9.2.26

Um encontro estranho

 Os sábados em Telêmaco Borba costumam seguir uma liturgia de paz. Eu e minha esposa saímos cedo para enfrentar o asfalto, tentando convencer os músculos de que o fim de semana não é só descanso. Já encontramos de tudo: desde o gato Félix, um herdeiro das ruas, até um aposentado caprichoso que tratava as pedrinhas da fachada como joias lapidadas. Mas nada nos preparou para o "fator Ian".

Eram sete da manhã. O sol ainda bocejava quando paramos em uma dessas pracinhas de idosos. Eu me dedicava ao exercício hercúleo de me alongar; ela, sentada no banco, buscava o consolo espiritual no livro Corra com os Cavalos. Foi quando o silêncio da manhã foi quebrado por um jovem de preto, ostentando um cabelo amarelo de um tom que a natureza certamente não autorizaria, dentes impecáveis e uma magreza de quem corre mais que os cavalos do livro.

Apresentou-se como Ian. Vinha de Curitiba, era garçom no Tibor e estava saindo do expediente, mas trazia consigo o fôlego de um maratonista da dialética. Disse ser estudante de biomedicina — detalhe que, mais tarde, o "FBI doméstico" via Instagram (@ian_brotto) confirmaria ser a mais pura verdade. Ian era um ateu convicto, cético de carteirinha e dono de um discurso labiríntico que não dava brecha para o meu evangelismo matinal.

No meio daquela conversa interminável, tentei decifrar sua idade. — Você tem o quê? Uns 37? — arrisquei. — Tenho 24 — respondeu ele, seco. — E eu? Quantos me dá? — Uns 31 — chutou, talvez por gentileza ou delírio de sono. — Quarenta e três — retruquei, sentindo o peso da minha própria certidão de nascimento.

Para encerrar o monólogo, minha esposa precisou de uma precisão cirúrgica. Quando ele ameaçou nos acompanhar até o Jardim União, ela traçou o meridiano: "Eu vou para cá, e você vai para lá". E assim, cada um seguiu com seus deuses — ou a ausência deles.

O problema é que o encontro ficou martelando na minha cabeça. O dia passou, o almoço se foi, e às três da tarde, enquanto eu me preparava para levar a família ao cinema, a semelhança me atingiu como um raio. Ian era o retrato cuspido e escarrado do meu irmão.

Não resisti à inconveniência. Peguei o celular e liguei para o Ari. — Ari! Você não faz ideia. Encontrei um rapaz hoje cedo que é a sua cara! É o seu gêmeo perdido!

Eu esperava uma risada, talvez uma curiosidade fraternal. Mas Ari, que provavelmente não teve a manhã invadida por um estudante de biomedicina de cabelo amarelo, não apreciou a comparação. O silêncio do outro lado da linha durou o tempo exato de um julgamento.

Click.

Ele desligou na minha cara. Fui para o cinema com a família, mas com a estranha sensação de que, naquele sábado, quem realmente precisava de um "corra com os cavalos" era o meu irmão, para fugir das minhas ligações aleatórias.



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