permanece.

Sexta-feira, 08 de maio de 2026. Bora.

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