Há uma idade curiosa na vida em que o espelho começa a negociar conosco. Já não devolve o rapaz despreocupado que atravessava madrugadas sem pagar pedágio ao corpo, mas também ainda não entrega aquele senhor resignado que fala das dores como quem comenta a previsão do tempo. Aos quarenta e três anos, descubro que estou exatamente nesse território ambíguo, uma espécie de fronteira silenciosa onde o sujeito deixa de acreditar na juventude eterna, mas ainda se recusa terminantemente a aceitar a palavra “velho” como definição oficial de si mesmo.
É curioso observar isso dentro de uma academia. O ambiente, que para muitos parece apenas um depósito de halteres e músicas excessivamente animadas, acaba se transformando num retrato filosófico do tempo. Quando o tédio me alcança entre uma série e outra, costumo subir ao mezanino e caminhar na esteira observando os frequentadores. E ali existe um espetáculo humano muito mais interessante do que qualquer televisão ligada em programa esportivo. Senhores de cabelos completamente brancos dividem aparelhos com rapazes de vinte anos que ainda acreditam possuir articulações indestrutíveis. Senhoras que talvez tenham atravessado décadas cuidando da família, trabalhando, esquecendo de si mesmas, agora descobrem músculos que nem imaginavam possuir. Entre eles, um pastor de quase sessenta anos segue disciplinadamente sua rotina, sem aparência de heroísmo, sem alarde, apenas empurrando o próprio corpo para diante como quem entendeu uma verdade simples: envelhecer não é opcional; deteriorar-se antes da hora, muitas vezes, é.
Numa cidade de quase oitenta mil habitantes, chama atenção como ainda é pequeno o número de pessoas que enxergam o exercício físico não como vaidade, mas como manutenção da própria liberdade. Porque no fundo é disso que se trata. Mobilidade é liberdade. Conseguir abaixar para amarrar um sapato sem gemer como uma porta enferrujada é liberdade. Levantar da cama sem precisar negociar com a lombar é liberdade. Subir escadas sem parecer um personagem de filme de guerra também é liberdade. E talvez o grande equívoco moderno seja acreditar que o corpo tolerará indefinidamente décadas de negligência apenas porque conseguimos sobreviver a elas.
Eu mesmo comecei academia aos trinta e quatro anos não por paixão atlética nem por sonhos tardios de virar capa de revista fitness. Entrei para corrigir pequenas tragédias silenciosas acumuladas ao longo da vida: dores nas costas, magreza excessiva, uma baixa hormonal que parece ter decidido seguir carreira própria, ignorando completamente minhas opiniões sobre o assunto. Descobri então que o corpo possui memória. Ele registra a cadeira torta, o colchão inadequado, a postura errada diante do computador, o sedentarismo tratado como detalhe insignificante durante anos. E cobra tudo depois, com juros e correção monetária.
As dores das costas, por exemplo, não desaparecem com frases motivacionais nem com vídeos de internet prometendo milagres em cinco minutos. Os músculos encurtados, os amarres da coluna, tudo isso exige repetição, disciplina e exercícios que ninguém faria espontaneamente na natureza. Não existe nada intuitivo em puxar uma barra presa por cabos de aço enquanto um instrutor manda “contrair a escápula”. Mas ali, naquele movimento aparentemente ridículo, mora uma tentativa sincera de reconstruir o corpo antes que ele desista de vez de cooperar conosco.
E então surgem exemplos famosos que ajudam a alimentar a esperança coletiva. Rodrigo Faro, por exemplo, frequentemente fala sobre sua rotina rigorosa de exercícios, alimentação equilibrada e acompanhamento constante da saúde. Mantém treinos regulares de musculação, exercícios aeróbicos, preocupação com descanso e alimentação disciplinada, algo que naturalmente se torna mais viável quando o dinheiro permite acesso aos melhores profissionais, nutricionistas e horários flexíveis. Claro que ajuda bastante. Seria hipocrisia fingir que não. Dinheiro compra tempo, e tempo é um luxo decisivo quando o assunto é saúde.
Mas existe uma parte dessa equação que continua democrática: ninguém pode terceirizar completamente o cuidado consigo mesmo. Nem celebridade, nem pastor, nem aposentado, nem sujeito comum da academia de bairro. O exercício físico talvez seja uma das raras áreas da vida em que o corpo responde menos ao discurso e mais à insistência. Ele não se impressiona com intenções. Responde apenas ao que é repetido.
Talvez por isso eu goste de observar aqueles senhores treinando. Porque existe algo profundamente digno em alguém que decide lutar pela própria autonomia quando seria muito mais fácil simplesmente aceitar a decadência como roteiro inevitável. Cada repetição feita por uma senhora de cabelos grisalhos carregando halteres leves parece dizer silenciosamente: “Ainda não.” Cada caminhada lenta na esteira parece uma pequena rebelião contra o enferrujamento natural do tempo.
E talvez envelhecer bem seja exatamente isso: não vencer o tempo — porque essa batalha já nasce perdida — mas impedir que ele nos encontre completamente desmontados quando finalmente chegar.

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