Envelhecimento, fato que não se pode fugir 07/10

 Hoje, ao vir para o trabalho, eu estava à procura de como iniciar minha crônica sobre o envelhecimento. Decidi que seria sensível ao que visse pelo caminho — e foi então que notei algo simples, mas suficiente para sugerir um texto curto e interessante.


Em frente a uma hamburgueria, construída em estilo container, bem elaborada, havia um senhor doguinho. Era evidente sua idade pelos pelos grisalhos ao redor da boca. Estava encolhido na entrada, tentando se proteger do frio. Levantou o olhar preguiçoso, típico de quem dormia um pouco mais, apesar dos raios de sol que o aqueciam — como se também lhe dissessem: “bom dia”.


Ele ergueu os olhos para um senhor que fazia sua caminhada diária. Não sei se aquele era exatamente o seu percurso habitual, mas intuí isso por estar mais sensível ao momento — lembre-se, eu buscava matéria-prima para escrever.


O homem, que imaginei ter cerca de 72 anos, talvez um médico japonês, trocou um breve olhar com o cão. Observei tudo de cima da moto. Foi um instante de poucos segundos, difícil de traduzir em palavras, mas que tento agora capturar. Um fitou o outro. O cachorrinho, percebendo não haver ameaça, voltou ao seu descanso. O senhor, com uma garrafinha metálica roxa na mão, seguiu seu caminho.


Já próximo ao trabalho, retomei meu filosofar existencial: quanto tempo há nesta existência que cada um possui? E como cada um a desempenha?


Ontem, assisti a um conteúdo sobre o sistema chinês, no qual, ao nascer, o cidadão é classificado como rural ou urbano. Aqueles designados como rurais, entre aspas, precisam se contentar com sua condição, vivendo no campo, pois ao migrarem para a cidade não têm pleno acesso a direitos como educação e saúde — ou, quando têm, precisam pagar por isso. Já os urbanos possuem esses direitos assegurados.


Esse sistema cria incentivos para alguns e barreiras para outros que desejam mudar sua condição. O resultado? Os do campo permanecem no campo; os da cidade, na cidade.


Nas áreas urbanas, muitos conhecem bem o chamado regime “996”: trabalhar das 9 da manhã às 9 da noite, seis dias por semana. A vida torna-se, então, quase exclusivamente trabalho — sem tempo para lazer. Esse ritmo desgastante impacta a qualidade de vida, o envelhecimento e até a decisão de ter filhos.


Há também um lado distópico: em cidades como Xangai, alguns prédios possuem estruturas de proteção para evitar suicídios — uma espécie de rede que simboliza, de forma silenciosa, o peso desse sistema.


A existência e o envelhecer, nesse contexto, parecem previamente determinados pelo governo. Há progresso? Sim. Mas em troca de uma mão de obra disciplinada, barata e exausta.


Já o japonês que mencionei — provavelmente aposentado — viveu sua vida no Brasil, teve melhores condições por ser médico, enfrentou seus desafios e agora desfruta da velhice caminhando, cuidando das articulações, vivendo um tempo mais seu.


No entanto, para todos, o envelhecimento é inevitável.


Nesta crônica, pensei até em amarrar o texto ao conto A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa. Mas deixarei isso para outro dia.


Hoje é quarta-feira, 06 de maio de 2026.


Seguimos…




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