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A maré da vida e o desconhecido


A maré da vida e o desconhecido

A morte de Laura Cardoso, aos 98 anos, me fez pensar sobre a vida de uma maneira que talvez não tivesse pensado ontem. A atriz morreu no dia 17 de agosto de 2026, depois de uma existência que atravessou praticamente um século e mais de oito décadas dedicadas à dramaturgia brasileira.

Noventa e oito anos é um tempo que parece enorme quando olhamos para ele de fora. É quase um século inteiro comprimido dentro de uma única vida. Laura nasceu em 1927, quando o mundo era muito diferente do que conhecemos hoje. Era criança quando começou a Segunda Guerra Mundial e tinha apenas dezoito anos quando o conflito terminou. Ao longo de sua vida, viu o mundo mudar de maneira quase inimaginável: atravessou guerras, transformações políticas, mudanças culturais, o surgimento e a popularização do rádio, da televisão, do cinema, dos computadores, da internet e, finalmente, de um mundo conectado por pequenos aparelhos que carregamos nas mãos.

E, ainda assim, tudo isso coube dentro de uma vida.

Talvez seja essa a coisa mais estranha da existência: quando estamos dentro dela, o tempo parece enorme; quando olhamos para trás, ele parece ter passado depressa.

A vida se parece com uma maré. Ela vem e vai. Quando vem, traz consigo pessoas novas, crianças, sonhos, projetos, famílias inteiras que começam a ocupar o espaço daqueles que vieram antes. Depois, lentamente, a maré recua. Alguns daqueles que chegaram primeiro desaparecem, e os que chegaram depois permanecem por algum tempo, até que também sejam levados.

Hoje, da janela do meu quarto, vejo meu sogro cuidando de alguns pintinhos caipiras. Eles já estão crescendo. Andam de um lado para outro, procuram alimento, seguem uns aos outros e parecem simplesmente existir, sem saber absolutamente nada sobre aquilo que os espera.

A cena é simples, quase insignificante. Mas talvez a vida seja justamente feita dessas coisas insignificantes que, quando observadas com atenção, se tornam enormes.

Aqueles pintinhos não sabem quanto tempo terão. Não sabem qual deles crescerá mais, qual ficará mais forte ou qual não chegará à idade adulta. Não sabem sequer que existe um futuro. Apenas vivem o presente.

Nós somos muito parecidos com eles.

A diferença é que construímos a ilusão de que sabemos para onde estamos indo.

Fazemos planos para o próximo ano, pensamos na aposentadoria, planejamos uma viagem, compramos uma casa, guardamos dinheiro, começamos um projeto, criamos filhos e fazemos planos para quando eles crescerem. Vivemos como se tivéssemos recebido alguma garantia de continuidade. Como se o amanhã fosse uma espécie de contrato assinado conosco.

Mas não existe contrato.

Existe apenas a sucessão dos dias.

Laura Cardoso chegou aos 98 anos, uma idade em que provavelmente já havia visto partir quase todos aqueles que começaram a vida ao seu lado. Pessoas que nasceram na mesma época, frequentaram lugares semelhantes, ouviram as mesmas músicas e testemunharam os mesmos acontecimentos foram, uma a uma, desaparecendo. A geração que veio com ela foi sendo silenciosamente levada pela maré.

E talvez seja isso que mais assuste na velhice: não apenas a percepção de que o próprio tempo está diminuindo, mas a constatação de que o mundo ao redor começa a ficar sem as pessoas que serviam como testemunhas da nossa própria história.

Há algo de profundamente solitário nisso.

Quando somos jovens, olhamos para os mais velhos e pensamos que eles sempre estiveram ali. Depois descobrimos que eles também foram crianças, também tiveram medo, também fizeram planos, também se apaixonaram, também perderam pessoas e também imaginaram que teriam muito tempo pela frente.

Até que um dia percebemos que aqueles que pareciam pertencer à paisagem começam a desaparecer.

E então chega a nossa vez de compreender que também pertencemos à paisagem de alguém.

É nesse ponto que a morte deixa de ser apenas uma notícia sobre uma atriz famosa. Ela passa a ser um espelho.

Laura Cardoso morreu, mas não morreu apenas uma mulher de 98 anos. Morreu uma testemunha de um mundo que já não existe. Com ela desaparece uma pequena parte de uma época que não poderá ser recuperada. É assim que a humanidade continua: pessoas partem, outras permanecem, novas pessoas nascem e ocupam os lugares deixados vazios.

A maré não para.

Ela apenas muda quem está na praia.

Talvez seja por isso que o nascimento de uma criança tenha algo de tão misterioso. Quando uma criança nasce, não pensamos imediatamente que estamos diante de alguém que um dia morrerá. Pensamos no começo, não no fim. Olhamos para um bebê e enxergamos possibilidades.

Mas o fim já está, de alguma maneira, escondido dentro do começo.

Isso não torna a vida menos bonita. Talvez torne justamente mais preciosa.

O problema é que sabemos que a morte existe, mas não sabemos quando ela virá. E é aí que surge aquilo que talvez seja uma das palavras mais inquietantes da existência humana:

E se?

E se houver alguma coisa depois?

E se não houver?

E se a consciência continuar de alguma maneira?

E se tudo terminar no instante em que nosso cérebro deixar de funcionar?

E se as religiões estiverem certas?

E se estiverem erradas?

E se aquilo que chamamos de eternidade for real?

E se a morte não for uma porta, mas simplesmente o fim?

O "e se?" acompanha o ser humano desde que ele percebeu que um dia morreria.

Talvez seja justamente por não sabermos que criamos tantas explicações. A humanidade construiu religiões, filosofias, mitologias e inúmeras interpretações sobre aquilo que existe depois da morte. Muitos de nós encontramos nessas crenças uma resposta para o desconhecido. Outros preferem permanecer na dúvida. Alguns afirmam ter certeza; outros admitem que não sabem.

Eu me pego pensando nisso com frequência.

A religião pode oferecer respostas, mas a morte continua sendo um dos maiores mistérios diante de nós. Podemos acreditar profundamente em alguma coisa e, ainda assim, reconhecer que nunca atravessamos essa fronteira para voltar e contar aos outros o que existe do outro lado.

E talvez essa seja uma das maiores limitações da condição humana: sabemos que a maré virá para todos, mas ninguém consegue nos contar exatamente como é estar do outro lado dela.

Por enquanto, estamos aqui.

Os pintinhos continuam crescendo na janela. Meu sogro continua cuidando deles. A vida continua acontecendo em pequenas coisas que quase nunca percebemos. Enquanto uma atriz de 98 anos é enterrada, uma criança nasce em algum lugar. Enquanto uma família chora uma perda, outra comemora uma chegada. Enquanto alguém termina sua história, outra pessoa começa a escrever as primeiras linhas da sua.

A maré vai.

A maré vem.

E nós estamos temporariamente sobre a areia.

Talvez a grande pergunta não seja quanto tempo teremos, porque isso não está inteiramente em nossas mãos. Talvez seja o que faremos com o pequeno intervalo entre a chegada e a partida.

Laura Cardoso teve 98 anos para preencher esse intervalo. Outros terão muito menos. Alguns partirão ainda crianças. Outros chegarão à velhice. Não existe uma medida que torne a vida justa nesse aspecto.

Mas existe algo que todos compartilhamos: nenhum de nós sabe exatamente quando a nossa maré começará a recuar.

Por isso, enquanto ela ainda está subindo, talvez seja preciso olhar um pouco mais para aquilo que temos diante dos olhos.

Os pintinhos.

A janela.

A família.

As pessoas que ainda estão aqui.

O dia que começou.

Porque talvez a vida seja exatamente isso: uma longa espera por um desconhecido que certamente chegará, enquanto tentamos descobrir como viver entre uma maré e outra.

E o mais curioso é que, mesmo sabendo que um dia seremos levados, continuamos vivendo.

Talvez seja justamente aí que esteja o mistério.

Talvez seja aí que esteja a própria vida. 

O Suor da Argentina Contra o Marketing do Brasil

 # O Suor Contra o Marketing


**8 de julho de 2026**


Ainda estou tentando entender a eliminação do Brasil. Confesso que imaginei que, depois da nossa queda, perderia completamente o interesse por esta Copa do Mundo. É quase sempre assim. Quando a seleção brasileira vai embora, parece que uma parte da competição perde a cor, como se o torneio deixasse de nos pertencer. Mas ontem à noite, dia 7 de julho, permaneci diante da televisão quase por inércia e acabei assistindo àquela que talvez tenha sido a maior partida de futebol que vi em toda a minha vida. E há uma ironia nisso que ainda me incomoda: a lição não veio do Brasil. Veio justamente da Argentina.


Durante boa parte do jogo, tudo parecia decidido. A Argentina perdia por dois a zero. O adversário administrava a vantagem com inteligência, o relógio caminhava sem misericórdia e, a cada minuto que passava, aumentava a sensação de que nem Messi conseguiria evitar o inevitável. O futebol costuma ser cruel quando resolve transformar o tempo em inimigo. Os comentaristas já falavam em fim de ciclo, as câmeras insistiam nos rostos abatidos dos argentinos, e eu mesmo, sentado no sofá, pensei que estava assistindo aos últimos minutos da carreira internacional de um dos maiores jogadores da história.


Mas existe uma característica fascinante no futebol, talvez a mesma que faz a vida valer a pena: ele não reconhece como definitivo aquilo que os homens chamam de impossível.


De repente, alguma coisa mudou. Não sei se foi uma orientação do treinador, uma palavra dita dentro de campo ou simplesmente aquele instante em que um grupo inteiro decide que perder não é mais uma opção. O fato é que a Argentina voltou a jogar como quem compreendeu que cada dividida valia uma existência, que cada metro conquistado era um pedaço de esperança e que, enquanto o árbitro não encerrasse a partida, ainda havia história para ser escrita. O primeiro gol devolveu a confiança. O segundo transformou o estádio em uma panela de pressão. E quando veio a virada, já nos acréscimos, não era apenas uma equipe comemorando uma classificação; era uma demonstração de que a vontade humana ainda consegue, de vez em quando, desafiar a lógica.


Enquanto todos corriam para celebrar, meus olhos procuravam apenas um homem.


Lionel Messi.


Vi um jogador de trinta e nove anos. Não vi o garoto que encantava o Barcelona nem o atleta que durante anos parecia desafiar as leis da física. Vi alguém cansado. Vi um corpo que já não responde com a mesma explosão de antes, mas que ainda encontra forças porque a alma se recusa a aceitar o limite imposto pela idade. Pela primeira vez tive a impressão de que Messi entendia perfeitamente que aquele poderia ser o jogo da sua vida. Não porque fosse uma final. Não porque valesse uma taça. Mas porque existem partidas que resumem uma carreira inteira. Há dias em que um atleta deixa de jogar por noventa minutos e passa a disputar o próprio legado.


Talvez tenha sido isso que mais me emocionou.


Não foi a técnica.


Não foi o placar.


Foi a entrega.


Foi perceber que um homem que conquistou praticamente tudo o que o futebol pode oferecer ainda corria atrás de uma bola perdida como se fosse um garoto tentando conquistar o primeiro contrato da vida. Quem já ganhou tudo não deveria correr assim. Mas talvez seja exatamente por correr assim que alguns conseguem ganhar tudo.


Foi impossível não pensar no Brasil.


Enquanto observava aquela seleção argentina se recusando a aceitar a derrota, lembrei-me do que vi na nossa equipe poucos dias antes. Vi um elenco repleto de estrelas, cercado por contratos milionários, campanhas publicitárias, redes sociais impecavelmente administradas e uma indústria do entretenimento que parece ter descoberto como transformar jogadores em produtos antes mesmo de transformá-los em campeões. Não estou condenando o sucesso financeiro. Seria injusto fazê-lo. O futebol mudou, e é natural que grandes atletas também sejam grandes marcas. O problema começa quando a marca passa a ocupar mais espaço do que o atleta.


Vivemos a era do marketing.


Uma época em que a imagem parece valer mais do que a preparação. Em que seguidores parecem importar mais do que quilômetros percorridos em campo. Em que um comercial bem produzido recebe mais atenção do que uma temporada inteira de disciplina silenciosa. E talvez seja justamente aí que resida o maior problema da nossa geração esportiva: aprendemos primeiro a vender nossa imagem e só depois pensamos em construir uma história capaz de sustentá-la.


O Brasil, infelizmente, parece ter se especializado nisso.


Vivemos surfando sobre um passado que não nos pertence mais.


Repetimos os nomes de Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros como se suas conquistas ainda fossem patrimônio esportivo suficiente para intimidar qualquer adversário. Mas o futebol não concede herança. A camisa pesa apenas alguns segundos. Depois que a bola rola, ela volta a ser apenas tecido. O que decide uma partida continua sendo aquilo que sempre decidiu: preparo, organização, disciplina, coragem e capacidade de suportar a dor quando ela aparece.


Talvez por isso a Copa do Mundo seja muito mais do que um campeonato.


Sempre ouvi dizer que uma seleção representa um país. Hoje acredito que isso seja mais verdadeiro do que nunca. Durante algumas semanas, uma nação inteira apresenta ao mundo aquilo que conseguiu produzir de melhor. Não apenas seus jogadores, mas seu método de formação, sua cultura esportiva, sua organização, sua seriedade e sua capacidade de transformar talento em resultado.


Por isso, quando olho para o Brasil dentro de campo, às vezes tenho a impressão de estar olhando para o Brasil fora dele.


Somos um país extraordinariamente talentoso.


Talento nunca nos faltou.


O que frequentemente nos falta é continuidade.


Planejamento.


Disciplina.


Constância.


Gostamos da ideia do improviso. Alimentamos a fantasia de que o brasileiro resolve tudo na genialidade. Crescemos ouvindo que somos o país do jeitinho, da criatividade, da improvisação. Talvez isso tenha funcionado quando o futebol dependia apenas do talento individual. Mas o esporte mudou.


Hoje o futebol é ciência.


Existem departamentos inteiros dedicados à análise de desempenho. Há monitoramento físico em tempo real, inteligência artificial, estatísticas capazes de medir cada corrida, cada passe, cada recuperação de bola. A arbitragem utiliza tecnologia para revisar lances decisivos. A preparação física é planejada quase ao milímetro. Os adversários estudam semanas para neutralizar um único jogador.


Nesse cenário, talento continua sendo indispensável.


Mas talento sem organização tornou-se insuficiente.


Talvez seja justamente por isso que a Argentina tenha me impressionado tanto. Não porque seja perfeita. Não porque tenha os jogadores mais rápidos ou o elenco mais valioso. Impressionou-me porque, quando tudo parecia perdido, desapareceu o estrelismo e surgiu apenas um time disposto a competir.


É curioso como essa lição ultrapassa as quatro linhas.


Vivemos em uma sociedade que aprendeu a parecer antes de aprender a ser. Fotografamos o sucesso antes de conquistá-lo. Publicamos projetos antes de realizá-los. Construímos personagens para as redes sociais enquanto negligenciamos a pessoa real que deveria existir por trás deles. Queremos os aplausos da chegada, mas frequentemente evitamos o desgaste da caminhada.


Talvez seja por isso que a velha pergunta da Legião Urbana continue ecoando com tanta força: **"Que país é este?"**


Não porque nos falte inteligência.


Não porque nos falte riqueza.


Muito menos porque nos faltem oportunidades.


Talvez porque ainda insistamos em acreditar que grandes vitórias acontecem por acaso.


Esperamos ganhar na Mega-Sena.


Esperamos que o próximo governo resolva tudo.


Esperamos o Hexa.


Esperamos que alguém faça por nós aquilo que deveria começar dentro de cada um de nós.


Enquanto esperamos, outros países trabalham.


Planejam.


Erram.


Corrigem.


Voltam.


Persistem.


E vencem.


No fundo, talvez a Copa do Mundo funcione apenas como um espelho. Ela não cria nossas virtudes nem nossos defeitos. Apenas os amplia diante de bilhões de pessoas.


Aquela virada da Argentina não foi apenas uma virada de futebol.


Foi uma demonstração de que a história nunca pertence a quem acredita que já venceu.


Pertence àquele que continua correndo quando todos já desistiram.


Ao desligar a televisão, pensei que talvez a maior derrota do Brasil não tenha sido a eliminação desta Copa.


Nossa maior derrota será continuar acreditando que marketing substitui suor, que tradição substitui trabalho e que passado substitui futuro.


Porque nenhuma propaganda ganha uma dividida.


Nenhum contrato publicitário marca um gol.


Nenhuma rede social conquista uma Copa do Mundo.


No fim das contas, continuam vencendo as mesmas coisas de sempre: preparo, coragem, disciplina e trabalho.


Talvez o Hexa não comece no próximo Mundial.


Talvez ele comece quando o Brasil compreender que o caminho entre o sonho e a vitória continua sendo exatamente o mesmo de cem anos atrás.


Suor.


E isso vale muito mais para uma nação do que para um time de futebol.


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## Como esta crônica foi escrita


Muitas pessoas imaginam que um texto produzido com o auxílio da inteligência artificial nasce pronto. Não foi o caso desta crônica.


O processo começou exatamente como acontece com qualquer cronista: diante de uma ideia. Depois de assistir ao jogo entre Argentina e seu adversário nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, senti que não queria escrever apenas sobre futebol. O que realmente me chamou a atenção foi a forma como a partida se transformou em uma metáfora sobre disciplina, preparo, organização e o momento que o Brasil atravessa.


Minha primeira tarefa foi reunir, de maneira desordenada, tudo o que estava na minha cabeça. Escrevi frases soltas, opiniões, lembranças do jogo, críticas ao excesso de marketing no futebol brasileiro, a figura de Messi aos 39 anos, a virada do placar, a relação entre a Copa do Mundo e a sociedade brasileira e até referências culturais, como a música "Que País É Este?", da Legião Urbana. Nada estava organizado. Era apenas um fluxo de pensamentos.


Em seguida, pedi à inteligência artificial que organizasse essas ideias em forma de crônica. O primeiro resultado, porém, não me agradou. Achei que o texto havia perdido justamente aquilo que considero essencial em uma boa crônica: períodos mais longos, um ritmo mais reflexivo e, principalmente, o impacto emocional da virada da Argentina, que era o verdadeiro ponto de partida da reflexão.


Então comecei a orientar a IA de forma mais específica. Em vez de aceitar a primeira versão, fui refinando os comandos. Pedi que o texto tivesse um tom opinativo, agradável e convidasse o leitor à reflexão; solicitei que a virada do placar fosse o eixo narrativo; critiquei o excesso de frases curtas e expliquei que gosto de uma escrita com períodos longos, em que uma ideia conduz naturalmente à outra. Também pedi que a reflexão sobre o Brasil surgisse a partir do jogo, e não o contrário.


A cada nova versão, o texto era reescrito, discutido e ajustado. Algumas passagens foram descartadas; outras nasceram de observações que fiz durante esse diálogo. A inteligência artificial não viveu a emoção da partida, não teve as impressões que tive diante da televisão e não formulou, por conta própria, a crítica social presente na crônica. Seu papel foi semelhante ao de um editor: organizar ideias, sugerir construções e oferecer alternativas de escrita, sempre sob minha orientação.


O resultado final é fruto dessa colaboração. A emoção, a interpretação e a opinião são minhas. A inteligência artificial foi utilizada como uma ferramenta de lapidação do texto, assim como um escritor pode recorrer a um revisor, a um editor ou a um colega de profissão para aperfeiçoar sua escrita.


Talvez essa seja a melhor maneira de compreender o papel da IA na produção literária contemporânea: ela não substitui a experiência humana, mas pode ajudar a dar forma às ideias de quem tem algo a dizer.



A anilha de 10kgs que nunca esquecerei

A Anilha, o Dedão e a Bota

Por Waldryano

Era para ser apenas mais um treino comum.

Nada de extraordinário. O peso estava ali, como sempre esteve. O ambiente era familiar. Os movimentos repetiam uma rotina já conhecida. A gente faz essas coisas tantas vezes que acaba acreditando que domina completamente cada detalhe.

Até que um detalhe resolve nos lembrar que não.

Uma anilha de dez quilos escapou.

Não foi uma cena cinematográfica. Não houve câmera lenta, trilha sonora dramática ou heróis correndo para ajudar. Foi apenas um segundo. Um único segundo entre segurar e não segurar mais.

E então ela caiu.

A gravidade, que trabalha sem folga e sem misericórdia, fez o resto.

A dor veio antes mesmo do raciocínio. Primeiro o susto. Depois aquela sensação estranha de que algo importante aconteceu, mas a mente ainda está tentando entender exatamente o quê.

Olhei para o pé.

O dedão, que até aquele momento passava despercebido como todo dedão costuma passar, tornou-se o centro absoluto do universo.

Quem nunca machucou um dedo do pé talvez não compreenda. O corpo inteiro continua funcionando, mas a atenção se concentra naquele pequeno ponto como se nada mais existisse.

Vieram o hospital, os exames, as radiografias e a palavra que ninguém gosta de ouvir:

Fratura.

Não era o fim do mundo. Mas, naquele instante, parecia o início de uma longa negociação com a própria ansiedade.

A bota ortopédica entrou em cena.

Curioso como um objeto tão simples pode transmitir sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que incomoda, aperta e limita os movimentos, também oferece uma espécie de segurança. Com ela, eu me sentia protegido. Sem ela, parecia que o pé estava vulnerável demais.

Nos primeiros dias, qualquer alteração gerava dúvidas.

O inchaço está normal?

Posso caminhar?

Posso ir à igreja?

Posso dormir sem a bota?

Será que piorou?

Será que melhorou?

A recuperação física acontece em silêncio. O osso trabalha escondido, longe dos olhos. Já a mente não. Ela fala o tempo inteiro.

Descobri que acidentes pequenos têm um jeito curioso de nos desacelerar. Somos obrigados a observar coisas que normalmente ignoramos. O simples ato de levantar da cama vira planejamento. Caminhar alguns metros ganha importância. Vestir um calçado deixa de ser automático.

E, de repente, aquilo que parecia banal passa a ser valorizado.

Hoje, olhando para trás, percebo que o acidente não foi apenas sobre uma anilha que caiu.

Foi sobre fragilidade.

Foi sobre entender que o corpo tem limites.

Foi sobre paciência.

E foi também sobre gratidão.

Porque, apesar do susto, da dor e das preocupações, tudo indica que o tempo fará o que sempre fez: consertar aos poucos aquilo que foi quebrado.

Enquanto isso, sigo caminhando devagar.

Literalmente.

E sempre que vejo uma anilha agora, confesso que a respeito um pouco mais do que antes. Afinal, dez quilos parecem pouca coisa... até resolverem cair exatamente sobre o seu dedão.