24.12.25

O túmulo de vaga-lumes 1988

A Beleza Cruel do Cotidiano em "Túmulo dos Vagalumes"

​Se existe um filme capaz de desarmar qualquer espectador, esse filme é Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka), do mestre Isao Takahata. Produzido pelo Studio Ghibli, a obra frequentemente é confundida com uma "animação infantil" por quem não conhece a história, mas logo nos primeiros minutos, o tom de tragédia se estabelece.

​O que torna esse filme tão devastador não é apenas a morte, mas a forma como ele retrata a sobrevivência minuciosa. Enquanto outros filmes de guerra focam em generais e heróis, Takahata foca na logística da fome e na dignidade que se esvai.

​O Peso do Dia a Dia: Comer, Beber e Sobreviver

​A genialidade do Ghibli aqui está em mostrar que a guerra não é feita apenas de explosões, mas de espera e privação. O cotidiano de Seita e da pequena Setsuko é uma luta contra o relógio biológico.

  • A busca pelo alimento: No filme, o ato de comer deixa de ser um prazer e se torna uma contagem regressiva. Vemos o cuidado com que Seita guarda as famosas balas de fruta (Sakuma Drops) e como ele mistura água na lata vazia para que Setsuko possa sentir o último vestígio de açúcar.
  • As necessidades básicas: O roteiro não ignora o corpo humano. A falta de higiene, a dificuldade de encontrar um lugar para as necessidades básicas e o surgimento de doenças de pele são mostrados com um realismo desconcertante. Ir ao banheiro ou lavar uma roupa vira uma tarefa hercúlea quando o mundo ao redor está em cinzas.
  • A infância interrompida: Ver Setsuko tentando brincar ou dormir em meio ao calor úmido e à falta de água nos lembra que, na guerra, o cotidiano é a primeira coisa a ser destruída.

​O Horror que Cai do Céu: Chuva de Fogo

​Ao final da história, somos lembrados da causa de toda essa miséria: os bombardeios estratégicos sobre as cidades japonesas. Diferente das bombas convencionais, os ataques realizados pelos B-29 americanos utilizavam bombas incendiárias de fragmentação.

​Esses artefatos funcionavam de forma semelhante a "coquetéis molotov aéreos". Eram bastões preenchidos com napalm ou gel de gasolina que, ao atingirem as casas de madeira e papel típicas do Japão na época, espalhavam um fogo que não podia ser apagado com água comum.

​O céu ficava tingido de um laranja doentio enquanto milhares de pequenos recipientes caíam como "vagalumes de fogo", mas em vez de luz, traziam uma destruição lenta e agonizante. Cidades inteiras eram transformadas em fornos, forçando civis como Seita e Setsuko a fugirem com o pouco que tinham nas costas, deixando para trás não apenas suas casas, mas qualquer rastro de humanidade que o mundo ainda lhes oferecia.

Túmulo dos Vagalumes não é apenas um filme para chorar; é um documento sobre como a guerra corrói o cotidiano até que não reste nada além de memórias e silêncio.

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