A Anilha, o Dedão e a Bota
Por Waldryano
Era para ser apenas mais um treino comum.
Nada de extraordinário. O peso estava ali, como sempre esteve. O ambiente era familiar. Os movimentos repetiam uma rotina já conhecida. A gente faz essas coisas tantas vezes que acaba acreditando que domina completamente cada detalhe.
Até que um detalhe resolve nos lembrar que não.
Uma anilha de dez quilos escapou.
Não foi uma cena cinematográfica. Não houve câmera lenta, trilha sonora dramática ou heróis correndo para ajudar. Foi apenas um segundo. Um único segundo entre segurar e não segurar mais.
E então ela caiu.
A gravidade, que trabalha sem folga e sem misericórdia, fez o resto.
A dor veio antes mesmo do raciocínio. Primeiro o susto. Depois aquela sensação estranha de que algo importante aconteceu, mas a mente ainda está tentando entender exatamente o quê.
Olhei para o pé.
O dedão, que até aquele momento passava despercebido como todo dedão costuma passar, tornou-se o centro absoluto do universo.
Quem nunca machucou um dedo do pé talvez não compreenda. O corpo inteiro continua funcionando, mas a atenção se concentra naquele pequeno ponto como se nada mais existisse.
Vieram o hospital, os exames, as radiografias e a palavra que ninguém gosta de ouvir:
Fratura.
Não era o fim do mundo. Mas, naquele instante, parecia o início de uma longa negociação com a própria ansiedade.
A bota ortopédica entrou em cena.
Curioso como um objeto tão simples pode transmitir sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que incomoda, aperta e limita os movimentos, também oferece uma espécie de segurança. Com ela, eu me sentia protegido. Sem ela, parecia que o pé estava vulnerável demais.
Nos primeiros dias, qualquer alteração gerava dúvidas.
O inchaço está normal?
Posso caminhar?
Posso ir à igreja?
Posso dormir sem a bota?
Será que piorou?
Será que melhorou?
A recuperação física acontece em silêncio. O osso trabalha escondido, longe dos olhos. Já a mente não. Ela fala o tempo inteiro.
Descobri que acidentes pequenos têm um jeito curioso de nos desacelerar. Somos obrigados a observar coisas que normalmente ignoramos. O simples ato de levantar da cama vira planejamento. Caminhar alguns metros ganha importância. Vestir um calçado deixa de ser automático.
E, de repente, aquilo que parecia banal passa a ser valorizado.
Hoje, olhando para trás, percebo que o acidente não foi apenas sobre uma anilha que caiu.
Foi sobre fragilidade.
Foi sobre entender que o corpo tem limites.
Foi sobre paciência.
E foi também sobre gratidão.
Porque, apesar do susto, da dor e das preocupações, tudo indica que o tempo fará o que sempre fez: consertar aos poucos aquilo que foi quebrado.
Enquanto isso, sigo caminhando devagar.
Literalmente.
E sempre que vejo uma anilha agora, confesso que a respeito um pouco mais do que antes. Afinal, dez quilos parecem pouca coisa... até resolverem cair exatamente sobre o seu dedão.
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