Sempre que acordo, procuro primeiro fazer um alongamento. As dores nas costas até podem vir, mas tento evitá-las logo no início do dia. Esse despertar, no entanto, nunca vem em silêncio: ele chega acompanhado do ronronar insistente de um gato que acorda bem antes de mim, exigindo sua ração.
Levanto, alimento o Félix, lavo o rosto e vou ao banheiro. Em seguida, preparo minha vitamina: um potinho com banana e maçã congeladas, cortadas em pequenos pedaços, batidas com leite. Deixo tudo no liquidificador enquanto começo a fazer minha farofinha — dois ovos, uma batata e alguns temperos.
Com a farofinha pronta, coloco-a em uma marmita preta de plástico, dessas que vão ao micro-ondas. Só então bato a vitamina. Prefiro as frutas congeladas porque deixam a mistura mais cremosa e evitam o desperdício de ter que descascá-las na hora. Depois de bater, adiciono um scoop de creatina e, antes de tomar, uma colher generosa de aveia em flocos médios.
Bebo tudo. Quando estou mais inspirado, ainda preparo um café — na caneca, ali na Mooca — e assisto um pouco de jornal. Já são 7h30. Dou um beijo na patroa e sigo de moto para a Vigilância Sanitária.
É aqui que amarro a ideia principal desta crônica: o envelhecimento.
Ao abrir a janela do terceiro andar deste prédio antigo, onde trabalho há quatro anos, vejo a vida acontecendo. Há uma árvore, um barracão, uma fábrica ao longe, onde surge uma nova construção. E há os pássaros — sempre eles. Vivem despreocupados diante do que tanto me inquieta: envelhecer.
Nunca saberei o grau de consciência desses pássaros. Ontem mesmo havia um diferente por aqui — parecia um pintassilgo. Mas, na imensa maioria, são pardais. E eu me pergunto: sou eu esse pardal comum, na minha existência?
Mais adiante, vejo uma bela casa antiga, de traços coloniais. Penso — e convido você que lê a pensar comigo: como alguém chega a morar em um lugar assim? Herdou? Conquistou? Já vi a moradora: uma senhora. E eu, com meus 43 anos, como tantos pardais, não ganho mais que dois salários mínimos — ao menos tenho um lugar para morar.
Nessa dinâmica da vida, os pardais são livres. A casa deles é qualquer chão. As árvores, cada vez mais escassas, tornam-se abrigo disputado. Enquanto divago, um deles dá sua bicada e voa. Simples assim.
Quanto tempo vive um pardal? E aquela mulher da casa nobre — quanto tempo ainda lhe resta ali?
Divago mais. Cada espaço ocupado por um ser humano carrega uma história que começou antes e terminará depois. Aprendemos que é assim: envelhecer, partir, e abrir espaço para que outro “pardal” chegue e continue a viver. Vamos viver esse dia 29/04/2026 Único.

0 Comentários